Em entrevista aos sites Brasil 247, Fórum e DCM, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva concentrou parte de suas declarações em política internacional, com críticas à guerra no Irã, ao papel de Donald Trump e à conduta do governo de Israel no Oriente Médio. Lula também afirmou que não teme uma tentativa de interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira e disse que, se isso ocorrer, a iniciativa poderá beneficiá-lo politicamente.
Ao falar sobre Trump, Lula disse que o presidente americano “não precisava ficar ameaçando o mundo” e afirmou que essas ameaças “não fazem bem para a democracia”. Na mesma resposta, classificou o conflito envolvendo o Irã como “inconsequente” e associou a escalada ao aumento do preço da gasolina nos Estados Unidos.
Segundo Lula, ele próprio disse a Trump que um líder precisa escolher “se quer ser temido ou se quer ser amado”. O presidente brasileiro afirmou ainda que disse ao norte-americano que não quer guerra e que sua disputa com ele é “de argumento”, para mostrar, segundo suas palavras, “que nós estamos certos e você está errado”.
Na entrevista, Lula afirmou que Trump atua para agradar o eleitorado dos Estados Unidos com a imagem de um país superior e de uma potência dominante. Disse também que admira os Estados Unidos por sua economia, tecnologia e capacidade de trabalho, mas não por “autoritarismo do presidente”.
Ainda sobre a relação com Washington, Lula disse que contestou a justificativa usada por Trump para taxar produtos brasileiros. Segundo o presidente, ele afirmou ao americano que os Estados Unidos não têm déficit com o Brasil e que a lógica usada na taxação estaria errada.
Ao ser questionado sobre a possibilidade de interferência dos Estados Unidos na eleição brasileira, Lula respondeu que não tem receio. “Eu acho que ele me ajudaria muito se ele fizer isso”, disse o presidente, ao mencionar a possibilidade de uma ação de Trump no processo político brasileiro.
Na sequência, Lula classificou como “absurdo” o fato de Trump dar palpite em eleições de outros países e citou Honduras, Costa Rica e Hungria. Segundo ele, esse tipo de comportamento representa “uma intromissão sem precedente na soberania de um país”.
Lula também afirmou que, no caso do Brasil, “os meus adversários têm um filho lá” pedindo intervenção americana. Ele disse considerar um erro tanto o pedido feito por adversários brasileiros quanto uma eventual ação externa sobre a disputa eleitoral no país.
Questionado sobre uma eventual intervenção dos Estados Unidos sob o argumento de combate ao crime organizado, Lula respondeu que essa possibilidade não o preocupa. Segundo ele, o combate ao PCC e ao Comando Vermelho é uma tarefa do Estado brasileiro e “essa guerra é nossa”, embora tenha defendido cooperação com os Estados Unidos no enfrentamento ao narcotráfico, ao contrabando de armas e ao crime organizado.
Na parte da entrevista dedicada ao Oriente Médio, Lula fez críticas diretas ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. O presidente disse que Netanyahu é “o tipo de político que faz mal à humanidade” e afirmou que o Estado de Israel age com “complacência dos Estados Unidos”.
Lula afirmou que evita confundir o povo de Israel com o governo Netanyahu e disse que há israelenses que querem paz e discordam do atual premiê. Ao mesmo tempo, declarou que o governo israelense ocupa áreas destinadas ao Estado palestino sem respeitar decisões da ONU e que existe uma “subordinação histórica” entre Israel e os Estados Unidos.
Sobre a possibilidade de rompimento diplomático com Israel, Lula disse que já pensou nessa hipótese, mas afirmou que o governo precisa agir com cuidado para não tomar uma decisão precipitada. Segundo ele, a expectativa é que, em algum momento, o povo israelense retire Netanyahu do poder e eleja outro governo.
Na mesma entrevista, Lula voltou a defender o sistema multilateral e disse que Trump “não contribui com quem acredita no sistema multilateral” e com quem acredita na democracia. O presidente afirmou que seguirá participando de articulações com líderes de outros países para defender a democracia no cenário internacional.
Ao tratar dos reflexos econômicos do conflito, Lula afirmou que o governo tenta impedir que o preço do combustível ligado à guerra no Irã chegue “ao preço do feijão, ao preço da salada, ao preço do pão”. Segundo ele, esse é um dos objetivos da política do governo na área de combustíveis.
No conjunto da entrevista, Lula apresentou a crise internacional, a ação de Trump e a guerra no Irã como temas ligados à defesa da soberania brasileira, à democracia e ao custo de vida. Também procurou associar qualquer tentativa de pressão externa sobre o processo eleitoral do Brasil a uma ingerência indevida dos Estados Unidos sobre a política nacional.