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Pequim coloca Taiwan no centro da cúpula entre Xi Jinping e Donald Trump

2 Comentários🗣️🔥 Donald Trump e Xi Jinping em frente à bandeira dos Estados Unidos. (Foto: AFP/Nicolas ASFOURI) A questão de Taiwan emergiu como prioridade absoluta de Pequim na cúpula entre o presidente da China, Xi Jinping, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prevista para acontecer em solo chinês. A agenda do encontro também […]

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Donald Trump e Xi Jinping em frente à bandeira dos Estados Unidos. (Foto: AFP/Nicolas ASFOURI)

A questão de Taiwan emergiu como prioridade absoluta de Pequim na cúpula entre o presidente da China, Xi Jinping, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prevista para acontecer em solo chinês. A agenda do encontro também contempla as tensões envolvendo o Irã, o comércio bilateral e a disputa global por semicondutores, temas que reorganizam o tabuleiro asiático.

A diplomacia chinesa quer extrair de Washington dois compromissos concretos. O governo de Xi Jinping busca o fim das vendas de armamento à ilha e uma oposição pública e explícita à independência de Taipei, apostando que a pressão direta sobre o ocupante da Casa Branca pode fragilizar o apoio histórico dos EUA ao território.

Do lado taiwanês, a postura oficial é de tranquilidade calculada, conforme apurou o correspondente em Taipei do portal RFI. O governo da ilha tem repetido que a relação com Washington permanece sólida e que Trump não pretende permitir uma inversão do status quo em favor de Pequim.

Essa narrativa oficial encontra alguma base material no período recente, marcado por vendas de armamento norte-americano a Taipei e por investimentos relevantes de empresas taiwanesas na indústria de semicondutores dos Estados Unidos. Esses movimentos foram interpretados em Taipei como sinais de engajamento estratégico de Washington com a defesa da ilha frente ao avanço chinês.

Apesar do discurso oficial sereno, autoridades taiwanesas admitem em entrevistas reservadas que a preocupação é real. Há temor concreto, no governo da ilha, de que o presidente norte-americano possa ceder em algum ponto sensível envolvendo Taiwan durante a negociação com Xi Jinping.

As seis garantias americanas em xeque

Se Trump aceitar discutir com o líder chinês as vendas de armas a Taiwan, estará abrindo uma fissura no que se convencionou chamar de ‘seis garantias americanas’, um conjunto de compromissos firmados em 1982 sob a administração de Ronald Reagan. Esse arcabouço estabelece, entre outros pontos, que os Estados Unidos não consultariam Pequim sobre o fornecimento de material militar a Taipei.

O simples gesto de colocar o tema na mesa bilateral com a China já representa, na prática, uma erosão simbólica desse marco. Xi Jinping sabe disso e calibra sua pressão exatamente nesse ponto, buscando deslocar Washington de uma posição que sustenta há mais de quatro décadas.

A ofensiva diplomática para isolar Taipei

Paralelamente ao movimento de cúpula, Pequim intensificou nos últimos meses uma campanha sistemática para isolar Taiwan no tabuleiro internacional. Houve pressões diretas para impedir a visita do presidente taiwanês a Essuatíni, e a chegada do presidente do Paraguai a Taipei foi duramente condenada pelo governo chinês.

Uma cúpula sobre direitos humanos na Zâmbia chegou a ser cancelada de última hora após Pequim pressionar os organizadores, em razão da presença de participantes taiwaneses na programação. Cada um desses episódios é lido como peça de uma estratégia coordenada para apagar progressivamente a presença de Taiwan dos fóruns multilaterais.

O cálculo geopolítico chinês é direto: quanto mais isolada a ilha estiver diplomaticamente, menor será a base internacional de apoio em um eventual cenário de reunificação pela força. A cúpula com Trump é, nesse sentido, mais um movimento dentro de uma engenharia paciente que combina pressão econômica, militar e simbólica para reorganizar a equação asiática a favor de Pequim.

O encontro acontece em um contexto de reconfiguração da ordem global, em que a China consolida posição como polo central do mundo multipolar e dialoga em pé de igualdade com Washington sobre os principais conflitos do planeta. O resultado da conversa entre Xi e Trump deve definir o tom das relações sino-americanas para os próximos anos.


Leia também: Trump quer levar guerra no Irã à mesa de Xi Jinping


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Clotilde Pátria

13/05/2026

Isso é um escárnio! Taiwan será entregue de bandeja ao comunismo chinês nessa reunião, e o Trump finge que não vê. Só Deus para intervir e salvar o mundo livre dessa conspiração globalista. Acordem enquanto é tempo!

    Laura Silva

    13/05/2026

    Clotilde, permita-me deslocar o debate do terreno do pânico metafísico para o chão concreto da história. A sua invocação de Taiwan como vítima iminente de uma “conspiração globalista” — com Trotsky, Gramsci e Soros certamente reunidos em alguma sala escura — é um sintoma clássico do que Ernst Bloch chamava de “consciência antecipadora falsa”: diante de contradições reais que não consegue explicar, a pequena burguesia recua para o mito. E aqui o mito tem nome e sobrenome: a fantasia de que Pequim está “tomando Taiwan de bandeja”. Ora, Taiwan não está sendo entregue a Pequim porque Taiwan já foi, por quase toda a sua história, parte integrante da territorialidade chinesa. O regime do Kuomintang, expulso do continente em 1949, instalou-se na ilha como um enclave derrotado da guerra civil — e foi justamente o imperialismo estadunidense que, a partir da Guerra da Coreia, transformou uma província rebelde num porta-aviões inafundável para conter a Revolução Chinesa. A Sétima Frota não patrulhava o Estreito de Taiwan em nome da democracia; patrulhava em nome da doutrina Truman, que enxergava cada palmo de terra asiática como peça num tabuleiro de contenção anticomunista. Mao, aliás, advertiu em “Sobre a Contradição” (1937) que toda contradição principal gera contradições secundárias — e Taiwan é precisamente isso: uma ferida mal cicatrizada da reação interna chinesa, mantida aberta artificialmente pelo hegemon decaído.

    Segundo ponto: essa retórica do “mundo livre” entregue ao comunismo ignora solenemente quem, de fato, tem entregado povos inteiros ao despojo. Nos últimos quarenta anos, o neoliberalismo — esse filho bastardo do liberalismo clássico com o autoritarismo de mercado — deslocou indústrias inteiras do Ocidente para a Ásia, não por amor ao socialismo, mas porque o capital busca trabalho barato e regulamentação frouxa. Taiwan não é um bastião da liberdade; é um tigre asiático erguido sobre a superexploração da força de trabalho, com sindicatos esvaziados e uma burguesia local perfeitamente integrada às cadeias globais de valor. Quem a está “entregando de bandeja” ao capital não é Xi Jinping: é a lógica mesma do livre-mercado que o Ocidente tanto idolatra. A famosa “ilha Formosa” já foi colônia holandesa, feitoria portuguesa, possessão japonesa — e em cada uma dessas etapas o que se vendia como “proteção” era, na verdade, saque. Repito aqui a tese de Rosa Luxemburgo em “A Acumulação do Capital”: o capitalismo precisa constantemente de territórios não capitalistas para se expandir, e a ilha sempre cumpriu esse papel. Chamar isso de “liberdade” é confundir a bandeira do corsário com a da marinha mercante.

    Por fim, sobre o apelo a Deus como interventor geopolítico, permita-me uma provocação sociológica. Max Weber, em “A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, já demonstrava como certas correntes religiosas sacralizam a atividade econômica dominante — e hoje vemos setores do fundamentalismo cristão sacralizando a agenda imperialista, transformando o Pentágono em braço armado da providência divina. Mas a teologia política não substitui a análise material: Taiwan não precisa de salvação celestial, precisa que a Casa Branca pare de usar seu território como moeda de troca em negociações tarifárias. Trump, esse empresário da política que confunde Estado com empreendimento familiar, não está “fingindo que não vê”; ele está, como qualquer burguês em decadência, tentando barganhar vantagens comerciais num momento de declínio hegemônico. Que Pequim coloque Taiwan no centro da cúpula é, na verdade, um ato de realismo histórico — reconhecer que a reunificação pacífica, sob o princípio de “um país, dois sistemas”, é a única saída que não repete a tragédia das partições coloniais impostas à Coreia ou ao Vietnã. O “escárnio” verdadeiro, Clotilde, não está nessa cúpula: está em acreditar que Wall Street se importa com a democracia de Formosa.


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