Os extremos de clima estão convertendo rios da Califórnia em corredores de morte para salmões jovens, segundo um estudo que expõe impactos profundos de secas prolongadas e enchentes violentas sobre a espécie Chinook. A pesquisa indica que a combinação entre mudanças climáticas e décadas de intervenções humanas nos rios criou um cenário de perda acelerada para esses peixes que dependem de condições ambientais estáveis para completar seu ciclo de vida.
O trabalho científico foi conduzido por equipes da University of Essex, da NOAA Fisheries, da University of California, Davis, e da Cramer Fish Sciences, com resultados divulgados na revista Global Change Biology. Ao analisar múltiplos anos de monitoramento, os pesquisadores observaram que as secas severas reduzem drasticamente a sobrevivência dos juvenis, enquanto as enchentes intensas os empurram prematuramente para o oceano, onde chegam sem tamanho ou força para enfrentar a migração.
De acordo com o estudo relatado pelo portal Phys.org, a transformação do imenso delta Sacramento–San Joaquin em um mosaico de canais artificiais agravou a situação. O delta, que historicamente oferecia diversas rotas e áreas alagadas para alimentação e abrigo, foi simplificado por obras de engenharia que aceleraram o fluxo da água e eliminaram habitats essenciais.
O artigo compara o comportamento dos peixes durante a forte seca entre 2012 e 2016 com o impacto das enchentes que ocorreram na temporada 2016–2017, quando tempestades intensas provocaram prejuízos de milhões de dólares em infraestrutura. Nessas enchentes, o sistema alterado de drenagem expulsou grande quantidade de juvenis diretamente ao oceano, privando-os das planícies de inundação e zonas úmidas que são cruciais para seu crescimento.
Os pesquisadores descreveram esses jovens expulsos como fantasmas do rio, já que desaparecem sem deixar rastros visíveis e têm baixa probabilidade de retornar para a reprodução. Segundo eles, essa mortalidade invisível ameaça o equilíbrio populacional e compromete a manutenção da diversidade genética, elemento vital para que a espécie suporte variações extremas de clima.
A coordenadora do estudo, a cientista britânica Anna Sturrock, da School of Life Sciences da University of Essex, explicou que uma das chaves para desvendar o destino dos peixes menores foi o uso de marcadores químicos naturais. Ela afirmou que, ao analisar substâncias registradas nos otólitos, estruturas semelhantes a pequenas pedras dentro do ouvido dos peixes, foi possível reconstruir cada deslocamento realizado ao longo da vida.
Sturrock destacou que a metodologia permitiu identificar áreas exatas de perda, sobretudo entre os indivíduos conhecidos como migrantes precoces, que deixam os rios ainda muito pequenos. Esses peixes representavam cerca de 80% dos juvenis que entravam no delta, mas apenas 26% conseguiam sair dele e somente 15% retornavam para a fase adulta reprodutiva.
A análise dos olhos dos peixes, que também acumulam isótopos ao longo do crescimento, reforçou as conclusões sobre as rotas e os momentos de maior risco. A equipe pôde, assim, detectar padrões de mortalidade seletiva, demonstrando que anos de clima extremo intensificam a perda justamente nos grupos com maior potencial de renovação populacional.
A cientista Rachel Johnson, pesquisadora da NOAA Fisheries e autora sênior do estudo, afirmou que os jovens salmões perdem alternativas quando enfrentam clima extremo. Ela observou que, em anos secos, a água quente e de baixo volume reduz a sobrevivência, enquanto em anos muito chuvosos as correntes violentas arrastam os peixes para áreas hostis, dificultando qualquer chance de chegada ao mar em boas condições.
Apesar do cenário desafiador, alguns indivíduos de todos os grupos de migração ainda conseguem retornar e perpetuar a espécie, mostrando que a diversidade de estratégias biológicas é indispensável. Contudo, a equipe alerta que, à medida que eventos extremos se tornam mais frequentes, a perda dessa diversidade pode colocar toda a população em risco de colapso.
Os pesquisadores afirmam que intervenções de restauração precisam replicar a diversidade histórica de habitats do delta e ser planejadas para resistir às oscilações climáticas futuras. Eles defendem que a reconstrução de zonas úmidas ao longo de toda a rota migratória pode fornecer abrigo, alimento e estabilidade aos salmões jovens, independentemente das condições climáticas.
Sturrock afirmou que o fenômeno conhecido como clima chicote, marcado por alternância abrupta entre secas e enchentes, já afeta ecossistemas de todo o planeta. Ela ressaltou que restabelecer a multiplicidade de caminhos e refúgios naturais é essencial para garantir que os salmões permaneçam resilientes diante de um clima cada vez mais imprevisível.
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