Uma expedição liderada pela Universidade de Cádiz escavou o fundo da Baía de Algeciras, entre o porto de Algeciras e o penhasco de Gibraltar, documentando 134 naufrágios que se perderam ali entre o século V a.C. e a Segunda Guerra Mundial, segundo reportagem do The Guardian. O projeto Herakles identificou 151 sítios arqueológicos no local; até agora 34 desses naufrágios foram descritos em detalhe.
O mais antigo destroço data da era púnica, do século V a.C., e entre os achados há 23 embarcações romanas, duas romanas tardias do mesmo grande período, quatro medievais e 24 da época moderna. Entre os navios modernos destaca-se uma lancha canhoneira espanhola do fim do século XVIII, o Puente Mayorga IV, que atuava furtivamente contra frotas britânicas, frequentemente disfarçada de barco de pesca antes de disparar seu canhão de proa.
Num gesto que mistura mistério e rotina, um objeto esculpido como um livro — que se pensou conter documentos secretos — revelou conter apenas dois pentes de madeira, indicando preocupações estéticas mais do que conspirativas. Felipe Cerezo Andreo, professor de arqueologia da Universidade de Cádiz e chefe do projeto, alertou que os destroços correm risco devido a dragagens portuárias, construção de cais e erosão provocada por mudanças climáticas.
O Herakles tem procurado preservar os achados tanto material quanto culturalmente: geólogos, historiadores e mergulhadores fizeram modelos virtuais e vídeos em 360° para exibir ao público, inclusive para quem não mergulha, tornando concreta a noção de que o mar guarda não apenas navios afundados, mas narrativas de impérios, rotas comerciais e encontros entre civilizações.
Essa enxurrada arqueológica subaquática reflete o caráter estratégico do Estreito de Gibraltar — conhecido na Antiguidade como Pilares de Hércules — um gargalo natural entre Atlântico e Mediterrâneo onde sempre convergiram rotas comerciais, migrações e guerras. O conjunto revela não apenas tecnologia naval diversa — dos navios púnicos às embarcações modernas do século XX — mas o entrelaçamento persistente de potências marítimas como Roma, o Império Espanhol e o Reino Unido na história oculta sob as ondas.
Há urgência na proteção legal e patrimonial desse tesouro molhado. O governo da Andaluzia e o ministério da Cultura da Espanha foram instados a adotar salvaguardas imediatas. O mar está falando através dessas relíquias; cabe às instituições ouvir, conservar e devolver ao presente as lições cifradas sob a água.
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