O ex-negociador israelense Daniel Levy afirma que Israel acelera operações militares para consolidar dominação regional antes que o equilíbrio geopolítico se altere de forma irreversível.
Levy preside o think-tank US/Middle East Project, sediado em Nova York, e já integrou delegações de paz durante os governos de Ehud Barak e Yitzhak Rabin. Ele expôs a tese em entrevista ao jornalista Steve Clemons no programa The Bottom Line, da Al Jazeera.
Ao analisar a postura militar de Tel Aviv, Levy sustenta que a lógica oficial só aceita dois tipos de vizinho: os dependentes ou os suficientemente fragmentados para não oferecer resistência organizada. Essa leitura enquadra Líbano, Síria e territórios palestinos na categoria dos colapsados.
Para o analista, ciclos de bombardeios que alternam com cessar-fogos meramente formais não são efeito colateral, mas um objetivo deliberado. O propósito é impedir a reconstrução econômica e institucional da região.
Levy também aponta o papel de Washington, cuja política externa estaria saturada de premissas israelenses, tornando difícil identificar onde termina a agenda de um aliado e começa a do outro. Ele argumenta que a dependência política mútua reforça a sensação de impunidade que sustenta operações militares sucessivas.
Conforme reportado pelo portal Al Jazeera, Levy vê na retomada de negociações nucleares entre EUA e Irã uma ameaça direta a essa arquitetura de controle regional. Para evitar qualquer acomodação entre Washington e Teerã, Israel pressiona por mais uma grande operação contra a República Islâmica, insistindo que a diplomacia precisaria ser precedida por demonstração de força.
Na prática, explica o ex-negociador, abrem-se frentes de tensão simultâneas: ataques pontuais a instalações sírias, investidas contra posições do Hezbollah no sul do Líbano e incursões frequentes em Gaza ou Jenin, mesmo quando vigora um acordo de cessar-fogo no papel. O objetivo é manter a pressão tão constante que qualquer gesto conciliatório pareça politicamente inviável para a Casa Branca.
Levy acrescenta que a estratégia permanece popular dentro de Israel porque oferece uma narrativa coerente ao eleitorado sobre segurança e identidade nacional, apesar de não resolver a questão palestina. Ao mesmo tempo, o custo diplomático cresce à medida que novas potências questionam publicamente a ocupação prolongada e a escalada nos assentamentos da Cisjordânia.
O deslocamento do centro de gravidade mundial para uma ordem mais multipolar, impulsionado pelos BRICS e por mediações chinesas na região, dificulta a pretensão israelense de atuar sem supervisão externa. Para o analista, o cálculo em Tel Aviv é intensificar ações militares enquanto ainda conta com blindagem diplomática dos EUA no Conselho de Segurança.
Essa urgência é uma corrida contra fatores demográficos, contra a erosão do prestígio ocidental e contra a fadiga social interna gerada por décadas de mobilização bélica. Levy recorda que o orçamento de defesa absorve recursos que poderiam ser investidos em moradia, saúde e inovação civil — assunto cada vez mais sensível entre jovens israelenses.
Do lado americano, prossegue o analista, a classe política segue dividida, mas ambos os partidos principais operam com premissas desenhadas em Tel Aviv, o que limita alternativas de desescalada. Mesmo negociações pragmáticas, como a reativação do acordo nuclear suspenso em 2018, tropeçam em pressões para inserir cláusulas adicionais sobre mísseis balísticos e influência regional iraniana.
Com Donald Trump em seu segundo mandato e as próximas eleições presidenciais americanas previstas apenas para 2028, o dossiê iraniano corre o risco de ser instrumentalizado como capital político doméstico. Nesse cenário, alerta Levy, Israel pode buscar um ataque preventivo que force Washington a reagir militarmente após o fato consumado, repetindo o padrão observado em conflitos anteriores.
Se essa dinâmica prosperar, conclui o ex-negociador, a possibilidade de uma solução política justa para palestinos, libaneses e israelenses continuará se estreitando, condenando a região a décadas adicionais de instabilidade calculada. Para ele, apenas uma reorientação clara da política norte-americana poderia romper o ciclo — mas essa mudança, por enquanto, não passa de hipótese distante.
Com informações de Al Jazeera.
Leia também: Tensões Irã-Israel: “Só um grande acordo no Médio Oriente pode evitar a guerra regional”
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