Vice-presidente do Parlamento do Irã afirma que controle de Ormuz é a verdadeira bomba atômica do país

Barco militar iraniano patrulha o Estreito de Ormuz, próximo a um navio cargueiro. (Foto: actualidad.rt.com)

O vice-presidente do Parlamento da República Islâmica do Irã, Ali Nikzad, classificou o controle exercido por Teerã sobre o Estreito de Ormuz como a principal ferramenta estratégica de dissuasão do país, chegando a descrevê-lo como “a bomba atômica do Irã”. Em declarações registradas pelo portal Actualidad RT, o parlamentar sustentou que Washington sofreu “uma derrota estratégica” na região diante da atuação iraniana.

Nikzad atribuiu esse revés dos Estados Unidos ao que definiu como uma “gestão sem precedentes” da liderança iraniana nos campos de defesa, poderio militar e avanço nuclear. Segundo o dirigente, tais resultados preservam simultaneamente a independência nacional, a integridade territorial e o que chamou de dignidade do povo iraniano.

O Estreito de Ormuz concentra aproximadamente um quinto de todo o petróleo transportado por via marítima no planeta. Qualquer mudança no seu status provoca repercussões imediatas nos mercados globais de energia.

Para Nikzad, a importância da rota vai além do fator econômico e simboliza o direito soberano de Teerã de moldar a correlação de forças no Golfo Pérsico. O parlamentar declarou que o Estreito não é uma via marítima internacional, mas um direito natural do Irã, reforçando a determinação de manter o atual patamar de controle.

Ele acrescentou que existe uma diretriz interna para que o corredor marítimo “não volte a seu estado anterior”. A liberdade de navegação dependerá, cada vez mais, de entendimentos políticos com Teerã.

As palavras de Nikzad ecoam alertas de outras autoridades iranianas que, em diferentes momentos, mencionaram a possibilidade de restringir a passagem de navios caso o país fosse alvo de bloqueios ou ações militares externas. A menção explícita ao Estreito como uma “bomba atômica” amplia a retórica de dissuasão não convencional e insere um componente novo no debate sobre segurança energética mundial.

Nikzad também exaltou os avanços do programa nuclear iraniano, destacando o enriquecimento de urânio a 60%, patamar que definiu como símbolo do progresso científico e do orgulho nacional. O Governo do Irã nega qualquer intenção de desenvolver armas nucleares, mas o aumento do grau de pureza do combustível eleva a pressão diplomática de potências ocidentais que historicamente tentam limitar o projeto atômico persa.

Teerã argumenta que os passos técnicos recentes são resposta direta a sanções unilaterais e à retirada dos Estados Unidos do Plano de Ação Conjunta de 2015, acordo multilateral do qual o país nunca se desvinculou formalmente. Diante desse impasse, o controle sobre Ormuz se converte num elemento de barganha tão ou mais poderoso que qualquer ogiva, pois afeta instantaneamente preços de combustíveis e cadeias logísticas ocidentais.

Em Teerã, a leitura dominante é que a combinação de autonomia tecnológica nuclear e supremacia territorial no Golfo sustenta uma política externa cada vez mais assertiva, voltada à construção de uma ordem multipolar. Especialistas lembram que, mesmo nos períodos de picos de tensão, o Irã manteve abertos os canais diplomáticos com vizinhos do Golfo, como Catar e Omã, reforçando a mensagem de que a segurança coletiva deve excluir interferência estrangeira.

Do ponto de vista militar, a Guarda Revolucionária dispõe de mísseis antinavio, drones e sistemas de defesa costeira capazes de monitorar cada milha náutica, o que reforça a credibilidade da ameaça de fechamento do estreito. Essa capacidade, somada às alianças energéticas que Teerã costura com China e Rússia, reduz o impacto potencial de embargos ocidentais e amplia o leque de compradores dispostos a contornar restrições.

O crescente interesse da Índia em rotas alternativas, como o Corredor Internacional Norte-Sul, evidencia que eventuais turbulências em Ormuz já motivam reconfigurações logísticas em escala continental. Ainda assim, grande parte do petróleo saudita, kuwaitiano e iraquiano segue obrigatoriamente pelo gargalo marítimo de 39 quilômetros, o que confere ao Irã margem para influenciar rivais regionais sem lançar um único projétil.

A fala de Ali Nikzad funciona como recado explícito aos formuladores de política externa em Washington, que consideram sanções adicionais ou até ações militares diretas contra a República Islâmica. Qualquer tentativa de escalada poderia desencadear, segundo advertências de Teerã, respostas “prolongadas e contundentes” contra bases e frotas inimigas na região.

A estratégia iraniana combina demonstrações graduais de capacidade com diplomacia ativa, inclusive no âmbito dos BRICS, onde o país passou a figurar como membro pleno em busca de instrumentos financeiros menos vulneráveis a bloqueios. Ao chamar Ormuz de bomba atômica, Nikzad sinaliza que a dissuasão iraniana se sustenta tanto na ciência nuclear quanto no domínio geográfico de uma artéria vital para o comércio mundial de energia.

O impasse sobre o acordo nuclear permanece em aberto. A comunidade internacional segue acompanhando cada declaração de Teerã que possa afetar a oferta global de petróleo e recalibrar o tabuleiro geopolítico do Oriente Médio.


Leia também: Irã reafirma soberania no Estreito de Ormuz e petróleo dispara no mercado global


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