Relatório da CPI do Crime conecta facções com sistema financeiro

Nesta terça-feira (14 de abril de 2026), durante a apresentação do relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado no Senado Federal, o relator Alessandro Vieira (MDB-SE) apresentou um documento de cerca de 220 páginas que conecta o crime organizado em facções e milícias com operações do mercado financeiro realizadas para lavagem de dinheiro.

“Os grupos criminosos, além de criptoativos e outros ativos – virtuais ou não –, têm igualmente se valido do sistema financeiro formal para ocultar ou dissimular a natureza ilícita dos bens originários”, escreveu o relator. Vieira aponta o caso do Banco Master como exemplo do uso do sistema financeiro para lavagem de dinheiro do crime organizado no Brasil.

“O caso Master evidenciou de forma incontornável que o crime organizado brasileiro atingiu um patamar de sofisticação em que facções criminosas de base territorial, como o PCC, operam em simbiose com operadores do mercado financeiro formal, valendo-se de fundos de investimento, gestoras de ativos e instituições bancárias para lavar bilhões de reais, corromper agentes públicos e capturar parcelas do aparato estatal e regulatório”, explicou o senador.

O relator acrescentou que a CPI constatou que a lavagem de dinheiro permanece como o mecanismo central de sustentação do crime organizado, que utiliza mercados lícitos para reciclar o dinheiro do tráfico de drogas e armas. A infiltração em setores como tabaco, ouro, combustíveis, mercado imobiliário e bebidas, aliada ao uso sofisticado de fintechs, criptomoedas e fundos de investimento, demonstra que a criminalidade organizada opera com grau de sofisticação empresarial que exige resposta qualificada do Estado.

O relatório apresentado ainda precisa de aprovação da CPI do Crime Organizado, que pode ter pedidos de vista do texto em sessão marcada para a tarde desta terça-feira (14). Diante da relação do crime organizado com o sistema financeiro, Alessandro Vieira defende que o enfrentamento à criminalidade não pode se limitar ao combate ostensivo de facções em territórios dominados.

“É igualmente necessário atuar sobre as cadeias econômicas que financiam essas estruturas, com especial atenção para mercados de consumo massivo, rotas logísticas já consolidadas e setores em que há aparência de legalidade”, afirmou. O relator acrescenta que, sem esse olhar econômico e patrimonial, a repressão tende a incidir apenas sobre manifestações visíveis da criminalidade, preservando os mecanismos que garantem sua reprodução financeira e institucional.

A CPI do Crime no Senado foi instalada após operação policial no Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, que resultou na morte de 122 pessoas, a maior letalidade de uma operação na história do país. O relator ainda destacou a importância de aumentar a fiscalização das armas e munições no Brasil. Segundo ele, alterações legislativas e falhas de fiscalização criam ambiente propício a desvios que interessam diretamente ao crime organizado.

Durante o governo anterior, foram editados decretos que flexibilizaram a posse de armas de fogo. Estudo do Instituto Sou da Paz aponta que tais medidas favoreceram o desvio de armamento para criminosos. Em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou novos decretos para restringir o acesso a armas no país, revertendo a flexibilização anterior.

Um dos focos da CPI foi investigar o papel das plataformas digitais e os ganhos econômicos das bigtechs com crimes na internet. Alessandro Vieira aponta que o ambiente digital é elemento estruturante no aliciamento e exploração de crianças e adolescentes. “Evidências mostram que plataformas amplamente utilizadas, como Facebook e Instagram, são centrais no aliciamento, enquanto sistemas de recomendação podem conectar usuários a redes ilícitas”, escreveu. A SaferNet Brasil registrou, entre janeiro e julho de 2025, um aumento de 18,9% nas denúncias de abuso e exploração sexual infantil online.

O relatório também aponta um déficit de mais de 202 mil vagas no sistema prisional brasileiro, o que permitiria que os presídios se tornassem centros de comando das organizações criminosas. Para suprir o déficit, seriam necessários aportes de R$ 14 bilhões. Vieira também destacou que a Polícia Federal opera com 40% de déficit no quadro funcional, o que reduz a capacidade do Estado de investigar e reprimir atividades ilícitas.

Por fim, o relator pediu o indiciamento dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Alexandre de Moraes, além do procurador-geral da República, Paulo Gonet. A base para o pedido é o caso do Banco Master, citando indícios de crimes de responsabilidade. O relatório também recomenda que o governo federal decrete uma intervenção federal no estado do Rio de Janeiro diante da infiltração do crime no Poder Público local.

Fonte: Agência Brasil.

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