As partes mais profundas dos oceanos, antes consideradas desertos biológicos, estão se revelando como habitats muito mais ricos do que os cientistas supunham. O Challenger Deep, o ponto mais profundo conhecido na Terra, localizado a cerca de 36.100 pés (11.000 metros) abaixo da superfície do oceano, na Fenda de Mariana, surpreendeu os pesquisadores com uma diversidade microbiana inesperada.
O projeto MEER, uma iniciativa de pesquisa abrangente focada na zona hadal, a parte mais profunda do oceano, trouxe à tona essas descobertas. Apesar das condições extremas, incluindo pressão intensa, temperaturas gélidas e total escuridão, os cientistas encontraram uma variedade surpreendente de vida florescendo nessas profundezas.
Douglas Bartlett, um microbiologista marinho da Universidade da Califórnia em San Diego, destacou que a pesquisa identificou mais de 7.000 espécies microbianas no abismo, sendo que 89% delas nunca haviam sido descritas anteriormente. Para Herrera, ecologista molecular da Universidade Lehigh, não envolvido no trabalho, esses resultados avançam significativamente a biologia marinha profunda.
A sobrevivência nesses ambientes desafiadores é possível graças a estratégias adaptativas diversas. Mo Han, biólogo da BGI Research, observou que as ferramentas genéticas desses microrganismos variam amplamente. Alguns possuem genomas menores e mais simples, enquanto outros têm genomas maiores e mais flexíveis, permitindo adaptações conforme as condições mudam. Alguns até carregam genes para se alimentar de substâncias duras, como óxido de carbono, crucial em um ambiente onde alimento é escasso.
Para alguns animais, a sobrevivência depende de relações simbióticas. Crustáceos anfípodes, por exemplo, são habitantes comuns da zona hadal, e um segundo estudo aponta que bactérias desempenham um papel crucial em sua sobrevivência. Shanshan Liu, pesquisadora da BGI e coautora do estudo, notou que os estômagos desses crustáceos contêm bactérias Psychromonas, que ajudam a produzir trimetilamina N-óxido, um composto que mantém os fluidos corporais em equilíbrio e protege contra danos causados pela pressão extrema.
Um terceiro estudo revelou que todas as espécies de peixes que vivem a cerca de 9.800 pés (três quilômetros) ou mais profundas compartilham a mesma alteração genética, que permite que suas células convertam genes em proteínas de forma mais eficiente, ajudando a lidar com a constante tensão de pressão, frio e escuridão.
Essas descobertas só foram possíveis graças a veículos submersíveis robustos. A equipe utilizou o Fendouzhe, um submersível chinês capaz de transportar três pessoas às águas mais profundas do planeta. Equipado com braços robóticos e cestas de amostras, o Fendouzhe realizou dezenas de mergulhos entre agosto e novembro de 2021, retornando com sedimentos ricos em micróbios, além de peixes e anfípodes.
No entanto, a expedição também trouxe à tona um problema perturbador: lixo humano, incluindo sacolas plásticas, garrafas de cerveja e latas de refrigerante, foi encontrado nas profundezas. Em outra fenda próxima, a Fenda de Yap, eles até encontraram uma cesta de roupa quase intacta. Apesar disso, a equipe descobriu que algumas bactérias marinhas podem decompor poluentes e extrair energia deles, oferecendo potenciais soluções para problemas de poluição ambiental.
Com apenas 20% da zona hadal explorada, os pesquisadores acreditam que ainda há muito a ser descoberto. Liang Meng, pesquisador da BGI, enfatizou que 80% da zona hadal permanece um mistério, e pode haver formas de vida ainda mais extraordinárias esperando para serem descobertas.
Os resultados deste estudo foram publicados na revista Science. Para mais informações, confira o artigo completo no Earth.com.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!