Corredora britânica completa maratona de Boston grávida de 22 semanas e inspira mulheres ao redor do mundo

Ilustração editorial sobre Corredora britânica completa maratona de Boston grávida de 22 semanas e inspira mulheres ao redor do mundo. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Em uma das cenas mais inspiradoras do esporte recente, a atleta britânica Calli Hauger-Thackery completou a Maratona de Boston grávida de 22 semanas, cruzando a linha de chegada em 2 horas e 43 minutos. O tempo pode parecer modesto diante do histórico olímpico da atleta, mas o feito ganhou outro significado: foi, segundo ela, um dos momentos mais marcantes e emocionantes de sua carreira. A corredora de 33 anos, natural de Sheffield, descreveu a experiência como incrível e mais significativa do que qualquer medalha.

Hauger-Thackery já havia participado da mesma prova no ano anterior, quando terminou em sexto lugar com o tempo de 2:22:38, e sabia que desta vez seria um desafio diferente. Ela contou que precisou lidar com uma fisgada dolorosa no nervo do glúteo logo no quinto quilômetro e novamente no décimo primeiro, além de duas paradas para ir ao banheiro — um lembrete bem-humorado de que o corpo grávido tem seu próprio ritmo. Mesmo assim, na segunda metade da corrida, ela disse ter se sentido em sintonia com o corpo e com uma energia quase mágica, pensando: ok, estamos realmente fazendo isso.

A descoberta da gravidez aconteceu de forma inesperada, logo após vencer a Maratona de Honolulu, em dezembro. Na época, Hauger-Thackery vomitou durante a prova e achou que era apenas o calor havaiano. Só no Natal ela e o marido, Nick, que também é seu treinador, entenderam o motivo. Foi um choque, mas tudo fez sentido, contou ela. Mesmo assim, não diminuiu o ritmo: em janeiro, já no primeiro trimestre da gestação, venceu a Maratona de Houston com o tempo de 2:24:17, provando que o corpo feminino é capaz de feitos extraordinários quando há respeito e acompanhamento médico.

Antes disso, a britânica havia enfrentado um momento de frustração ao não concluir a Maratona de Chicago, em outubro, o que acabou sendo o gatilho para decidir que aquele seria o ano ideal para começar uma família. Foi um dia triste, mas se transformou em algo feliz. Percebi que talvez fosse o momento certo para unir os dois sonhos: o de ser mãe e o de continuar atleta, disse ela. Para Hauger-Thackery, a maternidade não significa pausa, mas uma nova maneira de viver o esporte.

Com marcas impressionantes no currículo — incluindo o segundo melhor tempo da história britânica em maratona, empatada com Charlotte Purdue e atrás apenas de Paula Radcliffe, além do bronze no Campeonato Europeu de Meia Maratona de 2024 —, Calli escolheu 2026 como o ano para correr por um propósito ainda maior. Se eu fizer isso agora, terei um filho de dois anos nas Olimpíadas, brincou. A atleta afirmou que correr grávida é um tipo diferente de dificuldade, mas também muito mais significativa e repleta de propósito.

O apoio que recebeu de outros atletas e do público foi essencial. Embora tenha enfrentado críticas de quem acha arriscado correr grávida, Calli foi categórica ao afirmar que consultou médicos e que há cada vez mais pesquisas mostrando os benefícios da atividade física durante a gestação, especialmente para mulheres acostumadas a treinar. Eu conheço meu corpo e sei o que é certo para mim, disse ela ao portal da BBC Sport. Há muitas mães incríveis que correram antes de mim e voltaram ainda mais fortes.

Ela cita como exemplos as corredoras Paula Radcliffe, Liz McColgan e Sonia O’Sullivan, que também conciliaram a maternidade com carreiras de elite. Esse movimento de mulheres que se recusam a escolher entre ser mãe e atleta está crescendo, inspirando novas gerações. No futebol, a jogadora do Manchester United Celin Bizet Donnum anunciou recentemente sua gravidez, e no rúgbi, a capitã inglesa Zoe Stratford também espera o primeiro filho. Podemos ser mães e ainda assim mirar alto. Isso nunca vai me afastar dos meus objetivos, afirmou Hauger-Thackery. Quero mostrar ao meu filho o que é possível. Isso torna tudo ainda mais especial.

Por enquanto, a corredora promete uma pausa merecida. A recuperação pós-maratona tem outro nível quando você está com 22 semanas de gravidez, brincou. Mas a mensagem que ela deixa ecoa muito além das pistas: a de que o corpo feminino é poderoso, adaptável e capaz de reinventar o impossível — mesmo quando carrega uma nova vida dentro de si.


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