Uma das certezas mais consolidadas da paleontologia acaba de ser abalada por pesquisadores brasileiros. Microfósseis encontrados no Mato Grosso do Sul, que durante décadas foram interpretados como rastros deixados por minúsculas criaturas semelhantes a vermes, revelaram-se, na verdade, comunidades fossilizadas de bactérias e algas — algumas com células e material orgânico preservados de forma surpreendente.
O estudo foi publicado na revista científica Gondwana Research e reacende o debate sobre quando os primeiros animais complexos surgiram nos oceanos primitivos da Terra. A pesquisa desafia a hipótese de que a meiofauna — invertebrados minúsculos com menos de um milímetro de comprimento — já habitava os fundos marinhos durante o período Ediacarano, há cerca de 540 milhões de anos, imediatamente antes da chamada Explosão Cambriana.
O pesquisador Bruno Becker-Kerber, primeiro autor do estudo, conduziu a investigação durante seu pós-doutorado no Instituto de Geociências da Universidade de São Paulo (USP) e no Centro Brasileiro de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Atualmente realizando pesquisas na Universidade Harvard, nos Estados Unidos, Becker-Kerber é categórico: ‘Usando técnicas de microtomografia e espectroscopia, observamos que os microfósseis possuem estruturas celulares — às vezes com material orgânico preservado — consistentes com bactérias ou algas que existiram naquele período. Não são rastros de animais que possam ter passado pela área.’
O projeto integra o estudo ‘Cráton do Rio de la Plata e Gondwana Ocidental’, coordenado pelo professor Miguel Angelo Stipp Basei, do IGc-USP, e também coautor do artigo. Lucas Warren, da Universidade Estadual Paulista (IGCE-UNESP) em Rio Claro, figura igualmente entre os coautores e recebeu apoio da FAPESP para a pesquisa.
Os fósseis foram reexaminados a partir de amostras coletadas em Corumbá e de material inédito proveniente de Bonito, na região da Serra da Bodoquena — ambos os sítios localizados no Mato Grosso do Sul, dentro da formação geológica Tamengo. Essas rochas se formaram em um ambiente marinho raso ao longo de uma plataforma continental durante os estágios finais da formação do Gondwana, o supercontinente que mais tarde se fragmentou para dar origem à América do Sul e à África.
Para investigar os fósseis em detalhe inédito, a equipe utilizou a linha de luz MOGNO do acelerador de partículas Sirius, instalado no CNPEM em Campinas. A tecnologia permitiu analisar estruturas que variam de poucos micrômetros a alguns milímetros de tamanho, gerando imagens em escalas de nanômetros — a milionésima parte de um milímetro.
‘Quando se tem uma amostra grande e se quer visualizar uma estrutura em seu interior, a resolução obtida costuma ser insuficiente. A linha MOGNO é uma das poucas no mundo que realiza a chamada tomografia com zoom, na qual focamos algo dentro da amostra e o analisamos na nanoescala sem destruí-la’, explica Becker-Kerber. Ele ressalta que o estudo anterior, que havia interpretado as estruturas como rastros de animais, simplesmente não dispunha desse nível de tecnologia de imageamento.
Além da microtomografia e da nanotomografia, os pesquisadores empregaram a espectroscopia Raman para examinar a composição química dos fósseis. A técnica identificou material orgânico dentro das paredes celulares fossilizadas, reforçando a interpretação de que as estruturas são corpos microbianos preservados — e não marcas deixadas por animais em movimento.
Algumas amostras continham pirita, um mineral composto de ferro e enxofre. Com base nas formas e na química dos espécimes, os pesquisadores acreditam que parte deles pode representar bactérias oxidadoras de enxofre, organismos que utilizam o enxofre em seu metabolismo. ‘Esse grupo de bactérias é surpreendente. Algumas das maiores já registradas pertencem precisamente a essa categoria. Ao contrário da imagem comum que temos de bactérias microscópicas, certas espécies podem atingir diâmetros maiores do que um fio de cabelo e são visíveis a olho nu’, afirma Becker-Kerber.
Os fósseis aparecem em três faixas distintas de tamanho, sugerindo que várias espécies podem ter coexistido em comunidades microbianas. As formas maiores se assemelham a algas verdes ou vermelhas, enquanto os fósseis menores podem representar algas, cianobactérias ou bactérias oxidadoras de enxofre.
‘Há partições côncavas e convexas, filamentos enrolados, células sem sedimento mas contendo matéria orgânica. Essa evidência está muito mais próxima de bactérias ou algas do que de meros rastros de perturbação causados por animais’, conclui o pesquisador. A descoberta, conforme detalhada pelo portal ScienceDaily, fornece aos cientistas um panorama mais nítido do mundo anterior à Explosão Cambriana.
O período Ediacarano antecede justamente esse grande marco evolutivo, quando o aumento dos níveis de oxigênio nos oceanos permitiu que organismos complexos se diversificassem rapidamente. Os registros fósseis confirmam com clareza a existência da meiofauna durante o Cambriano, mas os novos achados indicam que esses organismos provavelmente não estavam presentes no período anterior da forma que alguns cientistas haviam proposto — os oceanos simplesmente ainda não tinham oxigênio suficiente para sustentá-los.
O mesmo grupo já havia identificado anteriormente o que pode ser o fóssil de líquen mais antigo conhecido, também no Mato Grosso do Sul.
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