Ex-negociador israelense acusa Tel Aviv de adotar estratégia de guerra permanente no Oriente Médio

Bandeiras israelenses e um táxi em uma rua de Tel Aviv, em março de 2024. (Foto: Wikimedia Commons)

O ex-negociador israelense Daniel Levy afirma que Israel acelera operações militares para consolidar dominação regional antes que o equilíbrio geopolítico se altere de forma irreversível.

Levy preside o think-tank US/Middle East Project, sediado em Nova York, e já integrou delegações de paz durante os governos de Ehud Barak e Yitzhak Rabin. Ele expôs a tese em entrevista ao jornalista Steve Clemons no programa The Bottom Line, da Al Jazeera.

Ao analisar a postura militar de Tel Aviv, Levy sustenta que a lógica oficial só aceita dois tipos de vizinho: os dependentes ou os suficientemente fragmentados para não oferecer resistência organizada. Essa leitura enquadra Líbano, Síria e territórios palestinos na categoria dos colapsados.

Para o analista, ciclos de bombardeios que alternam com cessar-fogos meramente formais não são efeito colateral, mas um objetivo deliberado. O propósito é impedir a reconstrução econômica e institucional da região.

Levy também aponta o papel de Washington, cuja política externa estaria saturada de premissas israelenses, tornando difícil identificar onde termina a agenda de um aliado e começa a do outro. Ele argumenta que a dependência política mútua reforça a sensação de impunidade que sustenta operações militares sucessivas.

Conforme reportado pelo portal Al Jazeera, Levy vê na retomada de negociações nucleares entre EUA e Irã uma ameaça direta a essa arquitetura de controle regional. Para evitar qualquer acomodação entre Washington e Teerã, Israel pressiona por mais uma grande operação contra a República Islâmica, insistindo que a diplomacia precisaria ser precedida por demonstração de força.

Na prática, explica o ex-negociador, abrem-se frentes de tensão simultâneas: ataques pontuais a instalações sírias, investidas contra posições do Hezbollah no sul do Líbano e incursões frequentes em Gaza ou Jenin, mesmo quando vigora um acordo de cessar-fogo no papel. O objetivo é manter a pressão tão constante que qualquer gesto conciliatório pareça politicamente inviável para a Casa Branca.

Levy acrescenta que a estratégia permanece popular dentro de Israel porque oferece uma narrativa coerente ao eleitorado sobre segurança e identidade nacional, apesar de não resolver a questão palestina. Ao mesmo tempo, o custo diplomático cresce à medida que novas potências questionam publicamente a ocupação prolongada e a escalada nos assentamentos da Cisjordânia.

O deslocamento do centro de gravidade mundial para uma ordem mais multipolar, impulsionado pelos BRICS e por mediações chinesas na região, dificulta a pretensão israelense de atuar sem supervisão externa. Para o analista, o cálculo em Tel Aviv é intensificar ações militares enquanto ainda conta com blindagem diplomática dos EUA no Conselho de Segurança.

Essa urgência é uma corrida contra fatores demográficos, contra a erosão do prestígio ocidental e contra a fadiga social interna gerada por décadas de mobilização bélica. Levy recorda que o orçamento de defesa absorve recursos que poderiam ser investidos em moradia, saúde e inovação civil — assunto cada vez mais sensível entre jovens israelenses.

Do lado americano, prossegue o analista, a classe política segue dividida, mas ambos os partidos principais operam com premissas desenhadas em Tel Aviv, o que limita alternativas de desescalada. Mesmo negociações pragmáticas, como a reativação do acordo nuclear suspenso em 2018, tropeçam em pressões para inserir cláusulas adicionais sobre mísseis balísticos e influência regional iraniana.

Com Donald Trump em seu segundo mandato e as próximas eleições presidenciais americanas previstas apenas para 2028, o dossiê iraniano corre o risco de ser instrumentalizado como capital político doméstico. Nesse cenário, alerta Levy, Israel pode buscar um ataque preventivo que force Washington a reagir militarmente após o fato consumado, repetindo o padrão observado em conflitos anteriores.

Se essa dinâmica prosperar, conclui o ex-negociador, a possibilidade de uma solução política justa para palestinos, libaneses e israelenses continuará se estreitando, condenando a região a décadas adicionais de instabilidade calculada. Para ele, apenas uma reorientação clara da política norte-americana poderia romper o ciclo — mas essa mudança, por enquanto, não passa de hipótese distante.

Com informações de Al Jazeera.


Leia também: Tensões Irã-Israel: “Só um grande acordo no Médio Oriente pode evitar a guerra regional”


📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho

Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.

if(!email) { responses.innerHTML = "Por favor, insira um e-mail válido."; return; }

button.innerText = "Enviando..."; button.style.opacity = "0.7"; button.disabled = true; responses.innerHTML = "";

// Transforma a action nativa em endpoint JSONP e anexa os dados var formAction = this.action.replace('/post?', '/post-json?'); var formData = new FormData(this); var url = formAction;

for (var pair of formData.entries()) { url += "&" + encodeURIComponent(pair[0]) + "=" + encodeURIComponent(pair[1]); }

var script = document.createElement('script'); var callbackName = 'mailchimpCallback' + new Date().getTime(); window[callbackName] = function(data) { button.innerText = "ASSINAR"; button.style.opacity = "1"; button.disabled = false;

if (data.result === 'success') { responses.innerHTML = "✅ Inscrição confirmada com sucesso! Bem-vindo(a) ao O Cafezinho."; document.getElementById('mce-EMAIL-ajax').value = ''; } else { var msg = data.msg || ""; if(msg.includes('is already subscribed')) { msg = "⚠️ Este e-mail já está assinado na nossa newsletter."; } else if(msg.includes('too many')) { msg = "⚠️ Muitas tentativas. Tente novamente mais tarde."; } else if(msg.includes('domain')) { msg = "⚠️ O domínio do e-mail é inválido."; } else { msg = "⚠️ Erro: " + msg; } msg = msg.replace(/^[0-9]+\s-\s/, ''); responses.innerHTML = "" + msg + ""; } delete window[callbackName]; document.body.removeChild(script); };

url = url + '&c=' + callbackName; script.src = url; document.body.appendChild(script); });

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.