Por Miguel do Rosário
O artigo “Lula 3: Por que economia não se converte em popularidade”, escrito pelos economistas Laura Carvalho e Guilherme Klein na seção Ilustríssima da Folha, tenta explicar o abismo entre o bom desempenho macroeconômico do governo Lula 3 e a frustração nas pesquisas de popularidade do presidente.
A análise mobiliza fatores conhecidos: a memória inflacionária, os efeitos da “década perdida”, o peso das bets e o endividamento, além da globalização do desejo de consumo via redes sociais. Ainda assim, o ensaio deixa de fora uma dimensão central da vida real do trabalhador brasileiro.
Essa lacuna fica evidente quando a autora cita a vitória do socialista Zohran Mamdani para a prefeitura de Nova York como prova de que o custo de vida corrói governos, independentemente do desemprego baixo. A comparação parece pouco precisa.
Nova York superou o drama estrutural da mobilidade urbana há mais de meio século. O cidadão nova-iorquino conta com um dos maiores e mais capilares sistemas de metrô do mundo, que conecta cada esquina ao resto da metrópole em poucos minutos.
Além disso, a cidade dispõe de transporte marítimo interno e de malha ferroviária que a liga a centros como Washington e Chicago. Tomar as dores de Nova York como régua para a frustração brasileira tende a deixar de lado o maior gargalo da nossa sociedade: a imobilidade.
Falta ao texto, e a boa parte do debate da esquerda institucional, a percepção de que o bem-estar do povo brasileiro não cabe numa planilha. Não é um aumento percentual na renda familiar, nem os comemorados 3% de crescimento do PIB.
Bem-estar é a vida real. Uma renda que cresce 5%, 10% ou até 20% não compensa uma vida diária desperdiçada em transportes coletivos degradantes.
Chama atenção que, num ensaio de milhares de palavras sobre “popularidade” e “economia”, a mobilidade urbana não receba uma única menção. É uma ausência significativa.
Dados recentes mostram que o trabalhador perde, em média, mais de 130 horas por ano apenas parado em congestionamentos nas grandes capitais. O tempo de deslocamento diário varia de uma a duas horas, num transporte público precarizado, inseguro e sem integração, com a velocidade média caindo para meros 21 km/h em metrópoles como São Paulo.
De que adianta um ganho na renda se o trabalhador continua espremido, humilhado e com medo de assaltos por horas a fio todos os dias? Essa dinâmica não justifica votar na extrema-direita, que historicamente ignora o transporte público, mas ajuda a explicar a irritação e o desencanto com a classe política tradicional.
Distanciamento semelhante aparece na forma como o artigo trata o endividamento. Ele é abordado como um dado econômico, sem captar a asfixiante pressão psicológica que esmaga as famílias.
O mesmo vale para a leitura otimista das soluções estatais. Programas como o “Desenrola” muitas vezes se convertem, na prática, em rituais burocráticos exaustivos.
A ciência política ensina que o ser humano aspira à independência. Ser forçado a percorrer um labirinto burocrático para pedir socorro ao governo, e depois sentir uma cobrança política velada, uma expectativa de “gratidão” eleitoral mesmo quando se tem ressalvas à gestão, gera frustração e fere a dignidade individual.
A esquerda que se reconhece nessa análise precisa avançar: programas de alívio, por si só, não resolvem problemas estruturais. O PT foi revolucionário em governos anteriores por melhorar a vida do brasileiro “da porta para dentro”: o churrasquinho, a geladeira, a televisão.
Chegou o momento de fazer política “da porta para fora”. O Brasil não precisa apenas de consumo privado; precisa de políticas universais e investimentos maciços em infraestrutura.
Melhora real no transporte público significa trens modernos, trens de alta velocidade, metrôs, VLTs, calçadas boas para se caminhar, segurança pública e ciclovias de verdade, associadas a grandes projetos de aluguel de bicicletas elétricas de baixo custo.
Vale registrar, também, que a China não aparece no ensaio. Enquanto a esquerda brasileira discute frações percentuais, a revolução chinesa focou na emancipação real através da mobilidade.
Os chineses integraram o país inteiro com a maior malha de trens de alta velocidade do planeta e com sistemas de metrô abrangentes. Compreenderam antes de nós que desenvolvimento não se sustenta sem infraestrutura física e sem a devolução do tempo livre à classe trabalhadora.
Políticas universais têm o poder de não dividir a população por cor, renda ou classe social, atendendo a todos os cidadãos com excelência. Trens de qualidade integram um país historicamente despedaçado e conectam cidades segregadas em zonas que parecem países diferentes, separadas por muros invisíveis de desigualdade.
O “tempo” de vida é a moeda mais valiosa que existe. Enquanto o debate intelectual seguir produzindo teses sobre o “descompasso” da popularidade sem olhar para as horas roubadas do povo nos pontos de ônibus, continuará distante do fato de que devolver tempo e dignidade nas ruas é o maior e mais urgente programa de distribuição de renda de que o Brasil precisa.