Explosão no Jaguaré expõe os estragos da privatização da Sabesp e o fantasma da Enel em São Paulo

O governador Tarcísio de Freitas em montagem com os logotipos da Sabesp e da Enel. (Foto: diariodocentrodomundo.com.br)

Uma obra da Sabesp atingiu uma tubulação de gás no bairro do Jaguaré, na zona oeste de São Paulo, causou uma explosão e deixou ao menos um morto.

O acidente não é um episódio isolado. É o retrato de um padrão que a capital paulista já conhece bem, vivido durante décadas com a distribuidora de energia Enel — e que agora se repete com a concessionária de água e esgoto privatizada pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) em julho de 2024.

A trajetória da Sabesp pós-privatização guarda semelhança perturbadora com o que ocorreu com a Eletropaulo após sua venda, há quase três décadas. O roteiro se repete com precisão desconcertante, conforme análise publicada pelo Diário do Centro do Mundo.

Na oferta pública que transferiu o controle da empresa, o governo do estado de São Paulo vendeu 32% das ações da Sabesp por R$ 14,8 bilhões. As promessas incluíam universalização do serviço — meta de atender 99% da população com água potável e ao menos 90% com coleta e tratamento de esgoto.

Menos de dois anos depois, o governo detém apenas 18% do controle da empresa. O que abundam são relatos de obras mal-feitas, destruição do asfalto nas cidades e acidentes como o do Jaguaré.

As promessas de redução tarifária também não se sustentaram. Em vez de reverter os recursos da oferta pública em benefícios ao consumidor, a Sabesp ampliou o pagamento de dividendos aos acionistas e registrou lucro líquido ajustado de R$ 1,5 bilhão entre janeiro e março de 2026 — alta de 32,3% em relação ao mesmo período de 2025.

Enquanto isso, as reclamações dos consumidores explodiram. A média mensal de queixas cresceu 70% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com 2025, passando de 1.041 para 1.770 registros, segundo a agência reguladora responsável pelo setor.

O roteiro é familiar para quem acompanhou o caso da Enel. Em 1998, ainda na gestão do governador Mário Covas, a Eletropaulo foi vendida por apenas R$ 2 bilhões — valor equivalente a entre R$ 8 bilhões e R$ 10 bilhões em valores atuais.

Em 2018, a italiana Enel assumiu 73,38% da empresa, referentes à distribuição na região metropolitana de São Paulo, por R$ 5,55 bilhões. O valor total da empresa na segunda venda (R$ 7,75 bilhões) ficou abaixo do preço corrigido da primeira transação — em outras palavras, os tucanos venderam patrimônio público abaixo do valor de mercado.

O resultado foi uma degradação progressiva do serviço. O tempo médio de atendimento a ocorrências emergenciais da Enel saltou de 9,13 horas em 2019 para 12,21 horas em 2024.

Relatos de substituição de equipes experientes por pessoal menos qualificado e de subinvestimento em manutenção preventiva se multiplicaram. Os apagões tornaram-se rotina na capital paulista durante temporais — situação que levou a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) a votar unanimemente pela instauração do processo de rescisão do contrato com a empresa italiana.

A ironia do episódio não passou despercebida. O próprio governador Tarcísio de Freitas e o prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), dois dos mais ardorosos defensores da privatização, foram os que pediram a rescisão do contrato e a intervenção do governo federal na concessão de energia elétrica.

A defesa do modelo havia durado exatamente até o momento em que o modelo colapsou diante dos olhos do eleitorado.

A Enel ainda causou turbulências diplomáticas. Em 2025, a empresa italiana pressionou a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, a não assinar o acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul, caso a Prefeitura de São Paulo rescindisse o contrato.

Meloni ignorou os apelos e manteve o acordo — mas o episódio revelou até onde vai o poder de chantagem de uma multinacional sobre governos quando detém o controle de infraestrutura estratégica.

O caso Sabesp segue o mesmo caminho. A lógica da privatização de serviços essenciais — água, energia, saneamento — coloca o lucro do acionista acima da qualidade do serviço prestado à população.

Quando a conta chega, quem paga não são os investidores que embolsaram os dividendos. São os moradores que ficam sem água, os trabalhadores que perdem horas esperando a luz voltar e, no caso mais grave, as vítimas de acidentes como o do Jaguaré.


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