Uma pesquisa da Universidade McGill demonstrou que poços de petróleo e gás que não produzem mais liberam metano microbiano em taxas cerca de mil vezes maiores do que estimativas anteriores apontavam.
O estudo analisou 401 poços não produtivos no Canadá e constatou que o gás de origem microbiana — produzido por microrganismos em ambientes sem oxigênio — aparece em 23% desses poços, aproximadamente o triplo do que se pensava até então.
Rastros desse gás foram detectados em cerca de metade dos poços amostrados, o que indica uma presença muito mais disseminada do que os inventários ambientais oficiais reconheciam.
Conforme divulgou o portal de notícias da Universidade McGill, os pesquisadores conseguiram identificar a origem do gás em 100 dos 401 poços da amostra, aplicando análises de composição química e assinaturas isotópicas estáveis.
Essa técnica funciona como uma impressão digital química, capaz de distinguir o metano microbiano — gerado em formações rasas por ação biológica — do metano termogênico, produzido em profundidade por calor e pressão ao longo de milhões de anos.
A diferenciação é essencial porque vazamentos vindos de dentro da estrutura do poço exigem intervenções completamente distintas daqueles que se originam em camadas subterrâneas menos profundas.
O estudo, intitulado “Origins of Subsurface Methane Leaking from Nonproducing Oil and Gas Wells in Canada” e liderado por Gianni Micucci e Mary Kang, revelou ainda uma concentração brutal das emissões: apenas cerca de 12% dos poços são responsáveis por até 98% do metano liberado por fontes inativas.
Isso sugere que priorizar os maiores emissores pode gerar reduções expressivas de forma relativamente rápida.
No entanto, o metano microbiano complica essa estratégia. Mesmo poços considerados menores ou menos ativos podem liberar gás continuamente a partir de formações rasas, o que torna insuficiente qualquer abordagem que se limite a corrigir os pontos de emissão mais visíveis sem investigar os sistemas subterrâneos subjacentes.
O Canadá abriga cerca de 500 mil poços não produtivos, dimensão que revela a escala do problema ambiental em jogo.
O estudo alerta que esses poços antigos não são estruturas extintas, mas sistemas ativos que continuam contribuindo para o aquecimento global — e que, sem saber de qual profundidade o metano está saindo, equipes de reparo podem selar o ponto visível e deixar intacta uma via subterrânea de vazamento.
O problema não se restringe ao Canadá. Nos Estados Unidos, pesquisas sobre poços chamados de “orphaned” — abandonados sem proprietário claro — indicam que o país possui cerca de 3,6 milhões dessas estruturas, que em conjunto podem emitir entre 0,23 e 2,6 teragramas de metano por ano.
As taxas médias de vazamento variam de alguns gramas por hora a mais de 100 gramas de CH₄ por hora por poço, dependendo do tipo e da situação de cada estrutura.
O problema ambiental é agravado justamente pela diferença de origem do gás: o metano termogênico, profundo, é mais facilmente monitorado e estimado nas estatísticas oficiais.
O microbiano, gerado em camadas rasas por ação biológica, era produto de subestimação persistente nos inventários governamentais de emissões.
As implicações regulatórias são diretas e urgentes. Inventários ambientais oficiais, políticas de regulação e planos de contenção de emissões precisam ser revistos à luz desses novos dados, que apontam para uma subestimação sistemática das emissões provenientes de poços não produtivos tanto no Canadá quanto nos Estados Unidos.
Prevenir essas emissões exige identificar os poços com maiores vazamentos, aplicar técnicas de vedação eficientes — como cimento de selagem adequado ou isolamento do revestimento interrompido — e monitorar de forma contínua e científica tanto os poços visíveis quanto seus sistemas subterrâneos.
A nova metodologia combinando múltiplos indicadores químicos representa um avanço concreto para definir as melhores intervenções de reparo e para que os governos possam, finalmente, dimensionar com precisão esse passivo climático acumulado por décadas de exploração sem responsabilização.
Com informações de olhardigital.com.br.
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Carlos A. Mendes
17/04/2026
Como contador, fico indignado ao ver que o lucro dessas petrolíferas é privatizado, mas o passivo ambiental fica abandonado para a sociedade pagar. O pessoal da direita atual surta e diz que qualquer regulação ambiental é comunismo, mas fechar os olhos para números mil vezes piores do que o estimado é pura loucura. Alguém precisa auditar essa bagunça e cobrar a conta de quem realmente fez o estrago, simples assim.
Beto Engenheiro
17/04/2026
Muito estudo de universidade e pouca obra na prática, como sempre. Se tem poço vazando, a solução exige engenharia pesada: abrir licitação para tampar tudo direito ou construir infraestrutura de dutos para reaproveitar esse gás. Ficar medindo metano não resolve nada, o que resolve o problema é trator na terra e projeto saindo do papel.