Na vasta e enigmática paisagem da Sibéria, há cerca de 60 mil anos, um neandertal se submeteu a um procedimento dentário que ecoa através dos milênios. Esta descoberta, relatada na revista PLOS One, sugere uma sofisticação surpreendente na compreensão e prática de cuidados dentários por parte dos neandertais.
O objeto de estudo é um molar inferior de um neandertal adulto, encontrado em 2016, mas cuja origem do buraco profundo em sua superfície permaneceu um mistério até recentemente. Agora, análises experimentais revelaram que o orifício foi feito por uma ferramenta de pedra, usada para remover tecido dental severamente comprometido.
Tal intervenção demonstra que os neandertais, que habitaram a Terra entre 400 mil e 40 mil anos atrás, possuíam a habilidade cognitiva e motora para identificar e tratar cavidades dentárias dolorosas. John W. Olsen, professor emérito de antropologia da Universidade do Arizona, destacou que a sobrevivência do indivíduo após o tratamento é uma prova contundente da capacidade neandertal de entender a biologia humana e intervir quando necessário.
Embora não se saiba se o tratamento foi autoaplicado ou realizado por outra pessoa, a descoberta sugere que as raízes da medicina invasiva e da cirurgia não são exclusivas do Homo sapiens. Gregorio Oxilia, professor associado de anatomia humana na Universidade Livre do Mediterrâneo, destacou que este achado remodela nossa compreensão sobre a evolução dos cuidados de saúde humanos, ao retroceder a data da prática dentária intencional em aproximadamente 45 mil anos.
Casos de cuidados de saúde entre os neandertais não são inéditos, com evidências de que cuidavam de indivíduos com condições especiais e consumiam plantas medicinais. No entanto, devido à dieta geralmente baixa em carboidratos, as taxas de cáries dentárias eram reduzidas, limitando as evidências de intervenções dentárias entre eles.
Para determinar se o buraco no molar de cerca de 59 mil anos encontrado na caverna Chagyrskaya foi feito por humanos, os pesquisadores analisaram o dente e realizaram experimentos com três dentes humanos modernos. A análise microscópica revelou áreas de desmineralização profunda, indicando cáries severas, e sulcos retos característicos de remoção de detritos dentários.
Marcas de mastigação sobre os sulcos ao redor da cavidade indicam que o indivíduo não apenas sobreviveu à operação, mas viveu por um tempo significativo após o procedimento. Isso permitiu que suas atividades normais de mastigação começassem a apagar as evidências da perfuração original.
Embora não seja possível afirmar categoricamente que o buraco foi feito com uma broca de pedra, as marcas muito localizadas tornam essa conclusão mais provável do que outras explicações possíveis. Marina Lozano Ruiz, bioarqueóloga da Universidade Rovira i Virgili, que não participou do estudo, afirmou que o caso é excepcional por demonstrar uma resposta técnica complexa a uma patologia incomum.
Rebecca Wragg Sykes, arqueóloga da Universidade de Cambridge, sugere que o procedimento provavelmente foi autoaplicado, uma vez que escavar um dente cariado poderia ser realizado sem assistência externa. Contudo, é possível que membros do grupo tenham oferecido suporte emocional durante o doloroso procedimento, como observado em outros primatas que sobrevivem a condições sérias sem ajuda do grupo.
Para mais detalhes sobre esta fascinante descoberta, consulte o artigo completo no Live Science.
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