Imagens de satélite analisadas pela organização britânica Forensic Architecture indicam que unidades do Exército de Israel avançaram vários quilômetros além da chamada Linha Amarela, limite estabelecido pelo cessar-fogo de 2025 que deveria separar áreas sob controle militar israelense do restante da Faixa de Gaza.
O material foi detalhado em entrevista ao programa UpFront, conduzido pela jornalista sul-africana Redi Tlhabi, reforçando temores de uma ocupação permanente do enclave palestino.
Desde que o cessar-fogo interrompeu a fase mais intensa dos bombardeios, o governo israelense manteve posições fixas ao longo da fronteira oriental. Gradualmente, instalou novos postos de observação, trincheiras e vias de patrulha em terrenos agrícolas palestinos, segundo a investigação.
A Linha Amarela, traçada na trégua mediada por Catar e Egito, deveria funcionar como zona tampão para proteger civis. Documentos de campo reunidos pela equipe da Forensic Architecture revelam que blindados Merkava e escavadeiras D9 cruzaram o perímetro em múltiplos pontos.
O estudo combinou fotos de alta resolução, vídeos enviados por moradores e modelagem 3D para medir a distância dos avanços com precisão cartográfica. As conclusões, divulgadas pela Al Jazeera, apontam que cerca de 15% da área inicialmente desocupada foi incorporada ao raio de segurança israelense.
Além de reduzir o espaço vital disponível para 2,3 milhões de habitantes, a expansão militar atingiu estufas, poços e estocagens de água. Especialistas em direito internacional classificam essa dinâmica como forma de punição coletiva proibida pelas Convenções de Genebra.
Organizações palestinas de direitos humanos alertam que o novo traçado fragmenta ainda mais comunidades já deslocadas pela destruição de 2024. O temor crescente é de que o território se converta em um arquipélago de bolsões isolados.
Essa condição, segundo analistas ouvidos pela investigação, facilitaria futuras incursões terrestres e consolidaria uma anexação de facto do enclave sem necessidade de declaração formal. O tema perdeu espaço no noticiário global em meio a outras tensões diplomáticas regionais.
Segundo a Forensic Architecture, essa janela oferece ao governo do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu condições para consolidar mudanças sem o mesmo escrutínio internacional observado em períodos anteriores. As autoridades israelenses não responderam aos pedidos de comentário até o fechamento desta reportagem.
Ao divulgar o dossiê, a Forensic Architecture pediu que a ONU envie imediatamente peritos ao terreno para verificar as coordenadas identificadas nas imagens de satélite. A recomendação, se ignorada pelo Conselho de Segurança, pode abrir caminho para um novo ciclo de violência e agravar ainda mais a situação humanitária na Faixa de Gaza.
Leia também: Israel estabelece ‘linha amarela’ no sul do Líbano e replica modelo devastador de Gaza
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