A agressão militar conduzida pelos Estados Unidos e por Israel contra a República Islâmica do Irã abriu fissuras profundas entre os dois principais aliados árabes de Washington no Golfo. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, que durante anos tentaram projetar uma imagem de coordenação estratégica, passaram a adotar leituras divergentes sobre o conflito e sobre o futuro da arquitetura de segurança regional.
Segundo análise publicada pelo portal RT em espanhol, a guerra contra Teerã catalisou um acúmulo de tensões que vinham se desenvolvendo há anos entre Riad e Abu Dhabi. As divergências envolvem disputas sobre o Iêmen, o Sudão, a questão palestina e a competição direta por influência econômica e diplomática no Oriente Médio.
O presidente dos Emirados Árabes Unidos, Mohammed bin Zayed Al Nahyan, e o príncipe herdeiro saudita, Mohammed bin Salman, mantêm uma rivalidade pessoal que se intensificou diante das escolhas estratégicas feitas durante a ofensiva contra o Irã. Bin Zayed tentou inicialmente conter a escalada e chegou a interceder junto ao presidente dos EUA, Donald Trump, mas, deflagrada a guerra, passou a defender sua continuidade como instrumento para impedir qualquer fortalecimento da República Islâmica.
Bin Salman, por sua vez, apoiou a ofensiva nos primeiros momentos, mas recuou ao perceber o impacto negativo sobre a economia saudita, fortemente dependente da estabilidade dos preços do petróleo. A disparidade entre as leituras estratégicas de Abu Dhabi e Riad reabriu desconfianças antigas e desfez parte da imagem de unidade que ambos tentavam projetar diante de Washington.
Enquanto os Emirados aprofundam a lógica dos chamados Acordos de Abraão, reforçando a aproximação com Tel Aviv e incorporando tecnologias antimísseis israelenses, a Arábia Saudita passou a se articular mais intensamente com Turquia e Paquistão. A reconfiguração de blocos é vista como sintoma da fragilidade do sistema de alianças que os EUA construíram no Golfo ao longo de décadas.
A postura de Washington diante da crise tampouco atenuou os atritos. A avaliação que circula entre observadores regionais é a de que a Casa Branca optou por não interferir abertamente na disputa, preocupada em não gerar fricções com nenhum dos lados num momento em que o conflito com o Irã elevou o risco de instabilidade energética global.
Essa cautela é considerada arriscada por analistas do Oriente Médio, já que a ausência de mediação americana tende a aprofundar o distanciamento entre Riad e Abu Dhabi. A hipocrisia do discurso de Washington fica ainda mais evidente quando os EUA, que se apresentam como guardiões da ordem regional, demonstram incapacidade de coordenar até mesmo seus aliados mais próximos.
Apesar do distanciamento, os dois países continuam sendo pilares da política de segurança norte-americana no Golfo e controlam reservas substanciais de petróleo e capital financeiro. Alguns analistas situam a crise como um choque conjuntural provocado pela guerra contra o Irã, destacando que os interesses econômicos estruturantes permanecem elevados em ambas as capitais.
Para os governos do Golfo, a pressão militar e diplomática dos EUA e de Israel sobre Teerã produziu efeitos contraditórios ao estimular políticas externas mais autônomas. A busca por parcerias alternativas, maior diversificação econômica e o fortalecimento de sistemas de defesa independentes são transformações em curso que dificilmente serão revertidas, mesmo se o conflito arrefecer.
O fato de dois dos principais aliados árabes de Washington terem deixado de coordenar suas agendas com a regularidade anterior introduz incerteza adicional sobre o equilíbrio de forças na região. Também sugere que a arquitetura energética global tende a se fragmentar ainda mais num momento em que guerras, sanções e disputas tecnológicas corroem a previsibilidade das cadeias de abastecimento.
No curto prazo, a posição dos EUA diante dessa fratura será decisiva, já que o país depende da cooperação do Golfo para mitigar impactos globais da guerra e conter a reação iraniana. No médio e longo prazos, a reorganização das alianças pode abrir espaço para novos arranjos de poder, especialmente em um cenário internacional que favorece a multipolaridade.
As tensões em torno da República Islâmica funcionaram como catalisador de divergências que já estavam em curso e que agora se tornaram impossíveis de ignorar. O Oriente Médio segue sendo o palco onde a hegemonia norte-americana é testada, e o desgaste entre Riad e Abu Dhabi é mais um indicador de que o velho desenho de blocos sólidos perdeu sua sustentação.
Com informações de ACTUALIDAD.
Leia também: Emirados Árabes Unidos alertam EUA que podem recorrer ao yuan chinês por causa da guerra com o Irã
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