A possibilidade de um Super El Niño — definido pelo aquecimento superior a dois graus Celsius da superfície do Pacífico Equatorial — acende alerta vermelho para a segurança hídrica da Grande São Paulo.
Autoridades e meteorologistas indicam que o fenômeno pode se instalar com intensidade forte ou muito forte ainda em 2026, trazendo risco elevado de estiagens prolongadas, especialmente sobre o Sistema Cantareira, principal reservatório que abastece a região metropolitana.
Projeções do Inmet e da NOAA apontam transição da neutralidade climática para condições de El Niño a partir de junho ou julho. O boletim do Inmet registra probabilidade de 62% para ocorrência do evento entre junho e agosto, com chance que supera 80% até o fim do ano, conforme detalhou o portal do Inmet em sua análise mais recente.
O Sistema Cantareira opera atualmente com cerca de 51,5% de sua capacidade, ante 58,6% no mesmo período do ano anterior. A redução representa déficit significativo de volume armazenado, equivalente a dezenas de dias de abastecimento para milhões de moradores da Grande São Paulo quando consideradas as perdas na distribuição.
O El Niño favorece bloqueios atmosféricos no Sudeste, o que inibe a formação de nuvens e reduz a ocorrência de chuvas. Modelos indicam que entre abril e junho o volume de precipitação pode ficar próximo de metade da média histórica, comprometendo a recuperação dos mananciais antes da estação mais seca.
Embora o Sistema Integrado Metropolitano conte com fontes complementares como Guarapiranga e Alto Tietê — que apresentam níveis relativamente melhores —, o Cantareira responde por aproximadamente 40% de toda a água captada pela Sabesp para a região metropolitana. Qualquer piora acentuada no principal reservatório afeta diretamente o equilíbrio geral do abastecimento.
A elevação projetada da temperatura do ar entre 0,4 e 0,6 grau Celsius acima da média histórica deve intensificar a evaporação nos reservatórios e aumentar o consumo urbano de água, configurando conjunção de fatores que eleva o perigo de colapso no sistema.
Até o momento, as autoridades adotam medidas preventivas. A Sabesp executa obras destinadas a aumentar a resiliência hídrica da Grande São Paulo, enquanto o governo estadual monitora continuamente o avanço do fenômeno e incorpora cenários de maior severidade nos protocolos operacionais.
Caso as chuvas se confirmem entre 40 e 45% abaixo da média, como sinalizam os modelos do CPTEC/Inpe e do Inmet, poderá ocorrer déficit de até 50 milímetros em relação ao normal. Essa condição, somada à evaporação acelerada, pode elevar de forma significativa o risco de racionamento na região.
O Cantareira inicia este outono com cerca de 28% menos água do que nos períodos anteriores à crise hídrica de 2014 e 2015, quando o sistema quase entrou em colapso. O quadro atual, combinado à perspectiva de Super El Niño, configura cenário que exige atenção prioritária das políticas públicas de gestão de recursos hídricos.
Especialistas reforçam que o uso consciente da água se tornou necessidade urgente. A redução de vazamentos, o combate ao desperdício doméstico, banhos mais curtos e a regulação de captações extraordinárias ganham importância estratégica para evitar consequências mais graves. Do lado institucional, torna-se indispensável o investimento contínuo em interligação de sistemas, novas fontes de captação e gestão integrada de bacias hidrográficas, de modo a fortalecer a resiliência frente aos padrões climáticos cada vez mais extremos.
Com informações de metropoles.com.
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