Vinte e dois blocos colossais do lendário Farol de Alexandria foram resgatados das profundezas do Mediterrâneo, em uma operação que promete redefinir o entendimento sobre uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. A descoberta, realizada no porto oriental de Alexandria, Egito, envolve peças arquitetônicas de até 88 toneladas, incluindo lintéis, ombreiras e soleiras de uma entrada monumental.
O resgate faz parte do programa PHAROS, liderado pelo Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) em parceria com o Centro de Estudos Alexandrinos do Egito, sob a supervisão do Ministério do Turismo e Antiguidades egípcio. A iniciativa conta ainda com o apoio da Fundação Dassault Systèmes, que utiliza tecnologias de digitalização 3D para reconstruir virtualmente o monumento, como revelou uma pesquisa divulgada pela EcoNotícias.
Entre as peças recuperadas, destaca-se um pórtico com uma porta de estilo egípcio construída com técnicas gregas, detalhe que reforça a tese de que Alexandria, fundada por Alexandre, o Grande, foi um centro cosmopolita onde culturas se fundiram. O Farol, erguido por volta de 280 a.C. durante a dinastia ptolomaica, tinha mais de 100 metros de altura e guiou navios por séculos até ser destruído por terremotos e pela ação humana, que reutilizou suas pedras na construção da cidadela de Qāʾit Bāy no século XV.
A equipe de arqueólogos subaquáticos enfrenta desafios logísticos e ambientais para acessar o sítio, localizado a cerca de 6 a 8 metros de profundidade. As águas turvas do porto oriental de Alexandria reduzem a visibilidade, e um projeto de proteção contra ondas, realizado em 1993, depositou centenas de blocos de concreto nas proximidades, dificultando o trabalho e ameaçando os vestígios arqueológicos.
Mesmo assim, já foram catalogados quase 3.500 itens no local, incluindo estátuas colossais, obeliscos e esfinges. A digitalização das peças resgatadas é uma etapa crucial do projeto, utilizando fotogrametria para criar modelos 3D detalhados de cada bloco, permitindo que engenheiros testem hipóteses sobre a estrutura original sem manipular fisicamente os fragmentos.
Desde 2010, mais de 100 blocos já haviam sido digitalizados, e até o início de 2020, o Centro de Estudos Alexandrinos havia produzido 154 réplicas digitais para reconstruções virtuais. O Mediterrâneo, berço dessa descoberta, é um dos mares mais biodiversos e ameaçados do planeta, abrigando mais de 17 mil espécies marinhas, muitas delas endêmicas, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).
A região sofre com a poluição plástica, com cerca de 805 toneladas de resíduos despejadas diariamente em suas águas, além de aquecer 20% mais rápido que a média global. Alexandria, em particular, enfrenta um duplo desafio: enquanto o mar avança, o solo da cidade afunda devido à subsidência, fenômeno que já havia contribuído para o desaparecimento do Farol sob as ondas.
O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) registrou um aumento global de cerca de 20 centímetros no nível do mar entre 1901 e 2018, com a taxa de elevação acelerando nas últimas décadas. Para cidades costeiras como Alexandria, isso significa maior vulnerabilidade a erosão, salinização de aquíferos e desastres naturais, evidenciando de forma urgente os impactos das mudanças climáticas sobre o patrimônio cultural da humanidade.
O programa PHAROS adota uma abordagem cautelosa, alinhada às diretrizes da UNESCO, que prioriza a preservação in situ de patrimônios subaquáticos. Quando o resgate é necessário, como no caso desses blocos, a documentação minuciosa e a criação de réplicas digitais garantem que o conhecimento gerado possa ser compartilhado globalmente.
Algumas peças resgatadas em campanhas anteriores, como as realizadas em 1995 e 1996, já estão expostas ao ar livre em Alexandria, mas a digitalização permite que pesquisadores de todo o mundo estudem os detalhes sem precisar mergulhar no local. No futuro, o projeto pode permitir que o público ‘visite’ o Farol de Alexandria por meio de modelos virtuais, enquanto os blocos originais permanecem no fundo do mar, integrados a um ecossistema complexo de ondas, sedimentos e defesas costeiras modernas.
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