Os dois terremotos que sacudiram a Venezuela nos últimos dias, com magnitudes de 7,2 e 7,5 na escala Richter, provocaram uma tragédia de proporções ainda não totalmente contabilizadas. O epicentro foi em La Guaira, próxima a Caracas, onde centenas de prédios desabaram. Segundo a jornalista Anya Parampil, ouvida pelo programa Judging Freedom, os números oficiais falam em 600 mortos, mas estimativas independentes apontam até 50 mil desaparecidos, sugerindo que o saldo real pode ser muito maior.
De acordo com Parampil, o drama humanitário foi imediatamente aprofundado por um obstáculo geopolítico: as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, que por anos impediram o governo venezuelano de comprar caminhões, escavadeiras e outros equipamentos pesados essenciais para o resgate. “Esses equipamentos simplesmente não existiam no país. Os primeiros dias, cruciais para salvar vidas sob os escombros, foram perdidos porque não havia como remover o entulho. Só agora começam a chegar veículos de El Salvador, México, Colômbia e Equador”, explicou a jornalista, que questionou quantas pessoas morreram esperando por essa ajuda.
Parampil destacou que o bloqueio financeiro se estende aos ativos venezuelanos congelados no exterior – cerca de 30 bilhões de dólares – e que o alívio pontual oferecido pelo FMI para a reconstrução provavelmente será gerido por interesses privados americanos, citando o polêmico empresário Mauricio Claver-Carone. Enquanto isso, o Comando Sul dos EUA anunciou que liderará a resposta humanitária no terreno, o que a jornalista classificou como “um regime change de facto”, aproveitando-se do colapso temporário da capacidade estatal causado em parte pelas próprias sanções.
A entrevistada lembrou que, desde a deposição e sequestro do presidente Nicolás Maduro em janeiro, os Estados Unidos já haviam realizado ataques militares em solo venezuelano, matando Nino Guerrero, líder do grupo Tren de Aragua. Agora, a crise sísmica serve de pretexto para aumentar a presença militar americana, expandindo uma dinâmica que, segundo Parampil, pode se repetir em outros países da região, como Colômbia e Equador, que já vêm coordenando operações militares com Washington.
Sobre a nova presidente, Delsey Rodríguez, sucessora de Maduro, Parampil a descreveu como uma figura capaz, mas em posição complexa. Ao mesmo tempo em que viaja para a Índia e se encontra com o secretário de Estado Marco Rubio, abrindo a economia para investimentos estrangeiros e negociando com o FMI, Rodríguez mantém as estruturas do chavismo que seguem populares, como o movimento de comunas agrícolas. “A base chavista é independente do governo. Enquanto houver projetos que funcionem, o apoio continua, mas há quem a chame de traidora”, disse Parampil, indicando que a verdadeira prova do respaldo virá com o tempo e as urnas.
Na Colômbia, a eleição presidencial também entrou na discussão. O presidente de esquerda Gustavo Petro alega fraude massiva e interferência de Israel na vitória do desconhecido Abdullah de la Esprilla, candidato endossado por Donald Trump. Parampil afirmou que o fenômeno reflete um padrão regional: “Sempre que a extrema-direita assume na América Latina, o novo líder corre para demonstrar lealdade a Israel, o que é uma aliança financeira e ideológica”. A jornalista acrescentou que, mesmo se houver irregularidades comprovadas, a assunção do novo presidente dificilmente será revertida, repetindo roteiros já vistos em Honduras e Bolívia, onde governos pró-EUA se instalaram sob forte contestação popular.
Ao final da entrevista, Anya Parampil lamentou que a relação entre Washington e Caracas não tenha sido construída de forma cooperativa: “Deveríamos ser aliados, mas isso não poderia acontecer sob a mira de um fuzil. O sequestro do presidente e agora a instrumentalização do terremoto para aumentar a presença militar mostram que o caminho escolhido foi o da imposição”.

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!