Ecologista iraniano revela impacto da guerra na biodiversidade do Irã

O ecologista iraniano Iman Ebrahimi (centro, com binóculos) e sua equipe em uma embarcação. (Foto: © Iman Ebrahimi)

O ecologista iraniano Iman Ebrahimi, cofundador da ONG AvayeBoom, relatou os efeitos devastadores do conflito em curso sobre a biodiversidade do Irã. Em entrevista ao portal RFI, o especialista em aves aquáticas descreveu como as explosões e ataques aéreos alteraram o comportamento de animais em plena temporada de reprodução.

Espécies como gazelas, leopardos e guepardos foram forçadas a deixar parques nacionais e buscar refúgio em áreas agrícolas e vilas. O impacto varia conforme a região, pois o território iraniano é vasto e diverso.

Embora não tenha registrado destruição direta em alguns locais, as consequências invisíveis são significativas. O barulho constante das explosões provoca estresse nos animais, e a proximidade entre áreas militares e reservas ambientais agrava o problema.

O Parque Nacional de Kolah Ghazi testemunhou combates após ataques aéreos, o que resultou na fuga de centenas de gazelas e outros mamíferos. Esse movimento aumentou o risco de caça ilegal nas redondezas.

Algumas zonas úmidas registraram efeitos temporariamente positivos com a paralisação de indústrias e o aumento das chuvas. Lagos antes secos, como Urmia, Bakhtegan e Maharlou, se encheram novamente.

O lago Maharlou é fundamental para a reprodução de mais de 10 mil flamingos-rosas. A interrupção do bombeamento de água industrial permitiu que o ecossistema se regenerasse, embora o fenômeno seja passageiro e não compense os danos gerais.

Os parques nacionais iranianos cobrem cerca de 13% do território e sofrem com a queda de recursos. Os guardas ambientais enfrentam desmotivação diante da redução salarial provocada por uma inflação acima de 100%.

Áreas protegidas por comunidades locais têm mostrado maior resiliência no contexto atual. Os moradores criam vínculos diretos com a natureza e se empenham em preservá-la mesmo em tempos de conflito.

As ilhas do Golfo Pérsico enfrentam uma situação crítica, especialmente Shidvar e Qeshm. Shidvar, uma ilha desabitada e santuário para aves e tartarugas marinhas, vive um raro período de tranquilidade pela ausência de turistas.

A floresta de manguezais de Hara, em Qeshm, sofreu com explosões próximas a instalações militares e de dessalinização. Esse ambiente representa um dos ecossistemas mais ricos em aves migratórias do Oriente Médio.

A guerra interrompeu o uso de tecnologias de monitoramento ambiental como drones e câmeras. O governo restringiu o acesso à internet, o que, segundo Ebrahimi, reforça que a preservação deve envolver as comunidades locais e não depender apenas de equipamentos.

A ONG AvayeBoom continua atuando com 320 voluntários apesar da falta de financiamento e da instabilidade. O futuro da organização permanece incerto em razão do conflito.

Ebrahimi lembrou as dificuldades históricas dos defensores do meio ambiente no Irã, com prisões de ativistas em anos anteriores. Ele reafirmou seu compromisso de seguir trabalhando pela conservação das aves e das zonas úmidas do país.

A guerra, embora trágica, revela a importância de fortalecer a relação entre as pessoas e a natureza. Essa conexão funciona como forma de resistência e reconstrução, segundo o ecologista iraniano.


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