Pesquisa revela avanço do conspiracionismo nos EUA

Pesquisa revela que muitos americanos acreditam que as tentativas de assassinato de Trump foram falsas / Reprodução

Desconfiança cresce entre americanos e alimenta teorias sem provas nas redes sociais

Uma nova pesquisa divulgada nos Estados Unidos revelou um dado alarmante sobre o ambiente político e informacional do país: uma parcela significativa da população acredita que os episódios envolvendo ataques armados contra o presidente Donald Trump foram encenados. O levantamento, realizado pela empresa NewsGuard em parceria com a YouGov, mostra que cerca de um em cada quatro americanos considera falsa a tentativa de assassinato ocorrida durante o jantar dos correspondentes da Casa Branca, em abril deste ano.

O resultado escancara um cenário de profunda desconfiança institucional e reforça o impacto das teorias conspiratórias que circulam com velocidade nas redes sociais. Além disso, a pesquisa evidencia uma forte divisão partidária e geracional, especialmente entre democratas e jovens adultos, grupos mais inclinados a acreditar que o episódio teria sido manipulado politicamente.

Embora nenhuma evidência tenha sido apresentada até agora para sustentar essas alegações, a desinformação continua avançando em meio à polarização extrema que domina o debate público norte-americano.

Fonte: Pesquisa NewsGuard/YouGov com 1.000 americanos, realizada entre 28 de abril e 4 de maio.

Segundo os dados divulgados pela NewsGuard, 24% dos adultos entrevistados afirmaram acreditar que o ataque ocorrido no Washington Hilton foi uma farsa. Por outro lado, 45% disseram considerar o episódio legítimo, enquanto 32% afirmaram não saber em quem acreditar.

O levantamento ouviu mil adultos entre os dias 28 de abril e 4 de maio. Entre os democratas, o índice de pessoas que acreditam que o ataque foi encenado sobe para aproximadamente um terço dos entrevistados. Já entre os republicanos, apenas cerca de um em cada oito compartilha dessa visão.

A diferença revela como a polarização política influencia diretamente a percepção dos fatos nos Estados Unidos. Enquanto setores conservadores tendem a interpretar os ataques como ameaças reais contra Trump, parte do eleitorado progressista demonstra crescente ceticismo diante de acontecimentos ligados ao presidente.

Além disso, a pesquisa identificou que pessoas entre 18 e 29 anos aparecem mais propensas a acreditar em teorias conspiratórias do que os entrevistados mais velhos. O dado chama atenção porque aponta para uma geração altamente conectada às redes sociais, principal espaço de circulação desse tipo de conteúdo.

Ataque em jantar da imprensa gerou onda imediata de boatos

O episódio investigado ocorreu durante o tradicional jantar dos correspondentes da Casa Branca, evento que reúne jornalistas, políticos e figuras influentes em Washington. Após o incidente, teorias conspiratórias começaram a circular rapidamente na internet.

Publicações sem comprovação passaram a afirmar que o próprio governo Trump teria organizado o atentado com o objetivo de aumentar a popularidade do presidente, fortalecer o Partido Republicano e impulsionar a imagem do evento promovido pela Casa Branca.

Na semana passada, porém, um júri federal em Washington indiciou Cole Tomas Allen, apontado como o autor dos disparos, por quatro crimes graves. Entre eles está a acusação de tentativa de assassinato contra Donald Trump.

Mesmo assim, as acusações formais e a ausência de provas sobre qualquer encenação não impediram a continuidade das narrativas conspiratórias.

A editora da NewsGuard, Sofia Rubinson, afirmou que os números revelam um fenômeno preocupante de erosão da confiança pública. Segundo ela, americanos de diferentes correntes políticas passaram a desconfiar tanto do governo quanto da imprensa tradicional.

“Cada vez mais, pessoas de todos os lados do espectro político desconfiam tanto desta administração quanto da mídia”, afirmou Rubinson ao comentar os resultados.

Ela também destacou que muitos cidadãos acabam recorrendo a conteúdos não verificados encontrados online, frequentemente compartilhados sem qualquer checagem.

Casa Branca reage e tenta conter desinformação

Após a divulgação da pesquisa, a Casa Branca se manifestou oficialmente para rejeitar as teorias conspiratórias.

O porta-voz Davis Ingle adotou um tom duro ao comentar o assunto. “Qualquer pessoa que pense que o presidente Trump orquestrou suas próprias tentativas de assassinato é um completo idiota”, declarou.

Apesar da resposta contundente, especialistas avaliam que o governo enfrenta dificuldades para conter a disseminação desse tipo de narrativa. Isso porque o ambiente digital atual favorece conteúdos emocionais, polarizados e sensacionalistas.

Além disso, o histórico recente da política norte-americana contribuiu para ampliar o descrédito nas instituições. Nos últimos anos, tanto democratas quanto republicanos passaram a utilizar acusações de manipulação, fraude e perseguição política como parte constante de suas estratégias discursivas.

Como consequência, teorias da conspiração deixaram de ocupar espaços marginais e passaram a influenciar o debate político de maneira mais ampla.

Outros ataques contra Trump também viraram alvo de teorias

A pesquisa mostrou ainda que a desconfiança não se limita ao episódio do jantar dos correspondentes. Outros ataques envolvendo Trump também foram colocados em dúvida por parte da população.

Em relação ao atentado ocorrido em julho de 2024, durante um comício em Butler, na Pensilvânia, 24% dos entrevistados afirmaram acreditar que o episódio foi falso. Entre os democratas, o percentual sobe para 42%. Já entre os republicanos, apenas 7% disseram acreditar na hipótese de encenação.

Outro caso analisado aconteceu em setembro de 2024, no Trump International Golf Club, em West Palm Beach, na Flórida. Nesse episódio, 16% dos entrevistados afirmaram acreditar que a tentativa de assassinato foi armada.

A divisão partidária novamente apareceu de forma evidente: 26% dos democratas disseram acreditar na teoria conspiratória, contra apenas 7% dos republicanos.

No total, 21% dos democratas entrevistados afirmaram acreditar que os três episódios envolvendo armas de fogo foram encenados. Entre independentes, o índice ficou em 11%. Já entre republicanos, apenas 3% sustentaram essa visão.

Especialistas alertam para normalização do conspiracionismo

Pesquisadores que acompanham o fenômeno da desinformação avaliam que o crescimento desse tipo de pensamento representa um risco para a democracia americana.

A professora Joan Donovan, da Universidade de Boston, afirmou que o cenário atual transforma a política em um espetáculo permanente. Para ela, o estilo midiático da presidência Trump ajuda a alimentar interpretações conspiratórias.

“Parece coisa de Hollywood imaginar que isso seja armado”, afirmou Donovan ao comentar o ataque no jantar dos correspondentes. “Todo o aparato do governo foi transformado em um reality show.”

Segundo a pesquisadora, o aumento da desconfiança entre setores da esquerda também reflete o desgaste das instituições tradicionais e a sensação de insegurança política vivida no país.

Já Jared Holt, pesquisador sênior do grupo Open Measures, alertou que o conspiracionismo se tornou quase automático para parte da população americana.

“As teorias da conspiração infectaram nosso corpo político a tal ponto que se tornaram um reflexo instintivo para uma parcela aparentemente crescente da população”, declarou.

Crise de confiança aprofunda polarização nos Estados Unidos

O avanço dessas teorias ocorre em um contexto de forte fragmentação política, descrédito institucional e disputa permanente por narrativas nas plataformas digitais.

Especialistas apontam que, quando governos falham em garantir transparência ou quando instituições perdem legitimidade diante da população, cresce o espaço para versões alternativas dos fatos.

Nesse ambiente, boatos passam a competir diretamente com informações verificadas. Além disso, algoritmos das redes sociais frequentemente ampliam conteúdos sensacionalistas, aumentando o alcance de narrativas conspiratórias.

O resultado aparece de forma clara na pesquisa da NewsGuard: milhões de americanos já não conseguem distinguir consenso factual de especulação política.

Mais do que um debate sobre Donald Trump, o levantamento expõe uma crise profunda de confiança pública nos Estados Unidos. E, diante da proximidade de novos ciclos eleitorais, o fortalecimento dessas teorias pode ampliar ainda mais a radicalização política no país.

Com informações de Washington Post*

Rhyan de Meira: Rhyan de Meira é jornalista pela Universidade Federal Fluminense, escreve sobre política, economia e carnaval. É repórter, redator e editor dos site O Cafezinho e Rio Carta. / Contato: Redes: @rhyandemeira / Email: rhyandemeira@hotmail.com
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