Em março deste ano, uma série repentina de relatos sobre avistamentos de criaturas altas e peludas sacudiu o Condado de Portage, em Ohio, logo a leste de Akron. Figuras não identificadas, descritas com cerca de 2,4 metros de altura, teriam sido vistas em áreas arborizadas ao longo do Rio Mahoning. O fenômeno, conhecido entre entusiastas do Pé-Grande como um “flap” — um aumento concentrado de relatos em curto período — trouxe de volta aos holofotes um debate que atravessa mais de um século na América do Norte.
“E parou tão rápido quanto começou”, afirma Jeremiah Byron, apresentador do Bigfoot Society Podcast, que coletou e mapeou os relatos. Byron especula que mudanças climáticas sazonais podem ter influenciado os supostos avistamentos na região.
O episódio — apelidado informalmente de Flap de Ohio de 2024 — reacendeu uma discussão que divide opiniões: existiria uma espécie não identificada de hominóides gigantes e peludos vivendo discretamente nas florestas norte-americanas?
Dois lados, uma fascinação
Mike Miller e Benjamin Radford representam os polos opostos desse debate cultural. Miller, que integra o grupo Ohio Night Stalkers, dedica-se há quase duas décadas à busca pelo yeti. “Quando você ouve algo ou vê algo, sabe, isso fica com você e se torna parte de você, e você simplesmente não consegue se livrar disso”, relata.
Do outro lado, Benjamin Radford, folclorista e editor assistente da revista Skeptical Inquirer, admite a fascinação pelo tema, mas mantém postura cética. “Se eles fossem reais, deveríamos encontrar evidências físicas concretas”, argumenta Radford. “Como conseguiriam ser tão esquivos? Teria que haver uma população viável.”
Apesar das divergências fundamentais, ambos concordam em um ponto: é um fenômeno cultural fascinante de se discutir.
Uma história de décadas
O folclore sobre criaturas misteriosas na América do Norte ganhou popularidade com um artigo de 1960 na revista True, que descrevia uma figura alta e peluda que parecia “parte humana e parte animal”. O que começou como narrativa evoluiu para buscas mais organizadas, incorporando novas tecnologias.
O marco definitivo veio em 1967, quando Roger Patterson e Bob Gimlin filmaram uma figura peluda caminhando por uma floresta no norte da Califórnia. O filme, conhecido como Patterson-Gimlin, provocou décadas de debate sobre sua autenticidade e permanece como a peça mais controversa de suposta evidência do Pé-Grande.
O mistério chegou até o FBI. Em 1976, a agência concordou em examinar 15 amostras de pelos supostamente retiradas de um encontro com o Pé-Grande no Oregon. Uma carta do diretor do Bigfoot Information Center and Exhibition classificou o assunto como “uma questão séria que precisa de resposta”.
A conclusão do FBI, após análise microscópica, foi direta: “Concluiu-se, como resultado desses exames, que os pelos são de origem da família dos cervos.”
A busca pelo Sasquatch também se tornou fenômeno cultural. A série de TV “In Search Of…”, apresentada por Leonard Nimoy, dedicou vários episódios ao tema — tanto Byron quanto Radford citam o programa como inspiração para seu interesse em fenômenos inexplicáveis. Hoje, a figura do Pé-Grande aparece em produtos que vão de desodorante a carne seca, e virou tema favorito de pegadinhas de Dia da Mentira.
Os relatos de março
Os relatos recebidos em março pelo Bigfoot Society Podcast seguem padrões de avistamentos anteriores: criaturas peludas, altas, marrons ou pretas, com passadas longas e sons únicos, mantendo-se próximas a pequenos cursos de água.
“Muita gente acredita que eles tentam seguir os sistemas de riachos”, explica Byron, descrevendo as teorias dos entusiastas.
Mike Miller inicialmente desconfiou dos relatos. “É bom ser cético”, afirma. “Há uma conferência do Pé-Grande naquela área, e pensei que talvez fosse publicidade.” Mas após analisar os padrões, Miller se convenceu de que os relatos pareciam genuínos.
“As pegadas parecem legítimas, e algumas das pessoas pareciam aterrorizadas quando falavam sobre as experiências”, diz Miller.
Byron também filtra cuidadosamente os relatos, conversando diretamente com as testemunhas antes de publicá-los. Quando a notícia se espalhou, surgiram falsificações óbvias. “Comecei a receber muitos relatos gerados por IA no meu e-mail. Chegou ao ponto em que eu estava recebendo provavelmente cerca de 1.000 e-mails por dia”, conta.
Mas as testemunhas iniciais, segundo Byron, pareciam genuínas. “Era óbvio que eles não queriam divulgar seus nomes. Eles pareciam genuinamente perturbados com o que relataram ter vivenciado.”
Humor e ceticismo
A polícia local entrou na brincadeira. O xerife do Condado de Portage, Bruce D. Zuchowski, fez uma série de postagens satíricas fingindo mostrar a prisão do Pé-Grande e sua detenção pelo ICE, apenas para a criatura escapar na fronteira canadense. “AVISO: Se você tentar fotografar o Pé-Grande, a foto ficará borrada”, dizia uma postagem.
Apesar da leveza, o gabinete realmente recebeu ligações de residentes preocupados. “Dez pessoas relataram experiências similares: avistamentos de figuras altas e peludas durante caminhadas matinais”, relatou o xerife à afiliada da CNN WOIO em março.
Para Benjamin Radford, os novos relatos não alteram sua perspectiva. “Eu não zombo das pessoas que procuram pelo Pé-Grande. Não desprezo os investigadores. Meu questionamento é sobre a metodologia aplicada a essas investigações.”
Radford acredita que o aspecto social — reunir-se, passar uma noite na floresta com equipamentos de gravação — é o verdadeiro atrativo. “Existem paralelos com grupos de caça a fantasmas. Trata-se de sair com seus amigos, acampar e compartilhar experiências inusitadas.”
Enquanto isso, a busca continua. E o debate cultural também.
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