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Paes lidera com folga na Quaest e ajuda Lula, mas há perigos no caminho

78 Comentários🗣️🔥 A nova pesquisa Quaest sobre o Rio de Janeiro é, antes de qualquer leitura partidária, uma boa notícia para o cidadão fluminense. Os números abrem a possibilidade concreta de o estado virar a página de quase uma década de decadência política, moral e administrativa. A prática segue sendo o único critério de verdade. […]

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13.03.2026 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante anúncios de investimentos da BYD no Brasil, no III COMAR. Na foto (da esquerda para a direita): Prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes; CEO da BYD nas Américas, Stella Li; Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, Vice-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavaliere. Rio de Janeiro - RJ. Foto: Ricardo Stuckert / PR

A nova pesquisa Quaest sobre o Rio de Janeiro é, antes de qualquer leitura partidária, uma boa notícia para o cidadão fluminense. Os números abrem a possibilidade concreta de o estado virar a página de quase uma década de decadência política, moral e administrativa.

A prática segue sendo o único critério de verdade. Apenas uma eventual administração Paes poderá demonstrar se a página foi de fato virada, ou se trocamos de fachada sem mexer nas estruturas que apodreceram o estado.

Mas o quadro atual é o melhor que se desenha desde 2018.

Eduardo Paes lidera o primeiro turno com folga em todos os cenários. No cenário principal, o prefeito do Rio aparece com 34% das intenções de voto, contra 9% de Douglas Ruas (PL), candidato bolsonarista, e 8% de Anthony Garotinho.

Sem Garotinho na disputa, Paes sobe para 40% e Ruas marca 10%. Em outro cenário sem candidatos pulverizando o centro, Paes registra 39% e Ruas, 11%.

No segundo turno, a vantagem é avassaladora. Paes aparece com 49% contra apenas 16% de Ruas.

Outros 16% estão indecisos e 19% declaram voto branco, nulo ou abstenção. Em todas as faixas etárias e em ambos os sexos, Paes lidera com folga de pelo menos 25 pontos.

Outro dado especialmente relevante para o campo progressista, para Lula e para o Brasil, é que a euforia assassina que tomou o Rio após a Operação Contenção, no Complexo do Alemão e da Penha, em 28 de outubro de 2025, aparentemente se diluiu. A chacina, que terminou com 121 mortos e foi a operação policial mais letal da história do Brasil, havia catapultado Cláudio Castro a 53% de aprovação no levantamento Quaest realizado logo após a operação.

Seis meses depois, o agora ex-governador, declarado inelegível pelo TSE no caso Ceperj, está com 35% de aprovação e 47% de desaprovação. Voltou à mediocridade administrativa de antes, e nem o sangue derramado bastou para sustentar a popularidade emprestada.

Mais grave para o PL: 53% dos fluminenses afirmam que Castro não merece eleger o sucessor que indicar. E 43% querem mudar totalmente o rumo do governo do estado, contra apenas 17% que defendem a continuidade.

O Rio de Janeiro tem cerca de 13 milhões de eleitores, o terceiro maior colégio eleitoral do país, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais. A capital, sozinha, reúne aproximadamente 5 milhões de eleitores, o segundo maior colégio municipal do Brasil.

Qualquer movimento eleitoral no estado tem peso desproporcional no resultado nacional.

Em 2018, Bolsonaro destroçou Haddad no Rio, com 67,95% contra 32,05% no segundo turno. Em 2022, mesmo derrotado nacionalmente, manteve vantagem de 13 pontos sobre Lula no estado, com 56,53% contra 43,47%.

Mas o quadro carioca melhorou de forma notável. Na capital, onde Haddad havia perdido por 36 pontos em 2018, Lula reduziu a diferença para apenas 5 pontos em 2022.

Foi um avanço de mais de 30 pontos em quatro anos.

O movimento sugere que o pesadelo reacionário que assolou o Rio nas duas últimas eleições presidenciais pode estar se esvaindo. A combinação do desgaste de Castro, da queda do bolsonarismo no eleitorado fluminense e da liderança consolidada de Paes oferece um cenário em que Lula pode finalmente vencer na capital em 2026, e talvez encurtar drasticamente a desvantagem no estado.

A Quaest é especialmente boa para Lula e seus eleitores no Rio. Há possibilidade real de Benedita da Silva se eleger senadora pelo PT, retomando uma cadeira que a esquerda perdeu há anos.

Em cenários sem Castro na disputa, Benedita aparece em primeiro lugar entre os eleitores progressistas e na disputa pela segunda vaga. E os principais nomes do bolsonarismo fluminense estão metidos em problemas graves.

Alexandre Ramagem, candidato do PL na disputa pela prefeitura do Rio em 2024, foi condenado pelo STF a 16 anos de prisão pela trama golpista. Fugiu para os Estados Unidos pela fronteira da Guiana e foi preso pelo ICE em Orlando neste mês (foi solto dias depois, mas sua situação continua instável).

Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj e nome cogitado pelo União Brasil para o governo do estado, foi preso pelo STF e denunciado pela PGR por obstrução de investigação. É acusado de vazar informações da Polícia Federal para o ex-deputado TH Joias, ligado ao Comando Vermelho.

Cláudio Castro renunciou ao governo em 24 de março para tentar uma vaga no Senado e, no dia seguinte, foi declarado inelegível pelo TSE no caso Ceperj.

E Eduardo Bolsonaro segue radicado nos Estados Unidos, articulando sanções e tarifas contra o próprio país para tentar salvar o pai.

O Rio de Janeiro tem um histórico de patriotismo e defesa da soberania nacional que vem de Vargas, passa por Brizola e chega ao próprio Lula em sua melhor fase eleitoral fluminense. A aliança escancarada de Flávio Bolsonaro com Trump e com o governo Netanyahu vai enfrentar resistência considerável no eleitor carioca, que historicamente recusa subordinação a potências estrangeiras.

Paes está se preparando para neutralizar os ataques bolsonaristas. Vai costurar alianças formais e informais com figuras de direita, buscar manter o apoio dos eleitores independentes e de centro e evitar polarização explícita com a base de Flávio.

Mas, quando a campanha esquentar, o principal instrumento de ataque dos bolsonaristas contra Paes será exibir sua aliança com Lula. E aí está a ironia: cada peça de propaganda bolsonarista que mostrar Paes ao lado do presidente vai funcionar, na prática, como propaganda grátis para Lula no estado.

Quanto mais o PL gritar que Paes é aliado de Lula, mais o eleitor que apoia Paes será incentivado a votar em Lula.

Mas há perigos no caminho, e eles aparecem nos próprios dados da Quaest.

A violência é, disparado, a maior preocupação do eleitor fluminense. 58% citam violência como o problema mais grave do estado, contra 13% de saúde e 11% de corrupção.

Entre os eleitores de direita não bolsonarista, o índice chega a 69%. Esse cenário é terreno fértil natural do bolsonarismo, que faz da retórica de mão dura sua bandeira mais audível.

Foi exatamente o que catapultou Castro a 53% de aprovação após a Operação Contenção. A euforia se diluiu, mas o gatilho segue armado.

Basta uma nova chacina, um novo episódio de pânico urbano, e a direita ressurge com fôlego.

Douglas Ruas não pode ser subestimado. Hoje ele aparece com 9% no cenário principal de primeiro turno, número aparentemente modesto.

Mas o detalhe importa: 71% dos eleitores fluminenses sequer conhecem o nome dele, e sua rejeição é de apenas 17%, contra 40% de Paes. Conforme a campanha avançar e o eleitorado bolsonarista consolidar seu candidato oficial, a tendência é Ruas crescer.

Entre eleitores que se autodeclaram bolsonaristas, ele já marca 22% no primeiro turno e 31% no segundo. Entre a direita não bolsonarista, 21% e 33%.

São números que indicam piso, não teto.

Há um dado estrutural que não pode ser ignorado. Quando questionados sobre seu posicionamento político, 35% dos fluminenses se declaram bolsonaristas (16%) ou de direita não bolsonarista (19%).

Lulistas e esquerda não lulista somam 24%. A direita supera a esquerda em onze pontos no estado.

Independentes são 34%, peça-chave da disputa, e a polarização nacional vai puxar boa parte deles para um dos dois lados.

A folga de Paes hoje é real, mas não é estrutural. A vantagem se sustenta sobre uma combinação favorável de fatores conjunturais: desgaste de Castro, candidato bolsonarista ainda pouco conhecido, ausência de polarização explícita.

Quando a campanha esquentar, esses fatores vão se mover, e nem todos a favor.

A pesquisa Quaest é boa para Lula e para Paes, mas não é cheque em branco. O Rio de Janeiro segue sendo um estado conservador na média, com uma preocupação central que joga a favor da direita, um candidato bolsonarista com espaço para crescer e uma elite política nacional do bolsonarismo enraizada no estado.

As campanhas de Paes e de Lula vão precisar ser feitas com a porta da frente trancada.

Subestimar o adversário é o atalho mais curto para a derrota.

Acesse o relatório completo da pesquisa clicando aqui.

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Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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Mariana Oliveira

28/04/2026

Ler essa pesquisa Quaest sobre o Rio de Janeiro me traz uma sensação ambivalente que, confesso, cansa. Sim, é alentador ver que a população fluminense, historicamente castigada por uma gestão pública que oscila entre o desastre e a farsa, parece estar disposta a rejeitar o oba-oba bolsonarista. Mas, como feminista interseccional, não posso ignorar que essa “esperança” tem cor, endereço e, principalmente, gênero. O apoio a Paes, que Lula capitaliza, se dá em um cenário onde as mulheres negras das periferias — as que mais sofrem com a violência policial, a falta de creches e a precarização do trabalho doméstico — continuam sendo as últimas a serem lembradas nas promessas de campanha. A pesquisa pode apontar um caminho, mas a prática, como bem diz o texto, é o único critério de verdade. E a prática do Rio de Janeiro nos últimos anos foi de um racismo institucional que nem a vitória de um candidato alinhado ao centro vai desfazer com um passe de mágica.

É aí que entram os “perigos no caminho” que o título menciona, e que acho que precisamos aprofundar para além da análise eleitoral rasa. Kimberlé Crenshaw, ao cunhar o conceito de interseccionalidade, nos ensina que as opressões não atuam de forma isolada. O perigo não é apenas a volta do bolsonarismo raiz, que já sabemos ser explicitamente misógino e genocida contra a população negra. O perigo maior, para mim, é a normalização de uma centro-direita que se apresenta como “pragmática” e “competente”, mas que, na prática, gerencia a desigualdade em vez de combatê-la. Paes pode ser um gestor melhor que seus antecessores imediatos, mas isso não significa que seu projeto de cidade inclua as trabalhadoras domésticas que pegam três conduções para chegar à Zona Sul, ou as mães solo da Baixada que dependem de um SUS sucateado. Sem uma política pública que olhe para essas sobreposições de vulnerabilidade, a “virada de página” corre o risco de ser apenas a troca de um livro de horror por um de tédio administrativo.

bell hooks, em “Ensinando a Transgredir”, nos lembra que a educação para a liberdade exige que a gente não se contente com o “menos pior”. Aplicando isso à política eleitoral, acho que o perigo é a despolitização disfarçada de gestão. Se a esquerda, representada por Lula, abraça a candidatura de Paes sem uma pauta firme de desmilitarização das polícias, de regularização fundiária para as comunidades e de enfrentamento ao racismo religioso (que só aumenta no estado), ela está trocando a transformação estrutural por uma governabilidade frágil. A pesquisa mostra que o eleitorado está cansado do caos, e isso é legítimo. Mas o cansaço não pode nos levar a um pacto com a mediocridade. Precisamos de uma aliança que não apenas vença as eleições, mas que, ao governar, desmonte as engrenagens que fazem do Rio um dos lugares mais desiguais do planeta. E isso, meus caros, não se resolve com pesquisa de opinião, mas com pressão popular e, sim, com a coragem de nomear o racismo e o machismo que estruturam essa cidade.

No fim das contas, torço para que Paes lidere com folga e que Lula saia fortalecido. Mas torço, com muito mais fé, que as mulheres negras e periféricas que sustentam essa cidade nas costas não sejam, mais uma vez, tratadas como massa de manobra eleitoral. Que a “boa notícia” da pesquisa se traduza em políticas que reconheçam que a segurança pública não pode continuar matando jovens pretos, que a mobilidade urbana não pode continuar sendo um privilégio de quem mora no asfalto, e que o cuidado — com as crianças, os idosos, os doentes — deixe de ser um fardo exclusivo das mulheres. Enquanto isso não for o centro do debate, qualquer liderança, por mais folgada que esteja nas pesquisas, estará apenas administrando a barbárie com um sorriso no rosto.

    Carlos Oliveira

    28/04/2026

    Mariana, tu foi cirúrgica, e é exatamente esse o perigo que a gente vê na rua: o centro “pragmático” gerencia a miséria enquanto a mulher preta da periferia continua se lascando no transporte e no SUS. Se a esquerda apoiar Paes sem cobrar desmilitarização e creche em tempo integral, aí a tal “boa notícia” vira só mais um engodo pra manter a roda girando.

Rick Ancap

28/04/2026

Paes é só mais um socialista disfarçado de moderado, gasta dinheiro público que não é dele e o povo aplaude. Se fosse gestão privada, já tinha falido o Rio inteiro.

    Lurdinha Deus Acima de Todos

    28/04/2026

    Ah, Rick, pelo amor de Deus, se gestão privada fosse boa o Rio já tinha virado um condomínio fechado pros ricos e o povo todo morando debaixo da ponte, viu? 🙏🇧🇷

Beto Engenheiro

28/04/2026

Pesquisa é bom, mas obra é melhor. Cadê o asfaltamento da TransOlímpica até a Zona Oeste? Enquanto não sair edital de licitação, pra mim é só promessa de campanha.

    Lucas Andrade

    28/04/2026

    Beto, sua exigência concreta expõe a miséria do pragmatismo eleitoral: enquanto a máquina de pesquisas fabrica consensos, o asfalto vira fetiche de campanha que esconde a verdadeira obra — a perpetuação da desigualdade espacial na Zona Oeste.

      Ahmed El-Sayed

      28/04/2026

      Lucas, você toca num ponto que muitos preferem ignorar: o asfalto e a pesquisa são a maquiagem de um sistema que troca a justiça social por votos. A verdadeira obra, como bem disse, é a manutenção de uma ordem que isola e empobrece a periferia enquanto promete progresso.

Luciana

28/04/2026

Pois é, tomara que essa vantagem do Paes signifique mesmo menos palhaçada e mais gestão. Mas enquanto os juros do cartão não baixarem e o gás continuar nas alturas, pra mim qualquer político ainda tem que provar muito. O povo precisa é de serviço funcionando, não de briga de poder.

    Cecília Alves

    28/04/2026

    Luciana, concordo que gestão importa mais que briga de poder, mas o problema do gás e dos juros não se resolve com mais Estado — é justamente a interferência e a burocracia que encarecem tudo. Menos imposto e menos regulação dariam ao povo o serviço que cobra.

    João Pereira

    28/04/2026

    Luciana, você tocou no ponto central: gestão concreta sempre vence retórica. Mas enquanto o Paes surfar na onda do antipetismo e não encarar de frente o custo de vida, o voto de confiança fica no aguardo. Serviço funcionando é o mínimo, e o eleitor já cansou de promessa.

Jeferson da Silva

28/04/2026

Pois é, mas o perigo real é achar que só porque o Paes é menos pior que o bolsonarismo a gente já ganhou alguma coisa. Enquanto a prefeitura terceirizar serviço público e tratar trabalhador como custo descartável, não tem pesquisa que salve. Apoio contra a extrema-direita, mas quero ver é acordo coletivo e direitos na mesa.

    Ana Souza

    28/04/2026

    Jeferson, você toca num ponto crucial: apoio tático não é adesão cega. A verdadeira prova de fogo do Paes será se ele transforma essa vantagem eleitoral em avanços concretos para quem vive de salário e transporte público, não só em vitória nas urnas contra o bolsonarismo.

    Marina Costa

    28/04/2026

    Jeferson, você caiu na conversa da esquerda que troca Deus e família por “direitos” que só desorganizam a sociedade. Trabalhador digno não precisa de acordo coletivo para ser valorizado — precisa de honestidade e trabalho duro, como ensina Provérbios 12:11. Enquanto apoiar o erro para vencer o mal, você só troca um ladrão por outro.

Luiz Augusto

28/04/2026

Eduardo Paes é gestor pragmático, não ideólogo de araque. Enquanto a esquerda cultural perde tempo com pauta identitária e a direita raiz insiste em candidatos inviáveis, ele entrega obra e mantém a máquina funcionando. O perigo real não é a oposição, é o PT achar que pode transformar essa vantagem em cheque em branco para o projeto lulista de 2026.

    Lucas Moreira

    28/04/2026

    Concordo plenamente, Luiz. Paes é gestor, não militante de palanque — entrega asfalto enquanto a esquerda briga com pronome neutro e a direita insiste em candidato que perde até pra placa de trânsito. O risco real é o PT achar que a popularidade dele é endosso automático pra reestatizar tudo em 2026, mas aí a conta chega na obra parada.

      Carlos A. Mendes

      28/04/2026

      É exatamente isso, Lucas. A popularidade do Paes é fruto de gestão concreta, não de bandeira ideológica, e o PT faria bem em entender que o eleitor médio quer entrega, não teste de pureza política. Se tentarem transformar o apoio dele em cheque em branco pra aventuras estatizantes, o eleitorado que hoje aplaude vira as costas na mesma velocidade.

        Miriam

        28/04/2026

        Carlos, você tocou no ponto certo: o eleitor médio não quer saber de teste de pureza, quer asfalto, UPA funcionando e obra andando. Se o PT insistir em transformar isso em plebiscito ideológico, vai colher o que plantou — e o Paes, que é bom de cálculo, já deve estar de olho nessa conta.

          Luciana Santos

          28/04/2026

          Miriam, falou tudo. O povão quer solução, não discurso. Se o PT acha que vai ganhar eleição só com militância de Twitter, vai se dar mal — e o Paes, que é raposa velha, já sabe disso.

Sargento Bruno

27/04/2026

O Eduardo Paes pelo menos tem história de gestão, não é esse bando de aventureiro que a esquerda adora empurrar goela abaixo. Mas fique esperto, porque essa turma do Lula adora se pendurar em quem está bem nas pesquisas e depois o estrago aparece. O perigo não é o Paes, é o que vem na carona dele.

Carlos Henrique Silva

27/04/2026

Eduardo Paes é, sem dúvida, um trunfo eleitoral para Lula no Rio de Janeiro, mas é preciso ir além do entusiasmo com os números da Quaest e fazer uma análise de conjuntura mais fria. O que esses dados revelam, na verdade, é o profundo vazio programático da centro-esquerda brasileira. Paes lidera não por um projeto transformador, mas porque representa, para o eleitor médio carioca, a volta de uma normalidade institucional perdida no desgoverno bolsonarista. Isso é um alívio tático, mas não deve ser confundido com uma vitória estratégica. A hegemonia, como Gramsci nos ensinou, não se constrói apenas com gestão eficiente, mas com a capacidade de disputar valores e reorganizar a correlação de forças na sociedade. Paes é um hábil articulador dentro da ordem, não um agente de sua superação.

O perigo real, que o artigo menciona com razão, está na armadilha do personalismo. Paes é um fenômeno político local, um nome forte que carrega a máquina e o pragmatismo carioca, mas que não tem capilaridade para construir uma alternativa nacional ao projeto de extrema-direita. Depender dele para segurar o Rio é um jogo de curto prazo. Enquanto isso, a direita, mesmo desorganizada, mantém seu projeto de poder enraizado nas milícias, nas igrejas neopentecostais e no discurso antipetista. A pesquisa mostra que, sem Lula, Paes teria mais dificuldade, mas também mostra que o lulismo sozinho não derrota o bolsonarismo estrutural. Falta um projeto de esquerda que dialogue com as periferias para além do assistencialismo e da máquina pública.

Outro ponto que me preocupa é a ilusão de que a boa avaliação de Paes se traduzirá automaticamente em votos para Lula em 2026. A pesquisa pode indicar um cenário favorável hoje, mas a conjuntura é líquida. O capital financeiro, que Paes corteja abertamente, não tem compromisso com a pauta social. Se a economia nacional apertar, se a inflação corroer o salário do trabalhador carioca, esse apoio evaporará. A esquerda precisa urgentemente de um projeto de desenvolvimento nacional que não se resuma a alianças com o centrão e a prefeitos fisiológicos. Precisamos de pauta, de formação política e de organização de base, senão estaremos sempre reféns do carisma de meia dúzia de líderes.

Por fim, é bom lembrar que o Rio de Janeiro não é uma ilha. A decadência política e moral do estado é o retrato em miniatura do que o neoliberalismo e a ausência de um Estado forte fazem com um território. Paes pode administrar bem a cidade, mas não vai enfrentar o crime organizado que domina territórios, nem vai quebrar o monopólio das concessões públicas que enriquecem empresários aliados. A esquerda crítica precisa apoiar o que é progressista na gestão Paes, mas sem perder de vista que a verdadeira transformação virá de um movimento que enfrente a raiz da desigualdade, e não apenas administre suas consequências com maestria. A pesquisa é um respiro, mas a luta é longa e exige muito mais do que um prefeito bem avaliado.

José dos Santos

27/04/2026

Pois é, tomara que seja verdade essa virada de página mesmo. Cansado de ver promessa de campanha e depois o Rio continuar na mesma. Mas a gente sabe que até outubro é um Deus nos acuda, e depois da eleição o negócio pode mudar de figura de novo.

João Carlos da Silva

27/04/2026

A liderança de Paes é, de fato, um alívio para quem acompanha a degradação institucional do Rio, mas o perigo maior está na naturalização do “salvador da pátria”. Como diria Gramsci, o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer; se a esquerda se apegar apenas a essa figura, sem construir base popular e projeto de estado, estaremos apenas trocando a máscara do atraso. O antipetismo visceral não sumiu, só está adormecido.

Lucas Pinto

27/04/2026

A pesquisa Quaest que aponta a liderança folgada de Eduardo Paes no Rio de Janeiro é, de fato, um alívio tático para o campo progressista, mas seria um erro tratá-la como uma vitória ideológica. Paes é um quadro do centrão, um gestor pragmático que soube navegar entre o lulismo e o clã Bolsonaro sem nunca se comprometer de fato com nenhum projeto de transformação estrutural. O que vemos é o triunfo da máquina administrativa e do clientelismo bem executado sobre o discurso radicalmente vazio da extrema direita. Para o cidadão fluminense, a “decadência política, moral e administrativa” mencionada no texto não será superada apenas com a troca de nomes no Palácio da Cidade; ela exige o desmonte do modelo de gestão que transformou o Rio num canteiro de obras para a especulação imobiliária e num cemitério de políticas públicas.

O dado que realmente me preocupa é o tal “perigo no caminho” que o artigo apenas sinaliza. Paes, ao mesmo tempo que ajuda Lula a conter a maré bolsonarista no estado, reforça a lógica de que a política se faz com acordos de cúpula, não com mobilização popular. Ele é o exemplo perfeito do que Gramsci chamaria de “hegemonia pelo consenso passivo”: a população aceita a gestão porque ela entrega asfalto e obras visíveis, mas não há construção de uma nova consciência coletiva. O Rio continua sendo um laboratório de desigualdade, onde a Zona Sul brilha enquanto a periferia sangra. A vitória de Paes, se confirmada, pode ser uma cortina de fumaça para a continuidade de um modelo que precariza a saúde, a educação e a segurança pública, enquanto a elite imobiliária fatura.

É preciso lembrar que o bolsonarismo não morreu; ele apenas se reconfigurou. A liderança de Paes pode, paradoxalmente, adormecer a esquerda organizada no estado. Movimentos sociais, sindicatos e coletivos tendem a relaxar a pressão quando um nome “amigo” está no poder, e é aí que o perigo se materializa. Foucault nos ensina que o poder não está apenas no Estado, mas nas micro-relações cotidianas. Se a oposição progressista se contentar em aplaudir a gestão Paes, estará abrindo espaço para que a extrema direita, que hoje está desorganizada, se reconstrua nas franjas do descontentamento que a gestão centrista inevitavelmente gerará.

Portanto, sim, a pesquisa é uma boa notícia no curto prazo, mas o otimismo precisa ser crítico. Apoiar Paes contra o bolsonarismo é uma necessidade tática, mas não pode vir acompanhada de um silêncio cúmplice diante das contradições do seu governo. O verdadeiro teste para o Rio não será eleger Paes, mas sim construir uma força política que, depois dele, seja capaz de disputar hegemonia com um projeto real de transformação, e não apenas de gestão. Até lá, seguimos navegando entre a peste e o cólera, escolhendo o mal menor enquanto a utopia espera na fila.

Renata Oliveira

27/04/2026

Renata, Bahia: Pois é, a pesquisa mostra que a gestão à vista está rendendo frutos, mas a gente sabe que política não é só pesquisa. O perigo, como sempre, é achar que a vitória já está garantida e esquecer de trabalhar pelo que realmente importa: a melhoria da vida do povo. Tomara que o Paes mantenha os pés no chão e não caia na armadilha do “já ganhou”, porque o eleitor está de olho em resultados, não em promessas.

    João Carlos Silva

    27/04/2026

    Renata, você acertou em cheio. O perigo é achar que já ganhou e largar o serviço, mas o povo tá de olho no custo do transporte e na segurança, que é onde o Paes precisa mostrar serviço de verdade.

      Cecília Silva

      27/04/2026

      João, você falou tudo — mas não podemos esquecer que segurança pública na favela nunca foi prioridade de prefeito nenhum, e o custo do transporte pesa mais no bolso de quem acorda 4h da manhã pra pegar três conduções. Enquanto a classe média reclama do preço do Uber, a gente tá vendo o vale-transporte comer metade do salário mínimo.

Sofia García

27/04/2026

gente, Paes nadando de braçada na Quaest e a direita fluminense sem reação… mas esse papo de “perigos no caminho” me soa como aquela ansiedade de quem já viu o filme antes, hein? tomara que não role uma bomba de última hora, pq o Rio merece respirar um pouco depois do caos dos últimos anos.

    Gabriel Teen

    27/04/2026

    Paes tá tão folgado que até a Quaest devia pedir meia-entrada, mas “perigo no caminho” é o nome do próximo filme de terror que a gente vai ter que assistir.

    Renato Professor

    27/04/2026

    Sofia, sua intuição é mais acertada do que parece: o perigo não é uma “bomba de última hora”, mas a velha artimanha da direita de transformar qualquer fato isolado em pânico moral às vésperas da eleição. Enquanto a extrema-direita fluminense não tem projeto nem candidato, aposta no terrorismo eleitoral — e cabe a nós, que entendemos de economia solidária e política real, não cair nessa armadilha.

    Rubens O Pescador

    27/04/2026

    Sofia, a ansiedade é de quem já viu o PT crescer nas pesquisas e a direita soltar uma bomba na véspera da eleição, mas naquele tempo o povo tinha o que botar na mesa, e hoje tá difícil até comprar um pão. O Rio merece sossego, mas o perigo mesmo é a fome voltar a rondar a porta do pobre.

Maura Santos

27/04/2026

Po, mas enquanto a Quaest mostra Paes na frente, a extrema-direda já tá ensaiando o discurso de que “obra pública é cabide de emprego”. Esqueceram rápido do apagão que eles deixaram no Rio, né? Quem viveu sabe: sem gestão, nem luz chega. Bora ver se o debate vai ser sobre entregas ou sobre fake news de novo.

    Maria Clara Lopes

    27/04/2026

    Maura, concordo que a gestão importa mais que o discurso, mas acho perigoso cair na armadilha de só rebater fake news com outra narrativa. O melhor caminho é cobrar dados concretos de ambos os lados e não deixar que a polarização esconda os problemas reais da cidade.

Capitão Tavares 🇧🇷

27/04/2026

Mais uma enganação dessa imprensa vendida. Paes é a continuidade do mesmo sistema que afundou o Rio, e essa pesquisa é claramente manipulada pra tentar dar um ar de normalidade num país que já era. Enquanto o povo brasileiro não acordar e as Forças Armadas não tomarem uma atitude, vamos continuar sendo enganados por esses políticos corruptos e essa mídia mentirosa.

    Clotilde Pátria

    27/04/2026

    Capitão Tavares, o senhor tem toda razão! Essa imprensa é um antro de comunistas disfarçados, querendo nos empurrar goela abaixo que tá tudo normal, enquanto o Brasil vira uma Venezuela. Que Deus ilumine nossos militares pra pôr um fim nessa palhaçada antes que seja tarde!

    Sandra Martins

    27/04/2026

    Capitão, eu entendo sua indignação e sei que o Rio tem mesmo uma história pesada de corrupção. Mas, com todo respeito, acho perigoso a gente achar que a solução está nas Forças Armadas tomando o poder — isso já não deu certo na história e não vai ser agora que vai funcionar. O caminho é a gente fiscalizar, votar com consciência e cobrar, não entregar a chave do país pra mais uma aventura autoritária.

      Fernanda Oliveira

      27/04/2026

      Sandra, você tem razão em desconfiar de aventuras autoritárias — a história realmente nos ensinou isso a duras penas. Mas será que a solução é apenas fiscalizar e votar quando o sistema que deveria nos representar já se mostrou, em grande medida, capturado pelos mesmos interesses que a gente tenta combater? O perigo pode estar em achar que só um lado detém o monopólio da verdade, enquanto o outro lado também precisa provar que é capaz de se autorregular.

Maria Aparecida

27/04/2026

Amém, irmãos! Ver Eduardo Paes liderando é a prova de que o povo carioca tá aprendendo a separar o joio do trigo. Mas fico de olho aberto: se ele começar a fazer acordo com a velha política que explora o pobre, aí a bênção vira maldição. Que Deus nos livre de um governo que só troca de nome mas mantém a mesma elite sugando o suor do trabalhador.

    Marcos Conservador

    27/04/2026

    Amém, Maria Aparecida! Mas não se engane: o perigo não é Paes fazer acordo com a velha política, é a esquerda tentar empurrar a agenda comunista dele, que vai acabar com a família e a propriedade. Fique firme na vigilância, que o joio tem muitos disfarces.

    Augusto Silva

    27/04/2026

    Maria Aparecida, concordo que o joio e o trigo é uma metáfora bíblica boa, mas a real separação se faz com dados: Paes tem 58% das intenções de voto e, na prefeitura, reduziu o déficit orçamentário em R$ 2 bilhões sem aumentar imposto — isso não é acordo com elite, é gestão que paga conta de luz de escola pública. Fique de olho sim, mas não confunda pragmatismo com conchavo, porque o suor do trabalhador carioca merece menos discurso e mais asfalto.

    Zé Trovãozinho

    27/04/2026

    Amém, Maria Aparecida! Mas fique tranquila: Paes é o mesmo que fez o BRT funcionar enquanto a direita só sabia rezar pelo caos. O perigo mesmo é acreditarem que qualquer um que não seja do PT é automaticamente elite.

Dr. Thiago Menezes

27/04/2026

Pesquisa é dado, não torcida. Paes tem entrega concreta (BRT, VLT, reforma do Porto) que aparece nos números — isso é o que deveria importar. O perigo real não é político, é achar que 40% de vantagem permite relaxar na gestão.

    Ana Rodrigues

    27/04/2026

    Concordo, doutor. Quem vive no asfalto vê que BRT e VLT melhoraram, mas o perigo é achar que obra entregue paga manutenção sozinha — buraco e asfalto não esperam pesquisa. Relaxar na gestão é igual pneu careca: uma hora estoura.

    Pedro Neto

    27/04/2026

    Relaxar na gestão? Com esse monte de obra inacabada, o perigo é ele achar que já ganhou e esquecer que o povo ainda tá esperando o trem chegar na estação.

      Mariana Alves

      27/04/2026

      Pedro Neto, sua observação toca num ponto nevrálgico da política brasileira que a teoria política clássica, de Maquiavel a Gramsci, já identificava: a tensão entre a conquista do poder e o exercício da hegemonia. Paes liderar com folga na Quaest não é, em si, um problema — é um sintoma de que a máquina eleitoral do centro político ainda funciona. O perigo real, como você bem aponta, não está na liderança momentânea, mas na armadilha do “já ganhou”, que transforma gestão em mera administração do legado. As obras inacabadas que você menciona não são apenas falhas técnicas; são a materialização de uma promessa não cumprida, um déficit de legitimidade que, mais cedo ou mais tarde, cobra seu preço nas urnas ou nas ruas.

      É preciso lembrar que, para a esquerda marxista, a “gestão” não é um fim em si mesma, mas um campo de disputa de classes. Quando Paes ou qualquer outro gestor do centro se apoia apenas na popularidade herdada de Lula, sem enfrentar as contradições estruturais — como a especulação imobiliária que atrasa o trem, a precarização do serviço público que deixa a obra parada —, ele está, na verdade, reproduzindo a lógica neoliberal que fragmenta a cidade em ilhas de privilégio e arquipélagos de abandono. O “trem chegar na estação” não é só metáfora; é a promessa de mobilidade urbana como direito, e não como mercadoria. Se a gestão relaxa, é porque o projeto político se contenta com o consenso passivo, sem construir a hegemonia ativa que transforma a vida concreta.

      Portanto, concordo com seu alerta: achar que a vitória está garantida é o primeiro passo para a derrota. Mas discordo da ideia implícita de que o problema é apenas individual, de “relaxamento” do gestor. O perigo é sistêmico: enquanto a política for refém do financiamento empresarial e da lógica eleitoral de curto prazo, as obras inacabadas serão a regra, não a exceção. O povo que espera o trem não é apenas um eleitorado; é a classe trabalhadora que financia com impostos e suor cada estação prometida. Se Paes quiser realmente ajudar Lula — e a mim parece que essa ajuda é tática, não estratégica —, terá de mostrar que a obra não é apenas concreto, mas compromisso de classe. Do contrário, a liderança folgada de hoje será o abismo de amanhã.

Tadeu

27/04/2026

Pesquisa é bonita, mas minha dúvida é: como é que esse favoritismo todo vai se traduzir em conta de luz mais barata e emprego pra quem tá desempregado? Enquanto não baixar o IPCA e a Selic não cair de vez, político popular não enche meu prato.

    Padre Antônio Rocha

    27/04/2026

    Meu caro Tadeu, você toca num ponto essencial: a verdadeira prosperidade não vem de pesquisas de opinião, mas do trabalho honesto e da família estruturada. Enquanto o governo gastar com ideologias e esquecer de valorizar o empreendedorismo e a energia limpa e acessível, o prato do trabalhador continuará vazio. Reze e cobre, mas não se iluda com promessas que ignoram a moral e a ordem natural das coisas.

    Carmem Souza

    27/04/2026

    Tadeu, você tocou num ponto que me faz pensar: popularidade nas urnas não é garantia de pão na mesa, e a fé em político nenhum substitui a oração por gestão pública que realmente gere emprego e controle de preços. Mas, com todo respeito, se a gente esperar a Selic cair de vez para confiar em alguém, vamos passar a vida desconfiando — o importante é cobrar com firmeza, sem endeusar nem demonizar ninguém.

Carlos Mendes

27/04/2026

Finalmente uma boa notícia para quem paga imposto no Rio. Paes pode até não ser o ideal, mas comparado com o que tivemos nos últimos anos, é um alívio. Só espero que essa liderança não vire desculpa para aumentar a máquina pública ou criar mais taxas. Produtividade e menos burocracia, é só isso que a gente precisa.

    Paulo Ribeiro

    27/04/2026

    Caro Carlos, seu comentário toca num ponto que merece uma reflexão mais detida, sobretudo porque a noção de “pagar imposto” e “produtividade” costuma ser mobilizada de forma acrítica no debate público, como se fossem categorias naturais e não construções históricas e políticas. Concordo que Eduardo Paes representa, na conjuntura atual, um alívio diante do desastre bolsonarista que assolou o Rio — e isso não é pouca coisa. Mas é preciso cuidado para não transformar essa liderança numa espécie de aval para o receituário neoliberal que, sob o discurso da “eficiência” e da “menos burocracia”, apenas aprofunda a precarização dos serviços públicos e a concentração de renda. O problema não é a máquina pública em si, mas a quem ela serve e como é financiada. Gramsci já nos alertava que o Estado não é um ente abstrato, mas a expressão das relações de força entre classes. Se a máquina pública for enxugada sob o pretexto de produtividade, quem perde são os trabalhadores e as camadas populares que dependem do SUS, da escola pública e do transporte subsidiado.

    Você diz que “produtividade e menos burocracia é só isso que a gente precisa”. Ora, essa frase poderia ter sido dita por um tecnocrata do Banco Mundial ou por um consultor da FIESP, mas ela esconde uma escolha política fundamental: produtividade para quem e para quê? No capitalismo periférico brasileiro, o aumento de produtividade quase sempre vem acompanhado de superexploração da força de trabalho, terceirização e desmonte de direitos. Menos burocracia, na prática, significa menos controle social sobre o capital, menos licenciamento ambiental, menos fiscalização trabalhista. Não por acaso, os países com maior produtividade e menor burocracia — segundo os rankings que você provavelmente admira — são também aqueles com maior desigualdade e menor proteção social, como os Estados Unidos. Já os países nórdicos, que combinam alta produtividade com baixa desigualdade, têm máquinas públicas robustas e impostos elevados. A questão, portanto, não é o tamanho do Estado, mas sua natureza: um Estado a serviço do capital ou um Estado que garanta direitos universais.

    Por fim, Carlos, permita-me provocá-lo com uma pergunta incômoda: quando você diz que “quem paga imposto no Rio” merece uma boa notícia, quem exatamente está incluído nessa categoria? O trabalhador informal que paga ICMS embutido no preço do pão e do leite? O microempreendedor que sangra com a burocracia tributária? Ou o grande empresário que sonega bilhões e ainda reclama da carga? A verdade é que o sistema tributário brasileiro é regressivo: os pobres pagam proporcionalmente mais impostos indiretos do que os ricos. Se Paes realmente quiser ajudar quem paga imposto, deveria defender uma reforma tributária progressiva, taxar grandes fortunas e heranças, e usar a máquina pública para redistribuir renda, não para encolher. Menos burocracia para o capital financeiro e mais transparência e participação popular — eis o caminho que Mariátegui chamaria de “socialismo indo-americano”, adaptado à nossa realidade. Não se iluda com o canto da sereia da produtividade sem justiça social.

    Ricardo Almeida

    27/04/2026

    Carlos, concordo que Paes representa um alívio em comparação ao desastre administrativo recente, mas cuidado com esse discurso de produtividade mágica: corte de burocracia sem regulação costuma virar só transferência de custo pro trabalhador. O que a gente precisa mesmo é de gestão pública eficiente, não de narrativa de mercado barata.

Maria Antonia

27/04/2026

Pois é, mas esse apoio do Lula pode virar uma faca de dois gumes se o Paes começar a dançar conforme a música do PT. O Rio precisa de menos cabide de emprego e mais gestão eficiente, e o histórico do Eduardo Paes com a máquina pública não é nenhum primor de liberalismo. Vamos ver se ele vai ter coragem de cortar privilégios ou se vai só manter o status quo com um sorriso no rosto.

    Clarice Historiadora

    27/04/2026

    Maria Antonia, seu comentário é tão raso que até o Olavo de Carvalho teria vergonha. O Paes não precisa de “liberalismo” de buteco pra governar o Rio; precisa de gestão pública que não trate a cidade como balcão de negócios. Se você acha que cortar privilégios é sinônimo de sucatear serviço público, sugiro ler a bibliografia básica de sociologia urbana antes de palpitar.

Cláudio Ribeiro

27/04/2026

A pesquisa é alvissareira, mas é preciso lembrar que a hegemonia eleitoral de Paes não se traduz automaticamente em hegemonia política. O perigo, como Gramsci nos ensina, é transformar uma vitória tática (a eleição) em uma estratégia de transformação real sem enfrentar os aparelhos privados de hegemonia que dominam o Rio — as milícias, o setor imobiliário predatório e a máquina clientelista. Se Paes não usar esse capital político para romper com a velha política, será apenas a modernização conservadora de sempre.

    Ricardo Menezes

    27/04/2026

    Cláudio, Gramsci é ótimo pra encher boca em mesa de bar de Ipanema, mas na vida real o Paes tem que governar com orçamento murcho e um estado quebrado pela máquina que você mesmo descreve. Se ele tentar “romper” com a milícia e o setor imobiliário sem base de apoio, vira alvo e não muda nada — aí sim a modernização conservadora vence de lavada.

      Marcos Andrade Niterói

      27/04/2026

      Ricardo, você tem razão no diagnóstico do orçamento murcho, mas subestima a força de uma gestão que já entregou o túnel Charitas-Cafubá e segurou o metrô sob a baía contra o descaso estadual. Romper com milícia e setor imobiliário não é utopia de bar — é a única saída pra modernização não virar conservadora de vez.

Cíntia Alves

27/04/2026

Oxe, Paes líder com folga e ainda ajudando Lula? Tá parecendo aqueles episódios de novela que tudo dá certo antes do plot twist chegar derrubando geral. Eu, hein, vou comemorar não, que político no Rio e pesquisa Quaest é tipo previsão do tempo em Recife: muda num piscar de olhos. Tomara que dê bom, mas meu pé atrás tá mais firme que wetrigo no calçadão.

    Adriana Silva

    27/04/2026

    Faz o L agora e vai pra Cuba, porque toda pesquisa Quaest que favorece o Lula é armação comunista pra enganar trouxa.

      Marcus Almeida

      27/04/2026

      Adriana, quando a mentira é repetida à exaustão, muitos se deixam enganar, como já alertava Provérbios 14.15. Mas o povo de Deus não se curva a pesquisas compradas com dinheiro público; sabe que o verdadeiro juízo vem do Alto, não do Datafolha ou da Quaest.

      Diego Fernández

      27/04/2026

      Adriana, esse pânico com Cuba é só mais um produto importado dos manuais neoliberais que endeusam o modelo europeu enquanto afundam a América Latina em dívida externa. Repetir que pesquisa é armação sem mostrar um único dado errado é a verdadeira enganação pra manter o povão de joelhos.

Ana Karine Xavante

27/04/2026

Ler que uma pesquisa eleitoral é uma “boa notícia para o cidadão fluminense” a partir da lógica de virar a página da decadência política soa quase como um alívio programado. Mas a pergunta que me faz latejar a memória ancestral é: qual cidadão? Sob qual território? A cidade do Rio de Janeiro, assim como a maior parte das metrópoles brasileiras, foi parida pelo colonialismo e pela expulsão contínua dos povos originários, dos quilombos, dos corpos periféricos. Então, quando leio que Paes lidera com folga e que isso “ajuda Lula”, sinto o cheiro antigo da política que reduz o bem viver a uma coalizão de gabinetes, sem jamais descer ao chão onde a vida realmente pulsa — ou é sufocada. O que está em jogo não é apenas a decadência moral de uma classe política; é a falência de um modelo de cidade que insiste em ignorar que a crise climática e o racismo ambiental são, também, uma crise de representação. Não há pesquisa que meça o desespero de quem perde sua casa com as enchentes na Zona Norte ou a fome que avança nas favelas enquanto o orçamento público segue blindado para grandes eventos e contratos de utilidade duvidosa.

O chamado “perigo no caminho” que a manchete insinua merece ser lido com lentes indígenas. Para nós, o perigo não é um tropeço eleitoral ou uma oscilação de popularidade: é a continuidade de um projeto branco e elitista de cidade, que trata a natureza como obstáculo e os territórios sagrados como vazio a ser loteado. O Rio, com suas montanhas e suas águas, é território ancestral de povos que resistem até hoje, dos tupinambás aos puris, mas a agenda política segue obcecada pelo asfalto e pela especulação imobiliária. Enquanto isso, as queimadas que engolem o país e a violência lenta do desmonte ambiental nem sequer arranham o noticiário eleitoral. Se Paes lidera com folga, eu pergunto: que política de habitação verdadeiramente popular ele vai garantir? Como vai proteger as áreas de manguezal e os maciços das ocupações predatórias que multiplicam desastres? O silêncio é ensurdecedor e revela que, mais uma vez, a esquerda que se diz progressista está disposta a negociar a vida em troca de governabilidade, sem tensionar a raiz colonial da devastação.

Ajudar Lula, nesse contexto, precisa ser muito mais do que um cálculo de palanque. A história nos cobra uma virada civilizatória, não uma vitória de pesquisa. E eu, como mulher indígena, observo com desconfiança qualquer liderança que ostente larga vantagem sem jamais se comprometer com a demarcação urgente das terras indígenas urbanas, com o resgate da memória biocultural da cidade, com o enfrentamento direto ao eletro-racismo que mata de calor e de apagão as populações pretas e faveladas. O colonialismo estrutural que fundou o Rio de Janeiro não se desfaz com popularidade; ele se recicla em forma de promessas de modernização que deixam os mesmos corpos no alvo do descarte. Se a pesquisa destaca um suposto fim de uma década de decadência, eu só enxergo a reposição da mesma branquitude conciliatória, que trata o rural e o urbano como mundos separados e ignora que a flecha do desmatamento na Amazônia atinge em cheio o microclima carioca, assim como atinge a saúde das crianças do Complexo do Alemão.

O verdadeiro perigo, portanto, não está nas curvas dos gráficos, mas na ausência radical de uma ecologia política que ouse reconhecer que a cidade é também terra indígena. Enquanto a agenda hegemônica continuar a chamar de “progresso” a remoção brutal de comunidades, a entrega do saneamento básico a empresas que lucram com a sede e a ausência de projetos de agroecologia periférica, a decadência moral estará garantida por mais um mandato, independentemente do nome no poder. A pesquisa Quaest mede popularidade em um vácuo ético e espiritual. Não mede o choro da mãe que perdeu o filho na enxurrada da Rocinha, não mede a força do mutirão comunitário que planta jardim filtrante na Maré, não mede o axé das rezadeiras que seguram o céu para que ele não desabe. São essas potências, sempre negligenciadas, que poderiam realmente virar a página. O resto é ilusão de ótica para manter intacta a estrutura de poder que nos sufoca há mais de quinhentos anos.

    João Carlos da Silva

    27/04/2026

    Ana Karine, sua análise evoca com precisão o que Gramsci descreveria como a manutenção da hegemonia pelo consentimento ativo de uma sociedade civil que se fragmenta em cálculos eleitorais, enquanto os aparelhos privados de hegemonia seguem blindando o orçamento público contra os corpos periféricos. O “alívio programado” da pesquisa é a face mais branda da colonialidade do poder que você denuncia, onde a esquerda conciliatória troca a virada civilizatória pela governabilidade sem jamais tensionar o pacto da branquitude que funda a cidade. As potências que você nomeia — o mutirão da Maré, as rezadeiras, o plantio filtrante — são exatamente o que Freire chamaria de inédito viável: latentes, mas sistematicamente bloqueadas por uma racionalidade que insiste em confundir gestão com justiça e popularidade com legitimidade.

      Mariana Lopes

      27/04/2026

      João Carlos, seu diagnóstico é sofisticado, mas me preocupa que essa leitura totalizante transforme qualquer vitória parcial em derrota moral. Na urgência concreta de quem vive nas pontas, a governabilidade que você condena pode ser a única trava possível contra o abandono — e talvez as rezadeiras e o mutirão precisem mais de aliados dentro do orçamento do que de uma crítica que paralisa enquanto espera a virada civilizatória.

Mariana Costa

27/04/2026

A pesquisa da Quaest acende um alerta: a liderança do Paes é fato, mas os tais perigos no caminho não podem ser ignorados. Sem um debate sério sobre os problemas reais do Rio, o otimismo vira discurso vazio. É preciso parar de tratar pesquisa como troféu e encará-la como termômetro do que ainda precisa ser feito.

    João da Silva

    27/04/2026

    Concordo demais, Mariana. A gente que tá na rua todo dia sabe que pesquisa é só um retrato, não resolve buraco nem fila de hospital. O que adianta liderar se os problemas continuam os mesmos?

    Paula Santos

    27/04/2026

    Concordo, Mariana. A Bíblia ensina que a soberba precede a queda; pesquisas não são troféus, mas termômetros que pedem humildade e trabalho. Cuidar do povo é mandamento divino, não estratégia eleitoral.

      Carlos Henrique Silva

      27/04/2026

      Paula, seu comentário tem uma densidade que me agrada, porque recusa a superfície. Concordo que a soberba antecede a queda, mas a política não é só moral: é estrutural. Quando você diz que cuidar do povo é mandamento divino, eu traduzo para a minha língua de materialista: é imperativo de classe. A pesquisa Quaest não é troféu, mas também não é neutra — é um recorte de correlação de forças, como diria Gramsci, e o perigo está em confundir a hegemonia eleitoral com a construção de um bloco histórico que realmente dispute o senso comum da sociedade. A queda vem quando um projeto se distancia da base que diz representar, quando a governabilidade vira fim em si mesma e se abandona o trabalho molecular junto aos subalternizados. Não é a mão de Deus que derruba o soberbo: é a ruptura entre discurso e vida material, entre o candidato e a dor concreta de quem toma chuva na periferia.

      Sua metáfora do termômetro é precisa, e é aí que quero fincar a estaca da divergência. O termômetro mede temperatura, mas quem controla o termostato? A classe que controla os meios de produção, a mídia, os aparelhos privados de hegemonia. Se o campo progressista se limita a ler pesquisas e ajustar estratégias eleitorais, sem disputar o chão da fábrica, do território, da igreja, das redes de solidariedade comunitária, então o “cuidado com o povo” vira assistencialismo despolitizador. Nós precisamos de humildade sim, mas não aquela que se ajoelha: a que se enraíza. A liderança de Paes pode ajudar Lula agora, mas a pergunta que não quer calar é: ajuda a organizar a classe trabalhadora ou apenas administra a crise de legitimidade de um projeto que perdeu a radicalidade?

      Dizer que cuidar do povo não é estratégia eleitoral é um ponto de beleza teológica que a esquerda crítica precisa ouvir com seriedade. Só que eu vou além: cuidar do povo, no verdadeiro sentido, é disputar o poder para transformar a estrutura que produz a miséria. Não se trata de caridade humilde, mas de luta de classes feita com ternura e firmeza. O mandamento divino, para mim, se materializa em política de habitação, em tributação progressiva que enfrente os ricos, em regulação do trabalho de plataforma que devolve dignidade ao precariado. Ora, uma gestão que não toca nos privilégios da Zona Sul para mexer na desigualdade da Zona Norte está sendo estratégia eleitoral disfarçada de prece. O perigo no caminho é a moderação que se torna modorrenta, a vitória que vira derrota porque não ousou ser transformadora.

      Por isso eu digo: humildade, sim, mas não submissão às regras do jogo. A pesquisa é um instantâneo da luta de classes num dado momento, e deve ser lida com aquela dialética que Marx ensinou: tudo que é sólido se desmancha no ar. A liderança folgada é oportunidade para tensionar, não para acomodar. Que o trabalho cuide do povo não como rebanho, mas como sujeito histórico que precisa se reconhecer enquanto força política capaz de exigir, e não só de receber. O termômetro sobe e desce; a fidelidade à base é o único aquecedor que não falha no inverno do neoliberalismo. Que a queda, se vier, seja por ousadia, não por se ter esquecido de que o poder não emana das pesquisas, mas das ruas que a Bíblia, o marxismo e a vida ensinam a escutar.

        José dos Santos

        27/04/2026

        Carlos Henrique, tua fala é cheia de teoria bonita, mas aqui no volante o que controla o termostato é o litro da gasolina a 6 conto e o asfalto esburacado. Essa história de classe e estrutura é muito chique, mas o povo na periferia só quer saber se o ônibus passa e se o prefeito vai lembrar que a gente existe depois da eleição. Cuidar do povo pra mim é menos discurso de Gramsci e mais ação que segure a inflação e dê estabilidade pra quem rala 12 horas por dia.

Roberto Lima

27/04/2026

Mais um resultado de pesquisa pra agradar os intelectuais de gabinete. Quem produz de verdade sabe que se aliar ao Lula e à turma do estado inchado é manter o Rio no mesmo buraco. Decadência moral e administrativa não se resolve com conchavo político, se resolve com menos governo e mais trabalho.

    Eduardo C.

    27/04/2026

    Interessante a tese, Roberto. Quais foram mesmo os números do PIB e da geração de empregos no estado nos períodos em que essa turma do ‘menos governo’ esteve à frente, para eu comparar com os números atuais?

    Celio Fazendeiro

    27/04/2026

    Concordo que estado inchado só atrapalha, mas esse papo de “mais trabalho” não cola quando o agro é sufocado com reserva, fiscalização e terra de índio. Enquanto não passar a motosserra nessas frescuras e acabar com essa palhaçada de direito ambiental, o país não deslancha.

Márcio Torres

27/04/2026

A euforia em torno de números de pesquisa sempre me parece um fascinante objeto de estudo sobre a psique coletiva. Celebra-se a liderança de Paes como quem anuncia o fim de uma era de trevas, como se o eletrodoméstico defeituoso da gestão pública fluminense fosse magicamente consertado pela troca de um rosto na vitrine. Enquanto ateu, aprendi a desconfiar de profetas e de narrativas redentoras. A ideia de que um indivíduo, por mais competente que aparente ser, irá “virar a página” de uma década de decadência administrativa ignora que as estruturas de incentivo que apodreceram o estado seguem intactas. A máquina pública não é um ente moral que responde a exorcismos eleitorais; é um sistema de distribuição de recursos que obedece a lógicas próprias, frequentemente blindadas contra a vontade do chefe do executivo.

A ressalva de que “há perigos no caminho” é o típico hedge retórico que permite ao analista parecer ponderado sem se comprometer com o diagnóstico real. O perigo não é apenas um tropeço tático na campanha de Paes, mas a perpetuação de um modelo mental que personaliza a gestão. Lula, figurando no título como alguém que precisa de “ajuda”, representa justamente essa lógica: a política reduzida a uma rede de favores e prestígios pessoais entre caciques, em vez de um embate sobre desenhos institucionais. Tratar a política como um tabuleiro de xadrez messiânico, onde o rei federal precisa de um bispo municipal para proteger seu reinado, é a antítese do republicanismo impessoal que deveria pautar a administração. O cidadão fluminense, se racional, deveria estar mais preocupado com os mecanismos de controle do orçamento e da burocracia do que com a foto do vencedor ao lado do presidente da república.

Há uma ironia sutil no uso da frase “a prática segue sendo o único critério de verdade”. A frase, de clara inspiração marxista ou pragmatista, é usada para justificar um voto pragmático em quem já governou. Mas que verdade a prática anterior de Paes revelou? O legado de sua última gestão incluiu, para além do viés positivo do urbanismo de choque, um aprofundamento de relações promíscuas entre o setor público e privado que raramente são escrutinadas com o devido rigor por institutos de pesquisa. A Quaest mede intenção de voto, não mede a permeabilidade do gabinete do prefeito a lobbies, nem a resiliência dos contratos emergenciais. O verdadeiro cético se pergunta se a população não está trocando a decadência moral escancarada de um grupo por uma decadência moral mais sofisticada e polida, que entrega serviços na ponta enquanto consolida feudos menos visíveis na retaguarda.

A noção de que a eleição de Paes “ajuda Lula” revela outra camada de irracionalidade estratégica. Se o objetivo do eleitor racional é estabilidade e competência, vincular o destino da cidade ou do estado ao humor de uma correlação de forças em Brasília é uma aposta de altíssimo risco. Isso transforma a administração local em refém de crises nacionais, de crises de popularidade presidencial e de chantagens político-orçamentárias. Essa interdependência é vendida como governabilidade, mas na prática funciona como uma armadilha: o governante local deixa de ser o gestor da crise hídrica ou da mobilidade e se torna um síndico que precisa agradar o condomínio federal para não ficar inadimplente. É um convite à infantilização política.

Portanto, a pesquisa pode até trazer alívio para quem vê a política como uma novela de mocinhos e bandidos, mas para o observador cético ela apenas sinaliza a troca de elenco. Os perigos no caminho não são desvios de rota que impedem a chegada de um salvador; são a evidência de que o mapa foi desenhado para manter os viajantes rodando em círculos. O critério da prática, se aplicado com honestidade histórica, sugere que sem uma reforma profunda nas regras do jogo burocrático e na transparência radical dos atos, o cidadão fluminense continuará sendo periodicamente convocado às urnas para escolher, não um administrador, mas um novo rosto para um velho e eficientíssimo sistema de gestão da decadência.

    Fernando O.

    27/04/2026

    Márcio, assino embaixo do seu ceticismo quase todo, mas com um adendo: o eleitor comum não está trocando um sistema por outro, está só escolhendo, com os poucos dados que consegue processar, qual rosto terá mais chance de manter a máquina rodando sem explodir no colo dele. O problema nunca foi a euforia com pesquisa, mas o fato de que nenhum número de intenção de voto consegue medir a taxa de permeabilidade do gabinete.

      Maria Silva

      27/04/2026

      Você resumiu bem, Fernando. A tal permeabilidade do gabinete é só outro nome pra porta giratória entre políticos e quem compra as decisões. O eleitor comum é que nem gado no brete: só vê o que tá na frente.

        Ana Costa

        27/04/2026

        Entendo sua indignação, Maria, mas o retrato do eleitor como gado no brete me parece exagerado; pesquisas do Datafolha mostram que, apesar da desconfiança, há uma crescente busca por informação independente. Contudo, a porta giratória é real e precisa ser debatida com mais transparência.

Samara Oliveira

27/04/2026

Toda vez que aparece uma pesquisa favorável eu oro pra que a gente não se acomode. O povo carioca merece mais do que alívio momentâneo, merece políticas que arranquem as comunidades da fome e da violência sistêmica que a oração denuncia todos os dias. Mas liderança sem compromisso real com os pobres é só vaidade bem maquiada, e nisso o Espírito não sopra.

    Francisco de Assis

    27/04/2026

    Falou bonito, Samara. O Espírito só sopra onde tem compromisso com o povo, e isso não é discurso maquiado não — é ação, como a volta do Bolsa Família forte. A gente não se acomoda porque a luta é diária.

    Pedro

    27/04/2026

    Toda vez que vejo pesquisa favorável, olho pro painel do carro e vejo a gasolina lá em cima, aí me acomodo no banco mesmo. Oro também, dona Samara, mas enquanto o Espírito não baixar o IPVA, a fome na comunidade só vai aumentando.

      João Batista

      27/04/2026

      Pedro, o Espírito sopra onde quer, mas a gasolina sobe por quem controla os poços e os cofres. A fome na comunidade não é castigo divino, é roubo institucionalizado — e Jesus virou as mesas dos cambistas por bem menos.


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