“Meu irmão, você tá querendo ser preso? Vai começar aqui? O cara tá fazendo o símbolo do Comando Vermelho ali. Prende ele.”
Ciro Gomes apontou o dedo para um apoiador na plateia e mandou prendê-lo. Estava no meio do discurso de lançamento de sua pré-candidatura ao governo do Ceará, no sábado, 16 de maio, em Fortaleza.
O apoiador estava apenas fazendo um C com a mão, gesto que a campanha de Ciro em 2022 havia tentado viralizar como resposta ao “L” dos eleitores de Lula. Depois de alguns segundos de perplexidade, em que as pessoas sorriam e pareciam acreditar tratar-se de uma espécie de brincadeira, percebeu-se que Ciro estava falando sério.
Então sua própria mulher lhe cochichou algo ao ouvido, depois lhe deu um tapinha nas costas, com olhar do tipo “que isso, meu amor, menos”.
Houve em seguida algumas risadas nervosas no palco. Todos tentaram disfarçar o constrangimento.
Possivelmente para justificar o surto meio louco meio autoritário como excesso de zelo contra o crime, Ciro subiu ainda mais a voz e gritou. “Comando Vermelho, olha isso aqui, vai pra cadeia! Vai pra cadeia!”
O caso seria apenas ridículo se não fosse perigoso, pois a cena poderia ter facilmente descambado para uma agressão física a uma pessoa inocente.
O ex-governador apareceu rodeado pela nata da ultradireita cearense. No palco estavam André Fernandes, deputado federal e presidente do PL no Ceará, e o pai dele, pastor Alcides Fernandes, indicado pelo PL para o Senado na chapa.
Junto deles, Capitão Wagner, do União Brasil, escolhido como o outro candidato a senador, além do vereador ultrarracionário Inspetor Alberto, do PL.
Em 2020, Inspetor Alberto havia sido processado por Ciro, que pedia R$ 50 mil de indenização após ser chamado em vídeos públicos de “drogueiro”, “chorão” e “homem do nariz nervoso”. Em fevereiro deste ano, Ciro retirou os processos. Agora é seu aliado.
O discurso foi agressivo e monotemático, concentrado quase exclusivamente em segurança pública. Aparentemente, Ciro quer se autopromover como o Bukele cearense.
Para não deixar dúvidas sobre seu compromisso com o ideário bolsonarista, declarou que seus dois candidatos ao Senado teriam apenas duas tarefas: endurecer as leis e “colocar um freio nesse lado apodrecido do Supremo Tribunal Federal”.
“Não é mais possível o Brasil ficar calado, amedrontado, diante de tanto abuso que está acontecendo lá.”
Na coletiva de imprensa subsequente ao evento, Ciro foi questionado sobre os áudios em que Flávio Bolsonaro pediu dinheiro ao dono do Banco Master para financiar filme sobre Jair Bolsonaro. A reação de Ciro foi atacar a jornalista que fez a pergunta, insinuando que ela fazia “jogo do PT”.
Na verdade, porém, não se trata de um Ciro muito diferente do de 2022. Só que, na eleição presidencial, ainda tentava disfarçar o namoro com a ultradireita golpista. Hoje desfila a seu lado com orgulhoso, enquanto manda prender seus próprios apoiadores.
Em 2022, embora tentasse se vender como terceira via de centro, ele já havia descambado para uma postura emocional extremamente agressiva, reacionária e antidemocrática, agredindo jornalistas e pessoas comuns que ousassem questioná-lo sobre suas opções.
Por fim, passou a atacar os próprios apoiadores históricos. Acusou Caetano Veloso, que havia anunciado voto em Lula, de ter mudado de posição por interesse financeiro.
Gregório Duvivier, humorista do Porta dos Fundos e hoje um dos apresentadores do podcast Calma Urgente, ao lado de Alessandra Orofino e Bruno Torturra, também foi atacado publicamente, assim como tantos outros artistas que se manifestavam em favor de Lula.
A diferença é que agora Ciro abandonou a fachada de terceira via, de alternativa à polarização, e mergulhou de cabeça no bolsonarismo mais doentio, violento e corrupto.
Quem te viu, quem te vê.
Assista aos dois vídeos abaixo.
😵💫 Bizarro!
Durante o evento de lançamento de sua pré-candidatura, Ciro Gomes atacou violentamente um apoiador seu.
O cidadão fazia um C com mão, repetindo o gesto que a campanha de Ciro em 2022 tentou viralizar, para rebater o Faz o L dos eleitores de Lula.
Ciro entendeu… pic.twitter.com/WYxJQTC69S
— O Cafezinho 🇧🇷 (@ocafezinho) May 19, 2026


Marina Costa
19/05/2026
O sujeito se diz defensor do povo mas trata o cidadão como gado que precisa bater palma obediente. É o que sempre digo: onde não há temor a Deus, sobra soberba humana e vontade de calar o próximo. Como está escrito, o coração do homem sem o freio do Altíssimo é enganoso e desesperadamente corrupto.
Luan Silva
19/05/2026
Ciro mandando prender o cidadão que discorda? A esquerda autoritária não muda nunca. Vai pra Cuba!
Ana Paula Conserva
19/05/2026
Ciro há muito largou a esquerda que dizia representar e agora só repete cacoete de coronel: manda prender quem ousa não bater palma. Engraçado como os que pregam diversidade e tolerância são os primeiros a acionar a força do Estado contra o cidadão. Quem não carrega temor a Deus transforma palanque em trono, e o povo de bem só assiste à decadência moral de quem se acha dono da verdade.
Caio Vieira
19/05/2026
A redução do episódio a uma carência de temor a Deus, cara Ana Paula, ofusca o que realmente está em jogo: a reprodução de uma hegemonia que, como nos ensina um velho aforismo latino — qui totum vult, totum perdit —, ao querer tutelar o gesto do cidadão, perde a legitimidade popular. A verdadeira decadência moral não está na ausência de fé, mas na substituição da soberania popular pelo arbítrio de quem confunde palanque com feudo.
Carlos Henrique Silva
19/05/2026
O espetáculo no palanque cearense é menos sobre um homem que perdeu a compostura e mais sobre a metástase de uma concepção autoritária de poder que atravessa todo o arco político institucional. Quando Ciro Gomes manda prender um cidadão por um gesto, convocando a força do Estado contra o suposto signo de uma facção, ele não apenas reproduz a lógica do inimigo interno que o bolsonarismo aperfeiçoou – ele revela o quanto setores da esquerda eleitoral incorporaram a gramática punitivista como atalho para lidar com o mal-estar social. A adesão instintiva ao aparato repressivo não é um desvio de caráter, mas o sintoma de uma política que abandonou a disputa pela raiz das coisas e se contenta em administrar a miséria com caneta e camburão.
Há uma ironia amarga em ver a militância progressista reagir com escândalo seletivo, denunciando o “autoritarismo de estimação” enquanto normaliza a violência cotidiana que o Estado aplica nos territórios periféricos muito antes de qualquer palanque. O jovem que faz o sinal do Comando Vermelho não é um agente do caos que interrompe a liturgia democrática; ele é a prova viva de que o Estado cearense fracassou em oferecer qualquer horizonte que não fosse a adesão à várzea de uma economia criminalizada. Gramsci nos ajuda a entender: quando a classe dirigente perde a capacidade de direção intelectual e moral, a coerção deixa de ser exceção e vira a substância ordinária do governo. Ciro, ao apelar diretamente à prisão, abdica do papel de intelectual orgânico que dizia encarnar e assume a máscara do xerife de província – aquele mesmo que, no plano federal, sua retórica desenvolvimento sempre disse combater.
Nos comentários aqui embaixo, o que se vê é a repetição da cantilena liberal que equipara toda manifestação de força estatal a uma falha moral do indivíduo, ignorando que a máquina de prender já funciona a pleno vapor contra os corpos indesejados – independentemente de quem sobe ao palanque. Apontar o dedo para o gesto do apoiador e exigir algemas é, no fundo, a confissão de que a política foi substituída pelo gerencialismo da ordem. A esquerda que se candidata a governar o Ceará com esse espírito já perdeu a disputa antes mesmo de começar, porque está disputando para ver quem maneja com mais destreza a mesma chibata que sempre caiu sobre as costas dos mais pobres. O transformismo de que falava o pensador sardo nunca foi tão evidente: o campo progressista assimila os métodos do adversário e os naturaliza, acreditando que a simples troca de sigla no comando redime a brutalidade da engrenagem.
Enquanto isso, o cidadão comum – a quem tantos dizem defender – segue encurralado entre o poder paralelo que lhe oferece proteção e pertencimento e o poder formal que lhe oferece cadeia sem julgamento. Um Estado que não garante escola, renda ou horizonte, mas se apressa em decodificar gestos de mão como crime, já renunciou à sua função civilizatória. A tragédia cearense não é que Ciro Gomes tenha se irritado com um sinal; é que a candidatura dele simbolize a rendição da política à gestão do medo. E para quem estuda as entranhas da desigualdade brasileira, a cena é cristalina: o palanque virou apenas mais um balcão onde se negociam as sobras da soberania popular, enquanto o povo continua preso na plateia – ou no xadrez.
Eduardo Teixeira
19/05/2026
Mais um espetáculo bancado com dinheiro de imposto — o camarada sobe no palanque, arma barraco e ainda quer acionar a máquina do Estado contra um gesto de mão. A prepotência no trato com o cidadão comum só escancara o que esse pessoal pensa de verdade: que a força pública está a serviço do ego deles. Enquanto isso, a gente aqui em Minas ralando pra pagar uma carga tributária absurda e assistindo palco de quem nunca gerou um emprego na vida.
Cíntia Alves
19/05/2026
A cena do palanque é grotesca, mas olha o debate aqui embaixo: cada lado só vê autoritarismo no campo do outro. Até quando vamos aplaudir ou relativizar mandar prender desafeto dependendo do crachá que ele carrega? No fim, quem perde é o cidadão comum, que só assiste ao espetáculo de poder.
Silvia Ramos
19/05/2026
Que tristeza ver um político se achando dono da lei, mandando prender como se fosse juiz. A Bíblia já avisa: “O temor do Senhor é o princípio da sabedoria”, e quem sobe em palanque sem humildade só revela o vazio de uma alma que trocou Deus pelo aplauso fácil. Enquanto isso, as famílias cearenses seguem órfãs de líderes que verdadeiramente se importem com a moral e os valores cristãos.
Mateus Silva
19/05/2026
Silvia, é curioso como, ao buscar refúgio na moral cristã, a crítica à prepotência do palanque acaba naturalizando a verdadeira orfandade que o capital impõe aos corpos das famílias cearenses — aquela que não se cura com humildade pessoal, mas com a superação da desigualdade material que torna o “líder servo” uma contradição viva.
Ricardo Menezes
19/05/2026
Mais um esquerdista mostrando que adora usar a força do Estado contra o cidadão comum. Posam de democratas, mas na primeira oportunidade já querem prender por causa de um sinal de mão. Dinheiro público bancando palanque e exibição de autoridade, enquanto a gente se mata pra pagar a mordomia dessa turma.
Maria Antonia
19/05/2026
Ciro dando ordem de prisão em palanque como se fosse um xerife improvisado. Esse espetáculo autoritário só mostra que político nenhum resiste ao poder de mandar nos outros, e o Estado sempre vira instrumento de vaidade pessoal. Enquanto debatem facção, o dinheiro público financia essa palhaçada.
Laura Silva
19/05/2026
Maria Antonia, seu comentário expõe com precisão a farsa autoritária encenada no palanque, mas eu iria além: esse espetáculo não é um desvio de caráter ou simples vaidade pessoal, é a própria essência da forma política burguesa em seu estágio de decomposição neoliberal. O Estado capitalista, como Marx e Engels já desmascaravam no Manifesto, é o comitê executivo da burguesia, e sua existência depende de criar permanentemente a ilusão de que paira acima das classes, arbitrando conflitos com mão firme. Quando um político como Ciro ergue o dedo e brada ordens de prisão, ele reproduz um script secular: o do caudilho, do homem providencial que a história cearense conhece tão bem desde os coronéis da República Velha até os populistas desenvolvimentistas. É a performance necessária para ocultar que o conteúdo real de sua candidatura é gerir a crise em favor do capital, oferecendo ao povo migalhas simbólicas de ordem enquanto o saqueio continua. Não se engane: o autoritarismo grotesco não é patologia individual, é sintoma de um regime político que já não consegue se legitimar pelo consenso e precisa recorrer cada vez mais à coerção espetacularizada.
A tragédia se aprofunda quando esse xerife improvisado direciona sua truculência não contra os verdadeiros inimigos do povo – o rentismo, o latifúndio, as empreiteiras que sangram o erário –, mas enquanto simultaneamente lambe as botas do bolsonarismo, o projeto mais brutal de destruição dos direitos da classe trabalhadora desde a redemocratização. Aplaudir ou cortejar o governo que desmonta a CLT, entrega a Eletrobras, asfixia o SUS e promove o genocídio sanitário não é apenas traição eleitoral: é a confissão de que sua suposta indignação seletiva serve exclusivamente para administrar as contradições do bloco dominante cearense, que sempre incluiu frações do agronegócio, do capital imobiliário e velhas oligarquias travestidas de modernidade. A ordem que Ciro quer impor no Ceará não é contra a violência do Estado que mata nas periferias ou contra a facção que prospera com a cumplicidade policial; é a ordem dos negócios, que exige mão de obra dócil, terras concentradas e licitações sem sobressaltos. O dedo em riste contra o gesto supostamente faccionado é a cortina de fumaça perfeita para que ninguém repare no outro gesto, o de mãos dadas com os algozes do povo.
Você tem toda razão ao denunciar que o dinheiro público financia essa palhaçada, mas é essencial compreender que não se trata de um acidente ou de um desvirtuamento: é o funcionamento normal da democracia burguesa em um país dependente. As campanhas milionárias, os marqueteiros, os palanques cenográficos são pagos com fundo eleitoral e renúncias fiscais, enquanto faltam verbas para creches e transporte. Esse circo não é um defeito a ser corrigido por líderes mais humildes ou compassivos, como se a política fosse uma questão de aprimoramento moral dos governantes; é a fachada necessária de um sistema que precisa fazer crer que a vontade popular se expressa a cada quatro anos, quando na verdade as decisões fundamentais sobre o orçamento e a propriedade nunca saem da mesa dos verdadeiros donos do poder. A indignação seletiva de Ciro, o moralismo barato contra o gesto alheio, é peça de uma engrenagem que transforma sofrimento social em disputa de egos, enquanto a vida real dos pobres segue precarizada, com ou sem facção.
Por isso, insisto: superar esse espetáculo autoritário exige romper com a ilusão de que a solução está num líder melhor ou num Estado mais bem-comportado. Enquanto debatemos se o símbolo com a mão era facção, os trabalhadores seguiam sem piso salarial digno, como lembrou o João Carvalho; enquanto aplaudimos a humildade cristã, a concentração de terras no Ceará avança, e enquanto a galera do individualismo digital acumula criptomoedas, o capital financeiro drena a riqueza real produzida coletivamente. A única resposta concreta ao autoritarismo não está nas urnas, mas na organização autônoma da classe trabalhadora, na construção de poder popular que não clama por xerifes, mas que toma para si a gestão da produção e da vida, dissolvendo pouco a pouco essa máquina estatal que sempre, inevitavelmente, terminará instrumentalizada pela vaidade dos de cima ou pela truculência dos que os servem.
Carmem Souza
19/05/2026
Atitude autoritária no palanque não combina com quem se apresenta como alternativa democrática. A fé que professo me ensina que o poder sem compaixão é apenas vaidade, e a humildade sempre será mais transformadora que qualquer dedo em riste. Falta ao debate público desse ciclo eleitoral um pouco mais de sobriedade e menos espetáculo.
João Carvalho
19/05/2026
Ciro mandando prender por gesto? Na linha que eu faço todo dia, o CV faz sinal e ninguém prende. Esse povo de palanque adora dar ordem quando a câmera tá filmando, mas na hora de aumentar o piso do rodoviário, cadê? Tudo farinha do mesmo saco, esquerda e direita se abraçando e o trabalhador rodando.
Rodrigo RedPill
19/05/2026
Ciro é a definição de beta tentando pagar de alpha, mandando prender alguém por um gesto de mão. Enquanto esses políticos fazem drama, eu tô acumulando satoshis e vendo meu portfólio crescer. Quem vive de política é tudo uns loser, foco total no meu grind.
Renato Professor
19/05/2026
Enquanto debatem se o gesto era de facção ou não, a economia solidária prova diariamente que a verdadeira superação do autoritarismo vem pela autogestão dos trabalhadores, não pelo dedo em riste de um líder populista. Luiz Augusto fala em “economia de comando” com a mesma propriedade que um terraplanista fala de gravidade: repete jargão sem jamais ter lido um parágrafo de Paul Singer.
João Batista Alves
19/05/2026
Que tristeza ver um palanque político virar palco para apologia de facção criminosa. Ciro já perdeu a bússola moral faz tempo, mas o gesto de exaltação ao Comando Vermelho merece repúdio de qualquer cidadão de bem. Só Jesus Cristo para restaurar a decência nos lares cearenses e devolver o temor a Deus ao coração desse povo tão sofrido.
Julia Andrade
19/05/2026
João Batista, sua fala carrega uma catarse moral que merece ser examinada com lupa. Quando o senhor invoca o espectro da “apologia de facção criminosa” para deslegitimar um gesto político, está operando uma redução que a criminologia crítica já desmontou há décadas: a transformação do crime organizado em um ente metafísico, descolado das relações sociais que o produzem. O Comando Vermelho não é um demônio que brotou do vácuo — ele é filho bastardo da geopolítica do encarceramento em massa, da herança da tortura na ditadura civil-militar dentro dos presídios, do abandono estatal e da racialização da pobreza. Tratar um sinal de mão como ato de fé ao “mal” é confortável justamente porque nos exonera de perguntar quem nutriu esse monstro, que Estado matou 29 no Jacarezinho sem julgamento, que sistema carcerário segue sendo uma escola de facção enquanto as igrejas neopentecostais disputam a alma dos presos a quilo.
O que me inquieta no seu apelo à “decência” e ao “temor a Deus” é a presunção de que a salvação moral vem de fora, de um Cristo despolitizado que nunca sujou as sandálias na Palestina ocupada. Há um colonialismo interno nessa retórica, típico de setores que enxergam o “povo sofrido” cearense como massa carente de tutela espiritual, mas nunca reconhecem a agência política desses mesmos corpos quando eles produzem seus próprios códigos de lealdade e sobrevivência. A esquerda — e aqui faço minha autocrítica como feminista materialista — tem sim dificuldade de lidar com a complexidade moral das facções, ora demonizando-as como lumpemproletariado irrecuperável, ora romantizando-as como vanguarda armada. Mas a saída não é o pânico moral revestido de cruz, que criminaliza até a tentativa de comunicação com territórios onde o Estado só aparece na forma de caveirão. O gesto de Ciro pode ser lido como demagogia barata ou como reconhecimento de um código de rua que não é monopólio do crime, mas se tornou linguagem de resistência em comunidades sitiadas.
Quando o senhor diz que Jesus restaurará a decência nos lares cearenses, eu pergunto: qual decência? A que mantém mulheres negras como empregadas domésticas em regime de semi-escravidão enquanto se reza o terço? A decência dos pastores que demonizam religiões de matriz africana enquanto erguem templos com dinheiro de dízimo de gente miserável? A decência que votou em Bolsonaro, o mesmo que defendeu a tortura e matou por omissão na pandemia? O temor a Deus de que o senhor fala é um dispositivo de docilização dos corpos, como ensinou Foucault, uma ferramenta que tem servido historicamente para fazer o pobre aceitar sua condição como provação divina, em vez de se revoltar contra as estruturas que o esmagam. Não é um Cristo libertador que o senhor evoca, é um síndico celestial do condomínio fechado.
Por fim, quero devolver a provocação: qual a sua indignação, João Batista, diante das milícias de farda que matam meninos negros sem piedade e das igrejas que lavam dinheiro do tráfico em nome do Senhor? Se o seu faro moral fosse realmente guiado pelo Evangelho, ele teria nojo sobretudo dos mercadores do templo que transformaram a fé em uma franquia eleitoral. Mas é mais fácil transformar o gesto de um político em bode expiatório do que admitir que a “decência” dos lares cearenses já foi estuprada muitas vezes — e não pelo Comando Vermelho, mas por um Estado que nunca levou escola onde levou polícia, e por uma elite que usa o nome de Deus para manter tudo exatamente como está.
Luiz Augusto
19/05/2026
Ciro Gomes sempre foi um estatista com pose de intelectual, incapaz de entender que autoritarismo e economia de comando andam de mãos dadas. O episódio só escancara o DNA da esquerda cultural: tolerância seletiva e vontade de calar quem sai do script. Enquanto isso, a máquina pública cearense segue inchada, e o contribuinte, esquecido.
Miriam
19/05/2026
O comentário da Cecília acertou em cheio. O problema nunca foi o gesto, é a seletividade histérica de sempre. Se fosse a polícia invadindo comunidade e matando sem mandado, esses patriotas de copo Stanley estariam aplaudindo. Tudo vira palanque, e as regras claras são as primeiras a morrer.
Cecília Silva
19/05/2026
O cinismo dessa galera de farda e bandeira é de embrulhar o estômago. O mesmo “patriota” que aplaude Ciro mandando prender por um gesto é o que fecha os olhos quando a PM invade o Jacarezinho e executa 29 sem ninguém erguer um dedo. Aqui na favela a gente sabe bem o que significa essa seletividade da lei.
Sgt Bruno 🇧🇷
19/05/2026
Esse Ciro é uma melancia ambulante: se diz de esquerda mas já tá lambendo as botas do nosso lado porque sabe que o povo cansou de papo furado. Selva! Na hora que um patriota faz um gesto, o autoritário já manda prender, típico de comunista que quer calar todo mundo. Lixo na lata, sem mais.
Alexandre Neres
19/05/2026
Miguel, será que o furibundo prófi Castañon se mudou para a bela cidade do sol?