As pegadas datadas de aproximadamente 14.400 anos atrás, encontradas na Caverna Bàsura, no noroeste da Itália, desvendam um engenhoso truque utilizado pelos humanos para se orientar em ambientes totalmente escuros. A pesquisa, publicada no ScienceDirect, destaca uma estratégia de iluminação cuidadosamente planejada, baseada em galhos de pinheiro, coordenação de grupo e controle rigoroso dos recursos.
A Caverna Bàsura tem sido estudada desde os anos 1950, inicialmente com a suposição de que os neandertais poderiam ter deixado marcas de passos. Posteriormente, datações por radiocarbono situaram as visitas ao final do Paleolítico Superior, durante o período Epigravettiano, próximo ao fim da última Era do Gelo.
O local preserva um raro registro comportamental: impressões de cinco humanos, traços de um canídeo, manchas de carvão nas paredes e tetos, além de grandes depósitos de restos de ursos-caverna. Esses elementos formam uma espécie de gravação ambiental de movimentos através de cerca de 800 metros de passagens subterrâneas.
Os pesquisadores descobriram que os galhos utilizados eram pequenos, geralmente com menos de dois a três centímetros de diâmetro. Madeira mais grossa, esperada em tochas tradicionais, aparece raramente. Galhos menores, por outro lado, acendem rapidamente e queimam de forma controlada, indicando uma seleção deliberada para eficiência e visibilidade sustentada em condições subterrâneas.
Para testar a viabilidade desses galhos, os cientistas realizaram experimentos em uma caverna próxima, com condições semelhantes. Cinco participantes, mirando o número de indivíduos das impressões, moveram-se usando feixes de galhos de pinheiro-silvestre preparados no mesmo tamanho dos fragmentos arqueológicos. Os resultados foram surpreendentemente precisos: dois galhos ardendo eram suficientes para iluminar o movimento de um grupo de cinco pessoas, com visibilidade estendida até cerca de 10 metros após adaptação ocular. Cada galho perdia aproximadamente quatro centímetros de comprimento por minuto durante a jornada ativa, estimando-se que cerca de 20 galhos, cada um com cerca de 30 centímetros, seriam necessários para a viagem completa, que duraria cerca de duas horas.
A configuração mais estável colocava uma fonte de luz na frente do grupo e outra atrás, reduzindo a desorientação em passagens sinuosas e ajudando a manter a consciência espacial no escuro. Os membros do meio do grupo dependiam de contato físico, geralmente uma mão no ombro da pessoa à frente, para manter a formação. Isso reflete que a jornada era tanto uma experiência tátil quanto visual, complicando a suposição de que a iluminação pré-histórica era primariamente sobre visibilidade. Em ambientes como a Caverna Bàsura, a iluminação também funcionava como uma ferramenta de coordenação social, regulando o espaçamento, o ritmo e a coesão do grupo.
Análises de sedimentos adicionam outra camada à história. Amostras de pólen indicam um cenário dominado por vegetação de estepe com florestas dispersas de pinheiros, consistente com condições frias e secas no final da Era do Gelo. O carvão, no entanto, é mais difícil de atribuir erroneamente. Seus padrões de distribuição, pequenos fragmentos sob marcas de parede e resíduos agrupados, correspondem de perto aos testes de queima experimentais. Isso reforça o caso de que os humanos estavam ativamente produzindo e gerenciando fogo em espaços confinados subterrâneos.
Conforme revelou a pesquisa, a realidade sugere um cenário mais restrito, onde as fontes de luz eram pequenas, de curta duração e cuidadosamente alocadas. Em vez de iluminação dramática, os viajantes pré-históricos operavam dentro de um corredor estreito de visibilidade, apenas o suficiente para evitar obstáculos, mas não o suficiente para revelar completamente a caverna. Essa distinção muda a interpretação de sítios de arte rupestre e trilhas de pegadas em outras partes da Europa, sugerindo que o movimento subterrâneo pode ter sido mais lento, deliberado e muito mais dependente da coordenação de grupo do que se supunha anteriormente.


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