O analista geopolítico francês Arnaud Bertrand destacou um ensaio publicado no jornal econômico alemão Handelsblatt, escrito pelo correspondente em Xangai, Martin Benninghoff. O texto argumenta que a Alemanha e a Europa precisam deixar de analisar a China sob o prisma da propaganda ideológica e passar a tratar com fatos reais sobre o país asiático, sob o risco de formulação de políticas ineficazes, desenhadas para um cenário inexistente.
A análise aponta uma mudança estrutural na relação de forças globais. A China alcançou um nível de poder econômico, tecnológico e geopolítico que inviabiliza tentativas ocidentais de coerção unilateral. Diante da impossibilidade de forçar Pequim a seguir diretrizes estrangeiras, o Ocidente e a Europa perdem a capacidade de exercer pressão direta. Nesses termos, a única alternativa diplomática viável passa a ser a persuasão.
Para persuadir, no entanto, torna-se necessário compreender o interlocutor: o modo como pensa, o que o motiva e quais são seus objetivos estratégicos. No momento em que a coerção deixa de ser realizável, a propaganda ideológica perde a utilidade prática e passa a ser prejudicial para os próprios países ocidentais. Sem uma avaliação realista da China, as decisões econômicas europeias se baseiam em diagnósticos incorretos, o que prejudica a formulação de estratégias soberanas.
O distanciamento entre a formulação de políticas em Bruxelas e a realidade econômica é evidenciado pela proposta do “instrumento de sobrecapacidade” (overcapacity instrument). O dispositivo visa limitar o acesso de produtos chineses à União Europeia com base na premissa de que a capacidade de produção que supera o consumo doméstico de um país configura uma distorção de mercado. Esse critério, se aplicado de forma universal, criminalizaria as próprias indústrias exportadoras europeias, como o setor automotivo alemão ou a indústria de cosméticos francesa, que também dependem da exportação de seus excedentes.
Ao restringir produtos eficientes e de menor custo sob pressão das diretrizes norte-americanas, a Europa protege setores internos ineficientes a expensas de seus consumidores, que passam a pagar preços mais elevados por mercadorias de menor competitividade global. Ao contrário da China, que se desenvolveu abrindo suas portas para as corporações ocidentais de modo a competir e aprender com elas, o isolamento planejado pela União Europeia reduz os incentivos de modernização de seu próprio parque industrial, acelerando o declínio econômico do continente.
A análise completa de Arnaud Bertrand sobre o ensaio do Handelsblatt pode ser lida aqui.


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