Quase metade da população francesa apresenta níveis de cádmio acima dos limites de segurança, segundo a Agência Nacional de Segurança Sanitária (Anses). O metal pesado, classificado como cancerígeno pelo Centro Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, acumula-se no organismo e está associado a doenças cardiovasculares, neurológicas e reprodutivas — mas as autoridades ainda não adotaram medidas concretas para conter a contaminação.
A Anses alertou que cerca de 50% dos franceses ultrapassam os valores de referência para o metal. Trinta e seis por cento das crianças atingem níveis diários muito superiores ao aceitável, com a exposição ocorrendo principalmente pela alimentação, pois o cádmio se acumula em produtos à base de trigo, arroz e batata, além do tabagismo entre os fumantes.
A alta contaminação na França tem origem no uso intensivo de fertilizantes fosfatados, especialmente importados do Marrocos, cujos depósitos de fosfato são ricos em cádmio. Esses fertilizantes, utilizados há décadas, acumulam o metal nos solos agrícolas e o transferem para as plantas e, por consequência, para a dieta humana.
O país mantém um limite de 90 mg/kg de cádmio nos fertilizantes, mais permissivo que o padrão europeu de 60 mg/kg e muito acima da recomendação da Anses de 20 mg/kg. Mesmo com alertas sucessivos, o governo francês tem adiado decisões.
Médicos já haviam denunciado uma “bomba sanitária”, pedindo ação imediata ao primeiro-ministro e aos ministérios da Saúde, Agricultura e Transição Ecológica. O Ministério da Agricultura reconheceu a importância do tema, mas justificou a demora pela necessidade de avaliar impactos econômicos e diplomáticos, especialmente nas relações com o Marrocos.
O deputado Benoît Biteau, do grupo Ecologista e Social, apresentou um projeto de lei para proibir, a partir de 2027, os fertilizantes com maior teor de cádmio. A proposta foi aprovada por margem estreita em comissão e aguarda espaço na agenda parlamentar.
Biteau, que também é agricultor, argumenta que “não há mais razão para recuar”, já que existem alternativas agronômicas e tecnológicas viáveis, como fertilizantes de baixo teor do metal e processos de “decadmiação” que reduzem sua concentração. O jornalista Martin Boudot, que investigou o tema, atribui a lentidão governamental ao lobby das indústrias de fertilizantes e ao temor de uma reação do setor agrícola.
Ele também cita a guerra na Ucrânia, que teria levado Paris a adiar o endurecimento das normas para evitar dependência de fornecedores russos. Essa combinação de fatores explica a “inércia política injustificável” denunciada por uma petição cidadã que já reúne milhares de assinaturas.
O Marrocos, principal fornecedor de fosfatos à França, iniciou esforços para reduzir o teor de cádmio de seus produtos, com metas de atingir 20 mg/kg nos próximos anos. Mesmo assim, autoridades francesas continuam a pedir exceções para manter os níveis atuais, alegando que a mudança poderia encarecer os custos agrícolas.
O presidente da Federação Nacional dos Sindicatos de Agricultores (FNSEA), Arnaud Rousseau, declarou que apoia a redução dos limites desde que as alternativas sejam acessíveis. Enquanto o impasse persiste, a contaminação continua a crescer.
Dados da Saúde Pública França indicam que a impregnação média da população quase dobrou entre 2006 e 2016, e há suspeitas de ligação com o aumento dos casos de câncer de pâncreas. Mesmo que medidas sejam adotadas agora, especialistas alertam que levará anos ou até décadas para que os níveis de cádmio nos solos e alimentos diminuam.
Para tentar mitigar os efeitos imediatos, o governo francês aprovou recentemente o reembolso dos testes de detecção de exposição ao cádmio. Sem uma política efetiva de restrição na origem, porém, o país segue acumulando riscos de saúde pública e ambientais que poderiam ser evitados com decisões mais firmes.
Leia mais sobre o assunto na RFI.
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