Uma expedição de arqueólogos subaquáticos desvendou os segredos ocultos nas águas geladas do Lago Issyk-Kul, no Quirguistão, revelando uma civilização que o tempo tentou apagar. O que emergiu das profundezas não foi apenas um sítio arqueológico, mas os vestígios de uma cidade medieval que prosperou na Rota da Seda antes de ser tragada pela terra e, depois, pelas águas.
Situado a mais de 1.600 metros acima do nível do mar, o Issyk-Kul é um dos lagos mais profundos do planeta, cujas águas cristalinas guardam mistérios de impérios esquecidos. Segundo uma expedição internacional realizada em 2024, mergulhadores identificaram estruturas de tijolos, moinhos de pedra e até um cemitério muçulmano, todos submersos a cerca de quatro metros de profundidade, testemunhos silenciosos de uma era perdida.
O pesquisador Valery Kolchenko, do Instituto de História, Arqueologia e Etnologia da Academia Nacional de Ciências do Quirguistão, descreveu o sítio como uma ‘cidade ou grande aglomeração comercial em um dos trechos mais estratégicos da Rota da Seda’. A descoberta reforça a importância de Toru-Aygyr, um centro urbano que serviu como ponte entre o Oriente e o Ocidente entre os séculos X e XV, onde mercadores, estudiosos e guerreiros cruzavam seus destinos.
Entre as estruturas identificadas, destaca-se um edifício monumental com decoração externa, possivelmente uma mesquita, casa de banhos ou até uma pequena universidade islâmica. Estruturas de madeira e pedra resistem ao tempo sob as águas, enquanto uma necrópole muçulmana do século XIII ou XIV exibe túmulos alinhados em direção a Meca, seguindo os preceitos religiosos da época com precisão milimétrica.
Os especialistas acreditam que um terremoto devastador, ocorrido no início do século XV, alterou drasticamente a geografia da região, fazendo com que as águas do lago inundassem a cidade. Kolchenko sugere que a população já havia abandonado o local antes da catástrofe, mas o evento sísmico selou o destino daquela civilização, transformando-a em memória submersa para as gerações futuras.
Maksim Menshikov, chefe da expedição pelo Instituto de Arqueologia da Academia Russa de Ciências, ressaltou que os achados ilustram a transição do domínio turco dos Qaraquânidas para o islamismo sob o jugo da Horda Dourada mongol. ‘A seção da Rota da Seda na região do Lago Issyk-Kul estava sob controle do Canato Caracânida’, explicou, destacando que, embora os chineses cobiçassem a área por seu valor estratégico, jamais conseguiram subjugá-la completamente.
Os artefatos recuperados incluem um vaso cerâmico intacto, além de fragmentos de utensílios domésticos e objetos rituais que ajudam a reconstruir o cotidiano daquela sociedade. Cada peça resgatada é um fio condutor para entender como uma cidade inteira foi engolida pela terra — e, depois, pelas águas —, deixando para trás apenas ecos de um passado glorioso.
O Lago Issyk-Kul, com suas águas frias e profundezas insondáveis, guarda agora um tesouro histórico que desafia as eras. Enquanto os pesquisadores continuam a explorar o sítio, cada mergulho pode revelar novas pistas sobre como uma civilização foi apagada da superfície, mas não da memória da humanidade.
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