Um estudo publicado na revista científica Conservation Biology revelou que uma onda de calor marinha provocou a morte de mais de 600 mil aves marinhas na costa da Austrália entre 2023 e 2024.
A pesquisa foi conduzida pelo grupo Adrift Lab com apoio do Museu de História Natural do Reino Unido. O evento climático extremo coincidiu com o período de reprodução das aves, agravando o impacto sobre suas populações.
O fenômeno afetou principalmente a espécie conhecida como pardela-de-cauda-curta, que representou 96% das mortes estimadas. Cerca de 5% de toda a população global dessa espécie desapareceu em poucos meses, configurando uma das maiores perdas já registradas por um único evento climático.
Os primeiros sinais da tragédia surgiram no final de 2023, quando milhares de carcaças começaram a aparecer nas praias que se estendem de Queensland até a Tasmânia. Moradores locais, transformados em cientistas comunitários, ajudaram a coletar dados que permitiram aos pesquisadores reconstruir a dimensão real do desastre.
O ornitólogo britânico Alex Bond, curador principal de aves do Museu de História Natural e membro do Adrift Lab, afirmou que a frequência crescente desses eventos ameaça a sobrevivência das espécies oceânicas. Ele destacou que ondas de calor marinhas, antes raras e espaçadas por gerações, agora ocorrem em intervalos cada vez menores e com intensidade crescente.
O estudo aponta que o aquecimento global, impulsionado pelas emissões de gases de efeito estufa, tem concentrado grande parte do excesso de energia nos oceanos. Desde a década de 1980, a taxa de aumento da temperatura marinha subiu de 0,06°C para 0,27°C por década, elevando o número de dias com calor anormal em mais de 50% ao longo do último século.
Essas mudanças vêm transformando profundamente os ecossistemas marinhos. Espécies de peixes migram para águas mais frias, recifes de corais sofrem branqueamento em massa e florestas de algas se expandem em regiões antes temperadas, enquanto as aves marinhas enfrentam múltiplas ameaças simultâneas — perda de presas, poluição plástica, captura acidental e doenças.
Para calcular o número total de aves mortas, os cientistas adaptaram modelos originalmente usados para estimar mortes de aves e morcegos em parques eólicos terrestres. Com base em cerca de 5 mil carcaças encontradas nas praias australianas, o modelo projetou uma mortalidade total de aproximadamente 629 mil indivíduos, incluindo 610 mil pardelas-de-cauda-curta e 14 mil pardelas-sombrias.
Embora o número seja alarmante, ele ainda é inferior ao impacto de uma onda de calor registrada uma década antes, quando mais de 200 mil aves chegaram às praias — sugerindo que milhões podem ter morrido no mar. Os pesquisadores apontam a escassez de alimento, o estresse térmico e a proliferação de algas tóxicas como os principais fatores responsáveis pelas mortes em massa.
Bond alertou que a repetição desses eventos em sequência curta pode levar algumas populações à beira da extinção. Ele defendeu a ampliação do monitoramento das aves marinhas e o aumento do financiamento para ações de mitigação climática e conservação na Austrália.
O estudo reforça que, sem medidas urgentes para conter o aquecimento global e reduzir a poluição, a resiliência das aves marinhas será rapidamente esgotada. A equipe do Adrift Lab espera que os resultados sirvam de alerta para governos e sociedade sobre a necessidade de proteger os ecossistemas oceânicos, que já absorvem a maior parte do calor gerado pela atividade humana.
Leia mais sobre o assunto na phys.org.
Leia também: Temperaturas dos oceanos batem recorde e cientistas fazem grave alerta
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