A República Islâmica do Irã sinalizou que pode elevar o enriquecimento de urânio ao nível de 90% de pureza — limiar considerado apto para uso em armas nucleares — caso seja novamente alvo de ataques militares.
O aviso partiu de Ebrahim Rezaei, porta-voz da Comissão de Segurança Nacional e Política Exterior do Parlamento iraniano, em publicação na rede social X. ‘Uma das opções do Irã em caso de outro ataque poderia ser o enriquecimento de urânio a 90%. Vamos analisar isso no parlamento’, escreveu Rezaei.
A declaração representa uma mudança de tom relevante em meio ao agravamento das tensões com Washington e Tel Aviv, que conduziram ataques contra território iraniano em 2025. O contexto diplomático em que a advertência emerge é de extrema instabilidade.
O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o cessar-fogo com o Irã está ‘em suporte vital massivo’, estimando em apenas 1% as chances de que a trégua se sustente. ‘Eu diria que o cessar-fogo está em suporte vital, onde o médico entra e diz: senhor, seu ente querido tem aproximadamente 1% de chance de sobreviver’, declarou Trump.
Trump foi ainda mais incisivo ao comentar a proposta iraniana para um acordo de paz. O presidente americano classificou a proposta como ‘um pedaço de lixo’ e afirmou que nem sequer terminou de lê-la, descartando qualquer saída negociada que preserve o programa nuclear iraniano.
Antes dos ataques de 2025, estimava-se que o Irã dispunha de mais de 400 quilogramas de urânio enriquecido a 60% de pureza, além de quase 200 quilogramas de material com nível de enriquecimento próximo a 20%. Especialistas em não-proliferação nuclear apontam que esse patamar pode ser elevado a grau bélico com relativa facilidade, tornando os estoques iranianos um elemento central nas negociações.
A sinalização de Rezaei deve ser lida como instrumento de dissuasão: o Irã comunica que qualquer nova agressão terá custos estratégicos crescentes para os países envolvidos. Teerã não anunciou uma decisão tomada, mas sim uma opção que o parlamento se dispõe a debater caso o cenário de ataques se repita.
Washington não descartou a possibilidade de uma operação terrestre caso o Irã não renuncie às suas reservas de urânio enriquecido. A exigência americana — que Teerã abandone o resultado de décadas de desenvolvimento tecnológico soberano como condição para a paz — é rejeitada pelo governo iraniano como incompatível com sua soberania nacional.
O impasse atual expõe a contradição central das negociações: Washington afirma querer um acordo enquanto rejeita qualquer proposta que não implique o desmantelamento completo do programa nuclear iraniano. O Irã, por sua vez, mantém que não abrirá mão de suas capacidades de enriquecimento — e que cada novo ataque terá uma resposta proporcional à escala da agressão.
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