Fisioterapia do assoalho pélvico transforma a recuperação após a gravidez

Ilustração editorial sobre Fisioterapia do assoalho pélvico transforma a recuperação após a gravidez. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Durante a gravidez, o corpo feminino passa por uma verdadeira maratona interna. Os músculos que sustentam a bexiga, o útero e o intestino — conhecidos como assoalho pélvico — são pressionados e alongados para acomodar o bebê, o que pode causar desconforto, perda de urina e até dor durante a relação sexual. Apesar de ser um tema ainda cercado de tabus, especialistas afirmam que cuidar dessa região com fisioterapia antes e depois do parto pode mudar completamente a experiência da maternidade.

A fisioterapeuta norte-americana Carrie Pagliano, ex-presidente da Academia de Fisioterapia em Saúde Pélvica, explica que a maioria das mulheres só pensa no assoalho pélvico quando começa a sentir dor ou sofrer escapes de urina. Segundo ela, esse grupo de músculos trabalha de forma invisível nas tarefas mais simples do dia, mas é negligenciado porque vive na fronteira entre o tabu e a desinformação. Pagliano ressalta que, por muito tempo, as mulheres foram orientadas a aceitar esses sintomas como parte natural da maternidade ou do envelhecimento, mas isso está mudando graças a conversas mais abertas e pesquisas recentes.

Para a pesquisadora Christina Prevett, da Universidade de Alberta, no Canadá, o assoalho pélvico tem a função de sustentar os órgãos internos e controlar os movimentos de eliminação. Durante a gestação, ele enfrenta uma sobrecarga intensa, semelhante a meses de exercício contínuo, e precisa se adaptar ao peso crescente do bebê e às mudanças hormonais. Hormônios como a relaxina e a progesterona aumentam a flexibilidade dos tecidos, preparando o corpo para o parto, mas também deixam a musculatura mais vulnerável a lesões e fraqueza.

Muitas mulheres acreditam que, ao fazer uma cesariana, escapam desse impacto, mas Pagliano alerta que isso é um mito. Mesmo sem o esforço do parto vaginal, o peso e as alterações da gravidez já são suficientes para exigir atenção especial. Ela lembra que os problemas podem surgir desde a infância, com episódios de constipação ou escapes de urina ao rir ou pular, e que a gestação apenas amplifica desequilíbrios que já existiam.

A fisioterapia pélvica, segundo a especialista Julianne Lane, líder em saúde feminina da clínica Bespoke Physical Therapy, vai muito além dos famosos exercícios de Kegel. O tratamento envolve avaliação detalhada dos músculos, nervos e postura, além de exercícios personalizados para fortalecer ou relaxar áreas específicas do corpo. Lane explica que algumas mulheres precisam aprender a contrair melhor, enquanto outras precisam, na verdade, relaxar músculos excessivamente tensos — e que insistir apenas em contrações pode até piorar o problema.

Um estudo de 2023 que analisou 30 pesquisas mostrou que o treinamento dos músculos do assoalho pélvico durante a gravidez reduz significativamente o risco de lacerações graves no parto e a incontinência urinária no pós-parto. Prevett afirma que aprender a coordenar a respiração e o relaxamento muscular ajuda no momento de empurrar o bebê e pode diminuir as chances de lesões. A fisioterapia, portanto, não é apenas uma recuperação — é também uma forma de preparo físico e emocional para o parto.

Durante uma sessão típica, o atendimento começa com uma conversa sobre sintomas e histórico. O profissional observa a postura, os movimentos e a respiração da paciente, e, com o consentimento da mulher, pode realizar uma avaliação interna para sentir a força e a coordenação dos músculos. A fisioterapeuta orienta exercícios adequados e, muitas vezes, pede que a paciente registre seus hábitos de urina e evacuação para entender melhor o funcionamento do corpo.

Os resultados tendem a aparecer rapidamente, e a frequência das sessões varia conforme as necessidades de cada mulher. Pagliano destaca que o objetivo é que a paciente perceba menos sintomas e sinta o corpo mais estável e confiante. Um levantamento internacional citado pela revista Women’s Health indica que a fisioterapia pélvica contribui significativamente para a redução da incontinência e do risco de prolapso de órgãos pélvicos, reforçando a importância dessa prática para a saúde feminina.

Mais do que um tratamento, cuidar do assoalho pélvico é um ato de autoconhecimento e prevenção. Entender que o corpo precisa de recuperação e suporte após gerar uma vida é parte essencial de uma maternidade mais leve e saudável. E quanto mais se fala sobre isso, mais mulheres se libertam da ideia de que sentir dor, desconforto ou vergonha é normal. A força do corpo feminino merece atenção e cuidado — e a fisioterapia pélvica é uma aliada poderosa nesse processo.


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