O Escritório Federal para a Proteção da Constituição da Alemanha, o BfV, adquiriu e testou com sucesso uma plataforma europeia de análise de dados como alternativa ao controverso software da empresa americana Palantir. A decisão torna o BfV a primeira agência federal de segurança alemã a optar por uma solução europeia no lugar dos produtos da companhia fundada pelo investidor Peter Thiel.
A ferramenta escolhida é o ArgonOS, desenvolvido pela empresa francesa ChapsVision, de propriedade do empresário Olivier Dellenbach. A plataforma utiliza inteligência artificial para cruzar e analisar grandes volumes de dados, além de realizar pesquisas em fontes abertas — técnica conhecida como Open-Source Intelligence (OSINT).
O ArgonOS já é utilizado por diversas agências francesas, incluindo o serviço de contrainteligência DGSI. Segundo apuração do portal alemão Tagesschau, em parceria com as emissoras WDR, NDR e o jornal Süddeutsche Zeitung, o BfV concluiu com êxito a fase de prova de viabilidade técnica do sistema.
A agência confirmou que o software está operacional para uso em áreas como combate ao terrorismo e contraespionagem, dentro de um marco legal estritamente delimitado. No mercado alemão, a ChapsVision atua em parceria com a empresa local Rola Security Solutions para comercializar seus produtos junto às autoridades de segurança.
A decisão insere-se num debate que se arrasta há anos na Alemanha sobre a conveniência de confiar infraestrutura sensível de inteligência a uma empresa americana com conexões políticas explícitas. A Palantir é amplamente criticada por sua associação com Peter Thiel — apoiador declarado do governo Trump e figura que já defendeu publicamente a incompatibilidade entre liberdade e democracia.
Mais recentemente, a empresa acumulou novas críticas por seu papel central na operação do controverso serviço de deportações em massa do governo americano, o ICE. O presidente do BfV, Sinan Selen, havia sinalizado publicamente essa mudança de rumo em dezembro de 2025, durante conferência da própria agência em Berlim.
‘Precisamos ser capazes de oferecer alternativas’, afirmou Selen na ocasião. Ele acrescentou que a escolha de software deveria levar em conta não apenas desempenho técnico, mas também se a aquisição seria ‘geoestrategicamente correta’ — evitando dependências e fortalecendo a soberania europeia.
No plano político, a decisão foi recebida com entusiasmo por parlamentares de diferentes espectros. O porta-voz de política interna do SPD no Bundestag, Sebastian Fiedler, foi categórico ao afirmar que ‘a Palantir não pode de forma alguma ter papel no nível federal’ e que a busca por alternativas europeias ‘já se tornou parte de nossa estratégia nacional de segurança’.
O deputado verde Konstantin von Notz, especialista em política interna, também saudou a escolha do BfV, mas criticou o Ministério Federal do Interior por ainda não ter descartado formalmente o uso da Palantir em outras instâncias. ‘Durante anos, deixou-se de explorar alternativas europeias e alemãs. E elas existem em abundância’, disse von Notz.
O cenário nos estados federados alemães ainda é heterogêneo. As polícias da Baviera e de Hesse já utilizam softwares da Palantir há vários anos para combate ao crime e prevenção de ameaças. A Renânia do Norte-Vestfália está reavaliando o contrato com a empresa — a tendência é prorrogar a parceria por mais um ano enquanto se busca uma alternativa de médio prazo.
A mudança no BfV ocorre em paralelo a uma reforma ampla do direito dos serviços de inteligência alemães, em elaboração nos bastidores do governo. A proposta prevê novas competências para o Escritório Federal, incluindo autorização formal para uso de inteligência artificial e de software de reconhecimento facial, mas a data de envio do projeto ao Bundestag ainda não foi definida.
📨 Inscreva-se na Newsletter de O Cafezinho
Receba nossas análises e as principais notícias diárias do Brasil e do Sul Global.


Carlos Rocha
13/05/2026
Mais um exemplo de protecionismo europeu disfarçado de soberania digital. Gastam bilhões de euros dos contribuintes para reinventar a roda enquanto a iniciativa privada já entrega soluções superiores. No fim das contas, quem paga a conta dessa vaidade estatal é sempre o cidadão.
Mariana Alves
13/05/2026
Caro Carlos, permita-me começar dizendo que seu comentário é um primor de condensação ideológica: em poucas linhas, o senhor mobiliza o léxico completo do fundamentalismo de mercado — “protecionismo europeu”, “vaidade estatal”, “iniciativa privada”, “quem paga a conta é o cidadão” — como se essas fórmulas fossem axiomas auto-evidentes, e não construções históricas que merecem ser rigorosamente interrogadas. O senhor parte do pressuposto de que a iniciativa privada “entrega soluções superiores”, mas superioridade segundo quais critérios? Lucratividade para acionistas? Eficiência algorítmica abstrata? Ou a capacidade de concentrar dados sensíveis de populações inteiras em servidores controlados por uma potência estrangeira cuja legislação — o Patriot Act, o Cloud Act — obriga empresas a entregarem informações ao governo dos Estados Unidos, inclusive aquelas armazenadas em território europeu? O que o senhor chama de “solução superior” é, na verdade, uma arquitetura de dependência e vulnerabilidade estratégica que reduz o Estado a um locatário perpétuo da tecnologia alheia, pagando pedágio digital e renunciando a qualquer pretensão de autodeterminação informacional. Chamar a busca por soberania tecnológica de “reinvenção da roda” é um sofisma descuidado: a roda foi inventada uma vez como princípio mecânico universal; sistemas de análise de dados para espionagem não são artefatos neutros, são instrumentos políticos carregados de intencionalidade, protocolos de acesso e jurisdição. A roda não coleta metadados de cidadãos e os submete a cortes estrangeiras.
O núcleo do seu argumento é uma variante vulgar da tese hayekiana de que o Estado é intrinsecamente perdulário e a esfera privada, intrinsecamente eficiente — uma dicotomia que a história do capitalismo desmente a cada rodada de socialização de prejuízos, subsídios bilionários e parcerias público-privadas em que o erário assume os riscos e o capital embolsa os lucros. O senhor se preocupa com os “bilhões de euros dos contribuintes”, mas curiosamente não menciona os custos sistêmicos de delegar a segurança nacional a corporações cujo dever fiduciário é com seus investidores, não com os cidadãos que vigiam. O caso Snowden, que talvez o senhor considere mero acidente de percurso, demonstrou inequivocamente como a infraestrutura privada de vigilância se torna extensão do aparato de inteligência estadunidense, com empresas como a própria Palantir — fundada com capital de risco da CIA, diga-se — operando como correias de transmissão do poder imperial. A Alemanha, país que já foi vítima de espionagem de sua própria chancelaria por agências atreladas a essa mesma rede, tem motivos históricos e geopolíticos concretos para não terceirizar sua capacidade analítica. Chamar isso de “vaidade” é desprezar a densidade das relações de poder que estruturam o mercado global de dados, tratando a política como um inconveniente que atrapalha os negócios.
Há ainda uma dimensão epistemológica que seu comentário ignora: a crença de que software é uma caixa-preta mágica que “entrega soluções” como quem entrega uma pizza esconde o fato de que algoritmos são cristalizações de decisões humanas, vieses, hierarquias de valor e, no limite, visões de mundo. A dependência de sistemas proprietários estrangeiros para funções críticas de Estado implica aceitar não apenas o código fechado, mas também os pressupostos nele embutidos sobre o que é ameaça, quem é suspeito, como se categorizam populações. Quando um Estado europeu desenvolve tecnologia própria, não está “reinventando a roda”; está disputando os termos em que a realidade social é modelada e interpretada — algo que, para qualquer tradição minimamente democrática, deveria estar sob escrutínio público e controle soberano, não sob a patente de uma empresa listada na bolsa de Nova York. A alternativa que o senhor defende é a subordinação consentida, o comodismo tecnológico que troca autonomia estratégica por conveniência de curto prazo, e o faz sob o pretexto de proteger o “cidadão contribuinte” que, nesse arranjo, paga duplamente: financia a aquisição da ferramenta e arca com a perda de controle sobre seus próprios dados e sobre os meios de protegê-los.
Para encerrar, sugiro que desloquemos o debate do terreno moralista da “vaidade estatal” para o terreno materialista das relações de produção e dominação. O verdadeiro custo para o cidadão não está nos investimentos públicos em capacidade tecnológica autônoma — afinal, o desenvolvimento científico e industrial sempre dependeu de coordenação estatal, da pólvora à internet. O verdadeiro custo está na privatização da segurança, na entrega de funções soberanas a entidades que respondem a lógicas de acumulação e, no limite, na naturalização da condição periférica de quem se contenta em consumir tecnologia alheia enquanto abre mão de compreendê-la e governá-la. Soberania digital não é capricho de burocratas; é condição material para o exercício da autodeterminação democrática em pleno século XXI. Se o senhor considera isso uma “vaidade”, talvez seja porque ainda não se deu conta de que a servidão voluntária também pode ser codificada — e vendida como solução superior.
Marina Silva
13/05/2026
Fala a verdade, Carlos, tu tá defendendo a Palantir de graça ou é só síndrome de vira-lata de achar que software gringo é sempre melhor?