O frágil cessar-fogo entre Israel e o Líbano mal esconde a continuidade de bombardeios e demolições no sul libanês, enquanto o presidente do Líbano, Joseph Aoun, prepara uma visita a Washington que pode incluir um encontro direto com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu — o que seria um encontro inédito entre os dois líderes.
Segundo artigo publicado pelo Al Jazeera, a viagem tende a gerar fotos simbólicas. Mas está longe de atacar as raízes centenárias do conflito que dilacera o sul libanês há gerações.
Mesmo durante a trégua, as Forças de Defesa de Israel mantêm tropas em localidades além do rio Litani, o que representa cerca de 10% do território libanês, contrariando resoluções internacionais que exigem plena retirada. O ministro da Defesa israelense, Israel Katz, declarou que pretende consolidar uma zona de segurança até o Litani — medida que, na prática, congela a vida de milhares de famílias impedidas de regressar às aldeias devastadas.
Netanyahu apresenta a ofensiva como esforço para destruir o Hezbollah, mas a análise sustenta que as demolições em série configuram antes uma campanha de deslocamento em massa, com ecos em velhos projetos expansionistas. A aspiração de levar as fronteiras israelenses ao Litani remonta a 1918, quando Yitzhak Ben-Zvi e David Ben-Gurion descreveram sua pátria indo do rio libanês até o golfo de Aqaba — ambição reiterada pela delegação sionista na Conferência de Paris de 1919.
No nascimento do Estado israelense, em 1948, tropas conquistaram a aldeia de Hula sem resistência e massacraram mais de 80 civis. O episódio se repetiu em Qadas, Saliha e outras localidades fronteiriças, deixando cicatrizes demográficas profundas.
Já nos anos 1960, o sul do Líbano recebia apenas 0,7% do orçamento público libanês. Essa privação fomentou a mobilização dos xiitas e, posteriormente, a criação do Hezbollah após a invasão israelense de 1982.
A Guerra Civil Libanesa, detonada em 1975, misturou divisões internas com a presença da Organização para a Libertação da Palestina, cujas ações transfronteiriças justificaram a Operação Litani — grande incursão israelense em 1978 que deslocou dezenas de milhares de civis. A nova invasão de 1982 deixou claro que Tel Aviv não pretendia sair rapidamente, impulsionando o Hezbollah a se consolidar como principal ator armado de resistência na região.
Desde então, o grupo libanês desenvolveu parceria estratégica com a República Islâmica do Irã, que transfere mísseis, drones e tecnologia cibernética considerados linha de defesa avançada contra a expansão israelense. A disparidade bélica é gritante: entre 2007 e 2022, o projeto Air Pressure registrou 22.355 violações de espaço aéreo libanês por Israel.
Após 7 de outubro de 2023, o canal britânico Channel 4 contabilizou ataques israelenses cinco vezes superiores aos disparos do Hezbollah. A análise aponta que não existe solução puramente militar para questões políticas estruturais que alimentam movimentos como o Hezbollah ou o Hamas após décadas de ocupação.
Atores poderosos estimulam deliberadamente a escalada — parte da elite libanesa alinha-se a Tel Aviv, enquanto Netanyahu sustenta uma guerra permanente que distrai o eleitorado israelense e posterga processos judiciais que pesam sobre ele. O texto também destaca que países atacados quando não detêm arma nuclear tornam-se alvos considerados derrotáveis, o que dificulta qualquer percepção de segurança duradoura na região.
A limitada eficácia do poderio militar israelense e o desgaste da tutela norte-americana no Golfo evidenciam que terceirizar segurança só produz estabilidade armada, jamais paz formal. Nesse contexto, a eventual foto de Aoun ao lado do presidente dos EUA, Donald Trump, e de Netanyahu pode render manchetes, mas não libera aldeões para reconstruir casas destruídas nem resolve a disputa pela linha de fronteira.
Para os autores da análise, vencer a paz exige uma nova ordem regional negociada e aceita primeiro pelos atores locais, substituindo lógicas de dominação por arranjos de coexistência. Enquanto isso não ocorre, a ocupação ao sul do Litani consolida-se como lembrança diária de que as guerras israelenses podem ser curtas — porém o pós-guerra no Líbano arrasta-se por gerações.
Leia também: Israel ordena evacuação forçada no sul do Líbano e amplia tensão com Hezbollah
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