O Exército de Israel anunciou ter estabelecido uma chamada ‘linha amarela’ no sul do Líbano, medida semelhante à adotada anteriormente na Faixa de Gaza e que marca a expansão desse conceito operacional para além do território palestino.
A decisão ocorre em meio a uma trégua frágil entre Israel e o Líbano, conforme reportou a Al Jazeera. Os termos exatos do acordo seguem sendo contestados pelas partes envolvidas.
Em comunicado oficial, as Forças de Defesa de Israel afirmaram que suas tropas identificaram combatentes que teriam ultrapassado o limite da ‘linha amarela’ a partir do norte. O texto militar acrescentou que os ataques realizados nas últimas 24 horas teriam como objetivo neutralizar riscos e que ações de autodefesa não estariam restritas pelo cessar-fogo em vigor.
Desde o início da trégua, o sul do Líbano continua sob bombardeios israelenses, com relatos de ataques de artilharia nas localidades de Beit Leif, Qantara e Touline. A ofensiva inclui também a destruição de residências em áreas próximas à fronteira, prática que se assemelha ao padrão de demolições visto em Gaza desde a criação da ‘linha amarela’ naquele território palestino.
Em Gaza, a medida dividiu a região em zonas controladas, com a parte oriental sob domínio militar israelense e a ocidental sujeita a restrições menores de circulação. A transposição desse modelo para o Líbano aprofunda o que analistas e jornalistas no terreno já descrevem como uma estratégia deliberada de reconfiguração territorial.
Reportando de Ramallah, na Cisjordânia ocupada, a jornalista da Al Jazeera Nour Odeh afirmou que o anúncio reflete uma ‘continuação da gazaficação do sul do Líbano’. Ela lembrou que o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, já havia orientado o exército a demolir vilas libanesas na fronteira com base nos modelos de Beit Hanoun e Rafah, cidades palestinas devastadas por operações militares israelenses.
Segundo Odeh, Katz também equiparou vilas xiitas libanesas à infraestrutura do Hezbollah, da mesma forma que associou civis palestinos ao Hamas em Gaza. A lógica, denunciada por organizações de direitos humanos, transforma populações inteiras em alvos militares legítimos sob o argumento de proximidade com grupos armados.
O secretário-geral do Hezbollah, Naim Qassem, reagiu afirmando que a trégua só pode ser mantida se houver cessação completa das hostilidades de ambos os lados. Em pronunciamento televisionado, ele declarou que os combatentes da resistência permanecerão em alerta e responderão a qualquer violação israelense do território libanês.
Qassem exigiu ainda a retirada total das forças israelenses do sul do Líbano e defendeu que os próximos passos incluam a libertação de prisioneiros libaneses, o retorno dos deslocados internos e uma ampla campanha de reconstrução com apoio árabe e internacional. Israel, por sua vez, condiciona qualquer estabilidade ao desarmamento do Hezbollah, posição que o grupo rejeita categoricamente como pré-condição inaceitável.
O acordo de cessar-fogo atual sucede uma trégua anterior, anunciada em novembro de 2024, que foi constantemente violada segundo registros das Nações Unidas. O organismo contabilizou mais de 10 mil violações israelenses e centenas de mortes de civis libaneses desde então, dados que o governo israelense não reconhece oficialmente.
O governo libanês tenta equilibrar pressões internas e externas diante do avanço militar israelense no sul do país. O presidente do Líbano, Joseph Aoun, mantém resistência em dialogar diretamente com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, apesar de uma proposta de encontro em Washington anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a apresentação da trégua. A perspectiva de negociações diretas entre os dois líderes permanece incerta, enquanto o sul libanês segue sob intensa pressão militar e a população civil arca com o custo de uma guerra que os acordos diplomáticos, até agora, não conseguiram conter.
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