Pesquisadores da Universidade de Utrecht, nos Países Baixos, propõem a construção de uma barragem de 88 quilômetros no estreito de Bering para evitar o colapso da Circulação Meridional do Atlântico, conhecida como AMOC.
A proposta foi detalhada na revista Science Advances pelos cientistas Jelle Soons e Henk Dijkstra. Eles sugerem que o fechamento do canal entre a Rússia e o Alasca poderia estabilizar o sistema de correntes oceânicas.
A AMOC transporta águas quentes do Equador para o norte da Europa. O enfraquecimento dessa circulação já foi observado por cientistas de diversas instituições.
Um colapso do sistema poderia provocar quedas bruscas de temperatura na Europa. Também elevaria o nível do mar na costa leste dos Estados Unidos e do Canadá em mais de 30 centímetros.
O estreito de Bering possui profundidade média entre 30 e 50 metros, o que permitiria tecnicamente a construção da barragem. As simulações computacionais revelam que o bloqueio, feito enquanto a AMOC ainda tem força suficiente, ampliaria o chamado “orçamento de carbono seguro” do sistema.
O efeito seria o oposto se a corrente já estiver enfraquecida. Nessa situação, o bloqueio aceleraria a instabilidade da circulação atlântica.
O estreito de Bering funciona como passagem de grandes volumes de água doce do Pacífico para o Ártico. Essa água se mistura ao Atlântico, e o bloqueio aumentaria a salinidade no norte do oceano, ajudando a manter o afundamento das águas densas.
O professor Thomas Haine, da Universidade Johns Hopkins, alertou para os riscos ambientais e logísticos de uma estrutura desse porte. A barragem impactaria rotas marítimas, ecossistemas marinhos e importantes cadeias pesqueiras ao redor do mundo.
Uma vez construída, a remoção da barragem seria praticamente impossível, segundo especialistas. Qualquer erro de cálculo se tornaria irreversível, com graves consequências para o equilíbrio climático global.
O cientista Aixue Hu, do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica em Boulder, reconheceu a grande incerteza sobre o quão próximo o sistema está de um ponto de ruptura. Algumas projeções indicam que a AMOC pode colapsar até o fim do século, embora a margem de erro permaneça bastante ampla.
Hu considera que a hipótese de barrar o estreito merece ser analisada diante da gravidade das consequências de um colapso oceânico. O debate se insere no contexto mais amplo das propostas de geoengenharia destinadas a conter o aquecimento global.
Entre essas ideias estão projetos para fertilizar oceanos com ferro, aumentar a refletividade das nuvens ou capturar diretamente o dióxido de carbono da atmosfera. Críticos argumentam que tais medidas funcionam como paliativos e desviam o foco da necessidade urgente de reduzir a queima de combustíveis fósseis.
A construção de uma barragem no extremo norte do planeta não substitui a ação política e econômica necessária para frear as emissões globais. A humanidade já conhece o caminho para evitar o colapso climático, que passa por abandonar a dependência do petróleo e adotar um modelo energético sustentável.
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