O Dia do Exército, celebrado em 19 de abril, passou sem que os principais gargalos estruturais da força terrestre brasileira fossem resolvidos.
A data, que remete à consolidação do Estado nacional, serve como pano de fundo para um diagnóstico preocupante sobre a capacidade operacional da instituição militar mais antiga do país. Conforme aponta o editorial do DefesaNet, assinado pelo editor-chefe Nelson During, o Exército mantém prestígio e capilaridade nacional, mas enfrenta limitações estruturais e tecnológicas que comprometem sua modernização.
O caso do blindado Centauro II ilustra com precisão o problema. Embora selecionado há aproximadamente seis anos, o contrato de produção seriada ainda não foi formalizado, afetando cronogramas e a geração de novas capacidades operacionais.
Enquanto o Centauro II segue sem avanço concreto, o Exército aposta na modernização do EE-9 Cascavel, veículo concebido na década de 1970. Essa atualização prolonga a vida útil de um sistema antigo, mas também evidencia a dificuldade de renovação da frota e a dependência de tecnologias superadas frente às exigências do combate moderno.
Outro programa estratégico, o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (SISFRON), também acumula questionamentos. Apesar dos investimentos significativos já realizados, persistem dúvidas sobre sua efetividade prática, especialmente diante da necessidade de respostas rápidas e integradas às ameaças nas zonas de fronteira.
O cenário internacional torna a urgência ainda mais evidente. A guerra na Ucrânia demonstrou o papel decisivo de drones, munições inteligentes e sistemas não tripulados nas operações terrestres, redefinindo os parâmetros do combate convencional. O país ainda apresenta desenvolvimento limitado nesses campos, sem escala industrial ou integração tecnológica compatível com os padrões observados em potências militares contemporâneas.
As carências não se restringem às novas tecnologias. O Exército ainda depende do Leopard 1, tanque de origem alemã projetado nos anos 1960, sem que haja um programa definido de substituição no horizonte. A ausência de um veículo blindado de combate de infantaria moderno e de um sistema de defesa antiaérea de média altitude também limita a capacidade de proteção do território e de infraestruturas críticas.
Essas lacunas revelam um problema mais profundo de governança e priorização. A análise do DefesaNet indica que, além das restrições orçamentárias, falhas na gestão de projetos e na execução de programas estratégicos comprometem sistematicamente a entrega de resultados. A fragmentação de iniciativas e os atrasos recorrentes reduzem a previsibilidade e a eficiência do planejamento militar de longo prazo.
Em um ambiente global de crescente instabilidade, a capacidade de dissuasão de um país depende da coerência entre planejamento, investimento e entrega efetiva de meios. A defasagem tecnológica do Exército, portanto, não é apenas uma questão interna de gestão, mas um tema diretamente ligado à soberania e à capacidade do país de projetar poder em seu próprio território.
During conclui que o Dia do Exército deve ser mais do que uma celebração simbólica, tornando-se um momento de avaliação estratégica sobre o futuro da força terrestre. Sem modernização consistente e planejamento de longo prazo, o risco concreto é que o capital humano e a tradição institucional da força não se convertam em poder militar efetivo no século XXI.
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