Golfo repensa dependência dos EUA e defende união árabe para estabilidade

Líderes árabes e o ex-presidente dos EUA Donald Trump em uma cúpula. (Foto: aljazeera.com)

A longa parceria entre as monarquias do Golfo e os Estados Unidos entrou em choque aberto depois que Washington avançou em políticas alinhadas com Israel, ignorando pedidos de moderação feitos por Riad, Doha, Manama e Abu Dhabi.

O gesto revelou que a Casa Branca tende a colocar a agenda de Tel Aviv acima dos compromissos assumidos com os árabes, mesmo após décadas de cooperação em segurança, energia e finanças.

Dados compilados pelas chancelarias mostram que o comércio bilateral superou US$ 120 bilhões em 2024. Fundos soberanos do Golfo injetaram quase US$ 70 bilhões em ativos norte-americanos apenas no ano passado.

A interdependência ficou ainda mais evidente na cúpula de Riad em 2025, quando foram anunciados acordos de investimento que somados ultrapassaram US$ 2 trilhões. Esses acordos sustentaram milhares de empregos nos setores de defesa e tecnologia dos EUA.

Em troca dessa contribuição maciça, as capitais árabes esperavam que três prioridades fossem respeitadas: diversificação econômica, estabilidade regional e segurança energética. Esses pilares foram descritos como inegociáveis pelos ministros de Relações Exteriores do Conselho de Cooperação do Golfo.

As tensões regionais, no entanto, transformaram o Estreito de Ormuz e Bab al-Mandeb em gargalos inseguros. Os mercados globais de petróleo e gás passaram a sofrer oscilações de preços que ameaçam os programas de modernização industrial do Golfo.

O descompasso ficou explícito quando o presidente Donald Trump avançou para negociações diretas com Teerã, colocando mais uma vez os interesses de Israel no topo da pauta. As garantias solicitadas pelos parceiros árabes foram relegadas a segundo plano.

Nesse contexto, o articulista Abdulla Baabood argumenta no portal Al Jazeera que insistir em ampliar investimentos na aliança com Washington deixou de fazer sentido estratégico e financeiro para a região.

Ele relembra que a presença militar norte-americana ocupa solo árabe de forma quase irrestrita desde 1991, convertendo bases aéreas e portos em plataformas de projeção de poder. Essas estruturas muitas vezes servem a agendas alheias às demandas locais.

Ao mesmo tempo, países como a Arábia Saudita vêm acumulando gestos de distensão com vizinhos históricos, encerrando a guerra no Iêmen e abrindo canais de diálogo com o Irã. O aprofundamento de relações com a Turquia e o Paquistão aponta para uma rede de cooperação menos dependente de potências externas.

Especialistas lembram que, sem uma frente coerente, a estratégia de dividir para controlar usada historicamente por potências extrarregionais ganha força. Os desequilíbrios de poder resultantes podem perdurar por gerações.

Para reverter o quadro, Baabood sustenta que os países do Golfo deveriam concentrar recursos em inovação doméstica, cadeias de suprimento compartilhadas e capacidade de defesa integrada. O modelo de autossuficiência perseguido pela Turquia e pelo Irã serve de referência.

Isso implicaria retomar plataformas de coordenação existentes, como o Conselho de Cooperação do Golfo, e criar instrumentos financeiros para projetos conjuntos em inteligência artificial, energias renováveis e manufatura de alta precisão.

O articulista conclui que a reconstrução de um sistema de segurança regional sob liderança árabe não exige o rompimento total com Washington. Mas demanda reconhecer que nenhuma potência distante defenderá os interesses do Golfo com o mesmo empenho que os próprios árabes.

Enquanto a volatilidade se mantém, autoridades monetárias do Golfo estudam equilibrar portfólios reduzindo exposição a bônus do Tesouro norte-americano. A medida pode, a médio prazo, minar a dominância do dólar e elevar o custo de endividamento dos EUA.

A mensagem enviada a Washington é clara: se a política externa dos EUA continuar subordinada aos planos expansionistas de Tel Aviv, as capitais árabes redirecionarão capital, tecnologia e diplomacia para dentro de casa, inaugurando uma nova fase de autonomia que pode redesenhar o cenário energético global.


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