O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva segue inteiro, mas opera sobre o fio da navalha que ele mesmo afiou quando virou o jogo contra o bolsonarismo na eleição passada.
A BBC News Brasil reuniu em um único quadro a derrubada de um veto presidencial e a inédita rejeição de uma indicação ao STF, sinalizando que o Planalto perdeu votos em série, mas não a bússola.
No pleito de 2022, Lula conquistou 50.9% dos votos válidos contra os 49.1% do então presidente Jair Messias Bolsonaro, e essa margem mínima foi selada por uma frente ampla que olhou mais para a ameaça autoritária do que para afinidade programática.
O mesmo país que escolheu o petista entregou ao Congresso a composição mais conservadora da redemocratização, criando o paradoxo institucional em que o Executivo progressista convive com uma cúpula legislativa refratária a avanços sociais mais ambiciosos.
As derrotas recentes não denunciam fraqueza de articulação, mas cobram o pedágio de um pacto que deu votos ao governo na hora do aperto e agora exige dividendos em cada projeto de lei, emenda ou verba de emenda.
A recusa ao nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, foi a primeira devolução negativa de sabatina para o STF em 132 anos e deixou claro que o Senado negocia cadeira por cadeira sem pudor de impor constrangimento público ao Palácio.
No mesmo compasso, a Câmara comandada por Arthur Lira derrubou o veto ao projeto que suaviza penas para condenados pelos atos de 8 de janeiro, vitória simbólica de uma tropa bolsonarista que ainda dita parte da agenda criminal-ideológica.
É crucial separar os movimentos: o centrão testa preços em cargos e orçamentos, enquanto o núcleo duro da extrema direita empilha vitórias temáticas para manter sua base engajada e viva até 2026.
Essa equação ganha combustível extra na disputa municipal de 2024, quando prefeitos controlam máquinas, rádios e ônibus que se transformarão em palanques híbridos na largada da campanha nacional seguinte.
A métrica real de sucesso para Lula não será a ausência de reveses legislativos, e sim a preservação do coração de seu programa — salário mínimo em ascensão real, expansão de transferência de renda e reconstrução de políticas setoriais esvaziadas no ciclo anterior.
Governar, portanto, significa ceder em pautas periféricas para blindar o essencial e, ao mesmo tempo, impedir que o bolsonarismo use a tribuna para reescrever a narrativa do 8 de janeiro sem pagar preço político nas urnas.
Quem lê as derrotas de curto prazo como prenúncio de colapso esquece que a frente ampla salvou a democracia com o mesmo Congresso que agora faz valer sua cota de poder; o jogo é duro, mas foi essa conta que o eleitor autorizou a pagar.
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