Pesquisadores do Max Planck Institute of Geoanthropology revelam que evidências encontradas na Côte d’Ivoire mostram que humanos habitavam florestas tropicais há 150 mil anos, desafiando a crença de que essas regiões eram inabitáveis para os primeiros seres humanos.
Até o momento, a ciência acreditava que nossos ancestrais evitavam as densas florestas tropicais da África, optando por áreas de pastagens abertas e regiões costeiras. No entanto, a arqueologia nos trouxe uma nova compreensão da adaptabilidade dos primeiros Homo sapiens.
As ferramentas de pedra encontradas no local, que datam de cerca de 150 mil anos atrás, expandem mais do que o dobro o conhecimento anterior sobre a habitação em florestas tropicais, sugerindo que esses primeiros humanos eram capazes de viver em uma variedade de ambientes diferentes.
Publicado na revista Nature, o estudo aponta para uma evolução humana que não se restringia a um único tipo de ambiente, mas sim se espalhou por uma gama diversa de ecossistemas, desde desertos e praias até florestas densas.
A investigação começou na década de 1980, quando a professora Yodé Guédé da Universidade Félix Houphouët-Boigny ajudou a examinar o sítio Bété I durante uma missão conjunta de pesquisa entre a Costa do Marfim e a União Soviética. A moderna tecnologia permitiu uma datação mais precisa e a confirmação de que o sítio era uma floresta tropical no passado.
Os cientistas utilizaram diversas técnicas para datar a idade das camadas de solo, que apontam para a presença humana há cerca de 150 mil anos. A análise de pólen e fitolitos (estruturas de sílica deixadas por plantas) mostrou que a área era uma floresta tropical úmida na época.
A descoberta muda a nossa compreensão da evolução humana, indicando que os primeiros humanos eram capazes de adaptar-se a diferentes habitats, o que pode ter ajudado a espalharem-se pelo mundo enquanto outros grupos humanos desapareciam.
O estudo também suscita questões sobre a influência humana sobre os ecossistemas tropicais, levantando a possibilidade de que populações antigas tenham moldado os ambientes florestais pela caça, o uso de fogo e o gerenciamento de plantas.
Os cientistas acreditam que a descoberta na Côte d’Ivoire pode ser apenas o início, com muitos outros sítios na região ainda por serem explorados, abrindo a possibilidade de que evidências ainda mais antigas de humanos em florestas tropicais possam ser encontradas.
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Carlos Rocha
20/05/2026
Interessante, mas me pergunto quanto dinheiro público foi torrado nessa escavação. Enquanto isso, o estado brasileiro segue afogando o empreendedor em impostos para financiar descobertas que não colocam pão na mesa de ninguém. A iniciativa privada, quando sobra algum recurso, pelo menos gera emprego e riqueza de verdade.
Letícia Fernandes
20/05/2026
Caro Carlos, preciso começar dizendo que compreendo a sua angústia — e digo isso sem um pingo de ironia. Ela é genuína, palpável, e merece ser acolhida antes de ser desmontada. O que o senhor expressa em seu comentário não é mera opinião desconexa; é a manifestação cristalina de uma subjetividade completamente capturada pela lógica do capital, que reduz toda atividade humana à equação rasteira do custo-benefício imediato, como se o valor de algo se esgotasse na sua capacidade de gerar emprego ou circular mercadoria. Essa miopia, contudo, não é uma falha de caráter individual — ela é o triunfo da superestrutura burguesa, que conseguiu convencer milhões de pessoas de que o único saber que merece existir é aquele que se dobra ao fetiche da utilidade econômica. O que me entristece, do ponto de vista clínico e político, é ver como essa lógica coloniza até a nossa capacidade de maravilhamento com a descoberta de que seres humanos, há 150 mil anos, já habitavam florestas tropicais no continente africano, reescrevendo tudo o que pensávamos sobre a plasticidade adaptativa da nossa espécie.
O problema central do seu argumento, Carlos, não está na defesa do empreendedorismo ou na crítica à carga tributária — debates legítimos, ainda que eu discorde frontalmente das suas premissas. O problema está numa falácia mais profunda, que é a de separar radicalmente a produção de conhecimento da produção de riqueza, como se fossem esferas antagônicas e mutuamente excludentes. O senhor diz que a iniciativa privada “gera emprego e riqueza de verdade”, e eu lhe pergunto: com base em qual tecnologia, em qual arcabouço científico, em qual compreensão acumulada sobre o mundo essa riqueza é gerada? O microchip no seu celular, o GPS que orienta suas entregas, os fertilizantes que sustentam a agricultura, até mesmo os algoritmos que otimizam seus investimentos — tudo isso deriva, em última instância, de pesquisas fundamentais que jamais passariam pelo seu crivo utilitarista imediato. A mecânica quântica, quando surgiu, parecia um delírio inútil de físicos desocupados; hoje, sem ela, não há transistor, não há computador, não há iniciativa privada alguma nos moldes que o senhor idealiza. Ao desprezar a arqueologia, a antropologia, a paleontologia, o senhor não está apenas revelando desinteresse pelo passado — está revelando uma incompreensão patológica sobre como o próprio presente se constrói, sempre sobre os ombros de saberes que a lógica do lucro jamais teria financiado espontaneamente.
É quase cômico, se não fosse trágico, que o senhor veja o Estado como o algoz do empreendedor, quando a função histórica do Estado burguês é justamente garantir as condições para a acumulação privada — e isso inclui financiar, com dinheiro público, as pesquisas que o mercado considera arriscadas demais ou lucrativas de menos no curto prazo. O empreendedor que o senhor defende não está afogado em impostos por causa de escavações arqueológicas na África; ele está afogado porque o grande capital financeiro drena os recursos da economia real para a especulação parasitária, enquanto os verdadeiros privilegiados do sistema tributário — bancos, latifundiários, rentistas — pagam proporcionalmente menos impostos do que o assalariado médio. Sua revolta é legítima, mas seu alvo está completamente deslocado: o senhor ataca a pesquisa que amplia nossa compreensão sobre a trajetória humana, enquanto absolve os mecanismos estruturais que realmente sufocam o pequeno empreendedor. Esse deslocamento, aliás, é um sintoma clássico que a psicanálise conhece bem — a agressividade dirigida a um objeto substituto, porque o confronto real com a fonte da angústia seria insuportável demais.
Termino com um convite que talvez o senhor recuse, mas que ainda assim farei: reflita sobre o que significa, para a sua própria humanidade, a descoberta de que membros da nossa espécie sobreviveram e se organizaram em florestas tropicais africanas muito antes do que imaginávamos. Isso não é um dado inútil, Carlos — é uma bofetada na arrogância ocidental que nos fez acreditar, por tanto tempo, que a história relevante da humanidade começava nas margens do Mediterrâneo ou nos palácios europeus. É a prova de que a resistência humana aos ambientes mais hostis precede qualquer modo de produção, qualquer Estado, qualquer mercado. Se isso não coloca pão na mesa de ninguém, talvez o problema não esteja na pesquisa, mas na mesa — ou melhor, nas relações de produção que fazem com que o pão, que deveria ser um direito, precise ser “colocado” por alguém que detém os meios de fazê-lo. Enquanto o senhor não compreender que a sua própria subjetividade é prisioneira dessa lógica que separa o útil do verdadeiro, o lucro do conhecimento, o emprego da emancipação, continuará repetindo esse discurso que é, ao mesmo tempo, tão inflamado e tão inofensivo para a ordem que realmente o oprime.
João Augusto
20/05/2026
Caro Carlos, o curioso em seu argumento é supor que a “riqueza” privada brota espontaneamente, sem os imensos investimentos estatais em infraestrutura, educação e conhecimento básico que historicamente subsidiaram toda inovação capitalista — uma amnésia conveniente que Gramsci chamaria de senso comum hegemônico. Sem pesquisa pública, não teríamos internet, GPS ou os próprios semicondutores que sustentam a iniciativa privada que o senhor exalta, e o empreendedor estaria vendendo miçangas na praia. O “pão na mesa” é, ele mesmo, fruto de uma longa cadeia de saberes coletivos que o mercado jamais teria custeado sozinho.