O confronto entre as Forças Armadas Sudanesas (SAF) e a Força de Apoio Rápido (RSF), deflagrado em 2023, transformou um dos celeiros históricos da África em extensões de terra abandonada visíveis do espaço.
Um levantamento com imagens do satélite Sentinel-2, combinado ao Índice de Vegetação por Diferença Normalizada e detalhado pelo Al Jazeera, mostra que regiões outrora produtivas em Gezira, Sennar e Cartum viraram mosaicos de terra exposta e vegetação rasteira sem valor agrícola.
A fase mais aguda de colapso ocorreu ao longo de 2024, período em que a RSF controlou quase toda a malha irrigada central do país. O grupo paramilitar cortou telecomunicações, saqueou armazéns públicos e desligou bombas de irrigação, provocando queda abrupta na produção de trigo.
Pivô dessa tragédia alimentar, o Esquema Gezira cobre 924 000 hectares entre os rios Nilo Azul e Nilo Branco e, durante décadas, respondeu por metade da produção de trigo sudanesa. O projeto opera 8 000 quilômetros de canais de irrigação, infraestrutura que levou gerações para ser construída e que o conflito comprometeu em meses.
Quando a RSF capturou Wad Madani em dezembro de 2023, bombas foram desligadas e comportas ficaram obstruídas. Relatórios da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontam queda de 58% na colheita 2023-2024, sem que fatores climáticos expliquem o desastre.
Em Abu Quta, agricultores inundaram deliberadamente canais de irrigação para tentar impedir o avanço de comboios armados da RSF. O expediente transformou cerca de 1 000 hectares em lama estéril que persiste até hoje, segundo associações locais de produtores rurais.
A Agência da União Europeia para Asilo documentou desvios de cursos d’água para formar valas antitanque, sacos de grãos convertidos em pontes improvisadas e a destruição completa do canal al-Haiwawa, que abastecia 48 vilarejos. Com o preço do fertilizante saltando de 20 000 para 120 000 libras sudanesas por saca e o aluguel de tratores triplicado, o colapso financeiro se alastrou rapidamente entre os pequenos produtores.
Depósitos do Programa Mundial de Alimentos (PMA) capazes de sustentar 1,5 milhão de pessoas por mês foram esvaziados durante as ofensivas paramilitares. Nos projetos vizinhos Rahad e Suki, que somam 163 800 hectares, o padrão se repetiu ao longo de 2024, e as imagens de satélite perderam as geometrias regulares típicas de agricultura organizada — sinal inequívoco de terras abandonadas em escala.
A análise temporal indica uma leve reversão apenas depois que a SAF retomou Singa em novembro de 2024 e Wad Madani em janeiro de 2025. Ainda assim, os campos continuam muito abaixo do vigor registrado antes da eclosão do conflito, e especialistas alertam que uma única temporada agrícola não é suficiente para restaurar infraestrutura hídrica destruída.
Fotografias de alta resolução da empresa Planet Labs identificaram 126 grandes instalações fabris arruinadas na região de Gezira. O Ministério da Indústria sudanês estima que quase 3 200 instalações industriais foram destruídas em Cartum, cenário que, segundo o próprio ministério, atrasará por anos qualquer retomada robusta da produção nacional.
A recuperação agrícola depende de uma cadeia complexa: reparação de bombas, reabastecimento de sementes e restabelecimento de mercados locais. Sobretudo, exige estabilidade suficiente para que camponeses retornem às suas terras — condição ainda distante enquanto o conflito persistir em zonas periféricas.
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