Estudo de Harvard prova que criaturas de 500 milhões de anos já filtravam o oceano como animais modernos

Fósseis marinhos de 500 milhões de anos revelam estratégias de alimentação que ainda moldam os oceanos. (Foto: phys.org)

Há mais de 500 milhões de anos, durante o período Cambriano, criaturas vermiformes e de corpo mole chamadas luolishaniídeos nadavam pelos fundos oceânicos — e um novo estudo da Universidade Harvard confirma, com evidências quantitativas inéditas, que esses animais extintos já praticavam a mesma estratégia de alimentação usada por invertebrados marinhos modernos.

A pesquisa foi publicada na revista científica Biology Letters e conduzida pelos pesquisadores Jared C. Richards e Javier Ortega-Hernández, da Universidade Harvard. O trabalho representa o primeiro exemplo estatisticamente comprovado de padrões modernos de relação entre filtrador e presa em metazoários de corpo mole do Cambriano.

Os luolishaniídeos pertencem a um grupo extinto chamado lobópodos e são parentes distantes dos atuais vermes de veludo, invertebrados que ainda habitam florestas tropicais úmidas. Ao contrário de outros animais da época, esses seres não possuíam partes mineralizadas — sem conchas, sem esqueleto — o que os tornava muito mais difíceis de preservar em fósseis.

A hipótese de que seriam filtradores de água permanecia como uma interpretação qualitativa, baseada apenas na observação visual de suas estruturas. Richards e Ortega-Hernández decidiram testá-la com rigor estatístico, analisando fósseis preservados em diferentes museus e institutos de paleontologia ao redor do mundo.

Os pesquisadores mediram o espaçamento entre as minúsculas estruturas semelhantes a cílios — chamadas sétulas — presentes nos apêndices anteriores dos animais e compararam esse espaçamento com o comprimento total do corpo de cada espécime. O resultado revelou uma relação positiva e estatisticamente significativa: quanto maior o animal, maior o espaçamento entre as estruturas de filtragem, exatamente como ocorre em filtradores modernos.

“Comparações padronizadas indicam que a disparidade de tamanho corporal entre os luolishaniídeos e o mesoplâncton Cambriano é consistente com os padrões observados em organismos de suspensão-alimentação modernos”, escreveram os autores no artigo. Essa correspondência entre criaturas separadas por meio bilhão de anos de evolução é o que torna a descoberta extraordinária.

Segundo o portal Phys.org, os pesquisadores destacam que os luolishaniídeos são os únicos bilaterais epibênticos de corpo mole não mineralizados do Cambriano com modo de vida de suspensão-alimentação documentado. Isso os torna uma janela única para compreender como a ecologia marinha se organizou durante a explosão Cambriana, o maior evento de diversificação da vida animal já registrado na história da Terra.

A explosão Cambriana foi o momento em que praticamente todos os grandes grupos animais modernos surgiram em um intervalo geologicamente curto. Entender como esses primeiros animais se alimentavam e interagiam com o ambiente é fundamental para reconstruir a história evolutiva dos oceanos e das cadeias tróficas que sustentam a vida marinha até hoje.

O novo estudo sugere que estratégias ecológicas sofisticadas, como a filtração de plâncton, não são invenções recentes da evolução — elas já estavam em pleno funcionamento no alvorecer da vida complexa. “Apesar da aparência estranha dos luolishaniídeos, nossos resultados sugerem que suas adaptações e modo de vida apresentam atributos ecológicos compartilhados com invertebrados marinhos modernos”, concluíram Richards e Ortega-Hernández.


Leia também: Fósseis de 540 milhões de anos do Brasil reescrevem a origem dos primeiros animais da Terra


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