Uma ampla análise genética revelou que os povos indígenas das Américas carregam traços de uma antiga linhagem asiática até então desconhecida. O estudo, publicado na revista Nature, analisou quase 200 genomas e indicou que a ocupação da América do Sul ocorreu em três grandes ondas migratórias ao longo de milhares de anos.
A pesquisa integra o Projeto de Diversidade Genômica Indígena das Américas e utilizou amostras genéticas de 128 indígenas de Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, México, Paraguai e Peru. Foram incorporados ainda 71 genomas já publicados anteriormente, conforme reportagem do Live Science.
Os resultados demonstram que a primeira onda migratória se deu há mais de 9 mil anos. Uma segunda onda esteve associada aos povos quéchuas e se espalhou amplamente pela América Central e do Sul.
A terceira onda ocorreu há cerca de 1.300 anos e envolveu contribuições de grupos mesoamericanos. Esse período coincidiu com o declínio de cidades como Teotihuacan, embora os pesquisadores não estabeleçam relação direta com um evento histórico específico.
A geneticista Tábita Hünemeier, da Universidade de São Paulo, afirmou que os dados sugerem um processo gradual de trocas genéticas entre a Mesoamérica, o Caribe e a América do Sul. Ela destacou que o estudo foi desenvolvido em colaboração com as comunidades indígenas locais, integrando o conhecimento científico à história oral desses povos.
Os cientistas identificaram vestígios de uma linhagem asiática ancestral chamada Ypykuéra — que significa “ancestral” em tupi. Essa linhagem está presente em níveis baixos, porém constantes, nas populações indígenas há mais de 10 mil anos.
A linhagem Ypykuéra também contribuiu geneticamente para povos da Australásia, que inclui a Austrália e ilhas do Pacífico. Até o momento, não foram identificados fósseis conhecidos associados a esse grupo ancestral.
O pesquisador Marcos Araújo Castro e Silva, do Conselho Nacional de Pesquisa da Espanha e da Universidade Pompeu Fabra, explicou que a descoberta reforça a complexidade do povoamento das Américas. Ele ressaltou que o processo foi muito mais dinâmico do que se imaginava anteriormente.
Os pesquisadores observaram genes associados à imunidade, ao metabolismo, à fertilidade e à resistência à malária nas amostras. Alguns desses genes são compartilhados com populações modernas da Australásia, o que sugere seleção positiva de traços da linhagem Ypykuéra ao longo do tempo.
Para o antropólogo Carlos Eduardo Amorim, o estudo representa a visão mais abrangente já obtida sobre a diversidade genômica dos povos indígenas das Américas. Ele enfatizou que essas populações foram historicamente sub-representadas em pesquisas genéticas e que compreender sua trajetória é essencial para o entendimento da diversidade humana global.
Os resultados evidenciam ainda o impacto devastador da colonização europeia sobre as populações indígenas originais. Esse processo reduziu em até 90% a população nativa e provocou gargalos evolutivos severos no pool genético.
Mesmo assim, a persistência das linhagens genéticas milenares demonstra a resiliência dos povos indígenas. Sua herança ancestral continua presente em todo o continente americano, preservando uma continuidade de mais de 9 mil anos.
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