O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) quer ser visto como a versão palatável do bolsonarismo — menos ruído, mais gestão, um projeto presidencial que não assuste o centro. O problema é que 16 anos de discursos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro deixaram rastro documental difícil de apagar.
Reportagem da Folha de S.Paulo, que analisou mais de 12 mil discursos de deputados na tribuna da Alerj entre 2003 e 2018, encontrou um padrão inequívoco: Flávio transformou a tribuna em balcão de demandas corporativas das forças de segurança — reajustes, pensões, ampliação de efetivo, benefícios para policiais, bombeiros e agentes penitenciários. O achado não é detalhe biográfico. É o esqueleto do projeto político que ele agora tenta reformatar para 2026.
O que os números revelam — e o que escondem
Segurança pública dominou 68% das falas de Flávio na Alerj, quatro vezes a média dos 163 parlamentares que discursaram no mesmo período. Saúde apareceu como tema dominante em apenas 1% dos pronunciamentos; educação, em 2%.
Esses três números bastam para entender o perfil legislativo real do pré-candidato. Não se trata de um político que priorizou segurança entre outras pautas — trata-se de alguém que, na prática, abdicou de construir qualquer agenda social ampla durante quatro mandatos consecutivos.
A moderação que não aparece no arquivo
O discurso de ‘Bolsonaro moderado’ tem uma fragilidade estrutural: ele precisa convencer um eleitorado que não o conhecia na Alerj, mas existe um arquivo público que o conhece muito bem. Os pronunciamentos levantados pela Folha incluem elogios ao período da ditadura militar, endosso à homenagem de Jair Bolsonaro ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, críticas às cotas raciais e ao modelo de família com homossexuais.
Não são posições periféricas ou deslizes isolados — são recorrências que atravessam mandatos. A moderação que Flávio vende hoje não tem correspondente no histórico que ele mesmo construiu.
A sombra da rachadinha e as perguntas sem resposta
A trajetória na Alerj também é inseparável das investigações sobre a suspeita de ‘rachadinha’ no gabinete do então deputado — esquema em que assessores devolveriam parte do salário ao chefe. O caso envolveu seu ex-assessor Fabrício Queiroz e as ligações com o miliciano Adriano da Nóbrega, e foi encerrado com perguntas que a Justiça não respondeu de forma definitiva.
Para um candidato que quer se apresentar como alternativa de gestão séria, esse passivo não é apenas biográfico — é político. Qualquer campanha presidencial de Flávio terá de atravessar esse campo minado sem a proteção que o clã Bolsonaro usufruía quando estava no poder.
Por que isso importa para 2026
O campo da direita para 2026 ainda não tem candidatura consolidada. Jair Bolsonaro, que obteve 49,1% dos votos válidos no segundo turno de 2022, está inelegível. O espaço eleitoral existe — a questão é quem consegue ocupá-lo sem carregar o peso das contradições do bolsonarismo original.
Flávio aposta que pode herdar a base sem herdar o estigma. Mas herança política não funciona como curadoria de imagem: o eleitorado de centro que ele precisa conquistar vai exigir explicações sobre um histórico que não cabe em releitura de marketing.
A equipe do senador afirmou em nota que sua atuação ‘sempre refletiu uma prioridade clara: enfrentar o avanço do crime organizado e defender a população refém do tráfico e das facções criminosas’, acrescentando que ele também atuou em saúde, mobilidade e direitos de pessoas com deficiência, além de articular recursos do megaleilão do pré-sal para o Rio de Janeiro.
A defesa é legítima como argumento de campanha. O problema é que ela precisa competir com um arquivo de discursos catalogados pela Folha ao longo de 16 anos — e os dados da Alerj não têm assessoria de imprensa.
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