Por Sara Goes
Em 2006, o Presidente Lula inaugurava um conjunto habitacional em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador. No meio da multidão, um menino de sete anos chamado Everton Conceição Santos tentava se aproximar. Um vizinho o ergueu sobre os ombros e, naquele instante, Ricardo Stuckert registrou uma das fotografias mais conhecidas da política brasileira recente.
Anos depois, a imagem ganhou um significado ainda maior. Em 2017, durante a Caravana Lula pelo Brasil, Everton reencontrou o ex-presidente. Já não era a criança da fotografia. Tinha 18 anos, morava na própria casa e sonhava ingressar numa universidade por meio do Enem ou do Prouni.

A fotografia deixava de ser apenas o registro de um encontro para se transformar numa narrativa sobre mobilidade social. Havia uma história antes da imagem e continuou existindo uma história depois dela.
Nos últimos dias, uma fotografia feita por Mateus Dantas durante uma agenda de Ciro Gomes em Tianguá chamou minha atenção. Nela, uma criança também aparece erguida sobre os ombros de um adulto para cumprimentar um líder político. Não creio que a semelhança seja casual. Tampouco me parece resultado de um encontro espontâneo registrado por acaso. Quando campanhas passam a ser conduzidas por profissionais experientes em linguagem visual, a repetição de determinados enquadramentos costuma obedecer menos ao acaso do que à intenção de ativar memórias já existentes no imaginário político do eleitor.

Foto: Mateus Dantas
Quem acompanha as movimentações recentes de Ciro percebe que sua pré-campanha é fortemente apoiada numa construção imagética. Há uma ocupação intensa dos espaços públicos por militantes, cartazes, bandeiras e palavras de ordem. Vídeos produzidos pelos próprios apoiadores mostram ambientes frequentemente dominados por demonstrações de força, confrontos verbais e uma estética de campanha marcada pela virulência. A lógica lembra menos as antigas caminhadas eleitorais e mais uma cenografia cuidadosamente organizada para produzir imagens de impacto.
Nesse aspecto, a estratégia guarda semelhanças com um recurso amplamente utilizado pelo bolsonarismo. Durante anos, Jair Bolsonaro transformou cenas banais em instrumentos de comunicação política. Suas famosas mesas de café da manhã não eram apenas cafés da manhã. Eram cenários. O pão francês, o copo americano, a toalha simples e os enquadramentos cuidadosamente escolhidos buscavam transmitir uma ideia específica de proximidade popular. A imagem era tão importante quanto a mensagem.
A fotografia de Tianguá parece cumprir função semelhante. Ela não registra apenas uma caminhada. Ela procura comunicar uma história.
Essa hipótese ganha ainda mais força quando se observa quem está por trás da construção da campanha. O publicitário João Santana, responsável pela campanha da reeleição do Presidente Lula em 2006, atua como principal estrategista da campanha de Ciro Gomes para o Governo do Ceará em 2026. Não se trata, portanto, de uma campanha conduzida por amadores ou dependente exclusivamente da espontaneidade das ruas. Trata-se de uma operação de comunicação dirigida por alguém que conhece profundamente o poder simbólico das imagens políticas e que participou da construção de algumas das fotografias mais marcantes da trajetória eleitoral de Lula.
Foi lendo um excelente artigo de Miguel do Rosário, publicado no Cafezinho sob o título “Colapso catastrófico ou vitória redentora?”, que compreendi melhor qual história é essa. Miguel escreve de maneira muito diferente da minha. Eu costumo observar símbolos, narrativas e movimentos culturais. Ele trabalha com pesquisas, dados e tendências eleitorais. Muitas vezes, Miguel demonstra com números aquilo que eu tento desenhar em forma de ensaio.
Seu argumento central é que a eleição de 2026 será uma disputa existencial para Ciro Gomes. Não se trata apenas de vencer ou perder o Governo do Ceará. Trata-se de definir o significado político de toda a sua trajetória recente.
Se vencer, Ciro poderá reorganizar retrospectivamente sua biografia. As derrotas presidenciais, os rompimentos, os conflitos internos e até mesmo a aproximação com setores da direita e da extrema direita poderão ser apresentados como etapas necessárias de uma caminhada difícil, mas bem-sucedida. A vitória transformaria anos de desgaste numa narrativa de perseverança.
A política costuma operar dessa forma. Quando alguém vence, o passado ganha coerência. As derrotas deixam de ser fracassos e passam a ser interpretadas como degraus.
Foi exatamente isso que ocorreu com Lula após 2002. As três derrotas presidenciais anteriores deixaram de representar insucessos eleitorais e passaram a integrar uma história de persistência e superação. O homem derrotado transformou-se no homem que insistiu até vencer.
Miguel sugere que Ciro parece apostar numa operação semelhante. A diferença é que Lula atravessou esse percurso permanecendo no mesmo campo político e preservando sua relação com a base social que o acompanhava desde as greves do ABC.
A trajetória recente de Ciro aponta para outro caminho. Em Barbalha, durante a tradicional festa de Santo Antônio, ele apareceu ao lado de lideranças do bolsonarismo cearense, entre elas Alcides Fernandes e Capitão Wagner. O episódio terminou marcado pela intervenção pública de um padre que pediu respeito ao ambiente religioso diante das manifestações políticas que ocorriam durante a celebração. Pouco depois vieram as vaias dirigidas à comitiva durante sua passagem pelas ruas da cidade.
Questionado por Camilo Santana sobre sua aproximação com o bolsonarismo, Ciro não negou o movimento. Preferiu defender seus novos aliados, classificando-os como “homens honrados”. Ao mesmo tempo, o PL articula a visita de Flávio Bolsonaro ao Ceará para fortalecer seu projeto eleitoral no estado.
Observados isoladamente, esses fatos poderiam parecer episódios desconectados. Observados em conjunto, revelam uma estratégia bastante clara: a construção de uma ampla frente anti-PT capaz de disputar o Ceará em 2026.
É justamente aí que a análise de Miguel e a minha se encontram. Miguel observa que essa estratégia pode produzir uma vitória redentora ou um colapso político. Eu observo que a própria campanha já parece organizada em torno dessa narrativa de redenção. As caminhadas pelo Interior, os vídeos cuidadosamente produzidos, os ambientes tomados por militantes, a estética do reencontro com o povo e até fotografias como a de Tianguá parecem compor uma mesma dramaturgia política.
A imagem da criança erguida sobre os ombros não é apenas uma fotografia. Ela funciona como um símbolo de uma história que a campanha deseja contar. A história do líder derrotado que retorna ao convívio popular e prepara sua volta por cima.
O problema é que histórias não se consolidam porque foram bem encenadas. Elas precisam ser confirmadas pelos acontecimentos.
A fotografia de Everton tornou-se histórica porque registrou uma transformação social que continuou existindo depois que a câmera foi desligada. O menino da imagem reapareceu anos mais tarde trazendo consigo uma história concreta de ascensão e expectativa de futuro.
A fotografia de Tianguá aponta para outra direção. Ela não registra uma trajetória consolidada. Registra uma aposta política. E é exatamente isso que está em jogo em 2026. Não apenas a disputa pelo Governo do Ceará, mas a tentativa de decidir se os últimos anos da trajetória de Ciro Gomes serão lembrados como a longa preparação para uma redenção política ou como o caminho que conduziu ao seu isolamento definitivo.
Sara Goes é uma jornalista, apresentadora, colunista, comunicadora e designer.


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