A Polícia Federal, sempre estragando a festa da família tradicional brasileira, revelou em sua Operação “Compliance Zero” (um nome poético e muito apropriado) que o ex-ministro todo-poderoso de Jair Bolsonaro, aliado de primeira hora de Flávio Bolsonaro e um dos maiores porta-vozes do bolsonarismo raiz, o senador Ciro Nogueira (PP-PI), definitivamente não passava aperto na sua incansável luta contra a corrupção.
Segundo as investigações, o banqueiro Daniel Vorcaro atuava como o “patrocinador oficial” do padrão de vida espartano do parlamentar, bancando uma singela “mesada” que chegava a R$ 500 mil. Afinal, defender o lema “Deus, Pátria e Família” cansa bastante, e para recarregar as energias nada melhor do que despesas pagas em restaurantes de altíssimo luxo e hospedagens “humildes” no suntuoso Park Hyatt New York — com direito a acompanhante, claro.
Tudo isso na conta do generoso Vorcaro, que também disponibilizava um imóvel para o senador descansar e um cartão de crédito sem limites para aquelas despesas pessoais diárias que todo bom patriota possui.
Mas a generosidade do livre mercado não parou por aí. A meritocracia bolsonarista também alcançou o irmão de Ciro, Raimundo Nogueira. Em uma jogada de mestre que faria inveja a qualquer lobo de Wall Street, Raimundo adquiriu 30% de participação em uma empresa de investimentos (a Green) pelo valor simbólico de R$ 1 milhão. Um verdadeiro milagre do empreendedorismo, considerando que as ações valiam módicos R$ 13 milhões na época da transação.
Um descontão camarada que o ministro do STF, André Mendonça — que determinou buscas, apreensões e o bloqueio de R$ 18,5 milhões em bens do senador —, por algum motivo, achou suspeito. Na decisão, Mendonça pontuou que não é exatamente “ordinário” que um mero “vínculo fraternal” justifique comprar algo de 13 milhões por 1 milhão, ou receber repasses mensais de meio milhão de reais. O ministro parece não compreender as sutilezas do networking em Brasília.
O discurso oficial era de que a mamata ia acabar. E, pelo visto, Ciro Nogueira levou o mantra a sério: tratou logo de terceirizar a sua para a iniciativa privada. Fica a lição de que, enquanto se gritava contra a “velha política” nos palanques, a “nova política” se hospedava em Nova York com tudo pago pelo sistema financeiro. O bolsonarismo, afinal, sempre teve um gosto bastante peculiar pelo luxo, desde que a fatura fosse enviada para outro endereço.


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