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Navegadores do abismo: Malta guarda vestígios de viagem oceânica de 8.500 anos e banquetes com ‘gigantes’ extintos

0 Comentários🗣️🔥 Arqueólogos trabalham em escavação que busca vestígios de antigos navegadores em Malta. (Foto: ecoticias.com) Muito antes de velas, bússolas ou cartas náuticas, um pequeno grupo de caçadores-coletores encarou o Mediterrâneo aberto rumo a uma ilha remota que parecia inacessível. A travessia não foi uma remada rente à costa, mas uma jornada de pelo […]

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Arqueólogos trabalham em escavação que busca vestígios de antigos navegadores em Malta. (Foto: ecoticias.com)

Muito antes de velas, bússolas ou cartas náuticas, um pequeno grupo de caçadores-coletores encarou o Mediterrâneo aberto rumo a uma ilha remota que parecia inacessível. A travessia não foi uma remada rente à costa, mas uma jornada de pelo menos cem quilômetros, provavelmente em canoas de tronco escavado, há cerca de 8.500 anos.

Essa descoberta, liderada pela professora Eleanor Scerri do Instituto Max Planck de Geoanthropologia e pelo co-investigador Nicholas Vella da Universidade de Malta, recua a pré-história maltesa em um milênio inteiro. O achado desafia a velha crença de que ilhas tão pequenas e isoladas só foram colonizadas depois que comunidades agrícolas já estavam plenamente estabelecidas.

As evidências centrais emergiram da Gruta de Latnija, na região setentrional de Mellieħa, onde escavações meticulosas revelaram ferramentas de pedra, espessas camadas de cinza e restos de animais queimados. Encontrar lareiras estruturadas — muito além de fogueiras eventuais — indica que aquelas pessoas não estavam apenas de passagem, mas cozinhavam, se aqueciam e repetiam visitas ao longo do tempo.

Chegar até Malta exigiu muito mais do que sorte. Vella calculou que os viajantes enfrentaram ‘várias horas de escuridão em mar aberto’, remando na noite sem farol algum, sem GPS e sem garantia de que a terra surgiria pela manhã. O ponto de partida mais provável foi a Sicília, e mesmo a uma velocidade média de quatro quilômetros por hora, as correntezas podem ter alongado a rota muito além da linha reta do mapa.

Essas pessoas pertenciam ao Mesolítico, a Idade da Pedra Média, período posterior à última Era Glacial, quando se vivia da caça, da coleta e da pesca. Elas não chegaram com campos de cereais, rebanhos de ovelhas ou tradições cerâmicas; eram navegadores e predadores de ecossistemas selvagens, não agricultores em expansão.

O cardápio que os vestígios revelam é surpreendentemente rico: cervos-vermelhos, tartarugas gigantes, aves, peixes, focas, caranguejos, ouriços-do-mar e milhares de caracóis marinhos comestíveis. Muitas dessas criaturas hoje estão extintas em Malta, e Scerri afirmou ter encontrado ‘milhares de ossos de animais, muitos deles queimados’, compondo um retrato vívido de jantares antigos no chão da caverna.

O estudo oficial, publicado na Nature, relata que aproximadamente um quarto dos restos faunísticos examinados exibia marcas de carbonização ou chamuscamento. Em termos cotidianos, o solo da Latnija preservou os vestígios de refeições preparadas ao fogo, fogueiras acesas repetidamente e ocupações que possivelmente duraram gerações.

James Blinkhorn, um dos autores correspondentes, sublinhou que os alimentos marinhos encontrados estavam ‘indubitavelmente cozidos’, o que evidencia um conhecimento preciso do uso combinado de terra e mar. Essa versatilidade teria sido crucial para sobreviver numa ilha minúscula de recursos limitados, onde cada proteína contava.

Essa história não é apenas sobre Malta, mas sobre a última Europa de caçadores-coletores e suas redes ainda mal compreendidas. O achado sugere que comunidades mesolíticas distantes podem ter mantido contato pelo Mediterrâneo muito antes do que os arqueólogos supunham, plantando a semente de uma conectividade marítima perdida.

Segundo apontou o portal Ecoticias, a investigação reforça que a tecnologia nem sempre caminha em linha reta do simples ao avançado. Pessoas com barcos rudimentares, observação aguda e experiência duramente conquistada podem realizar proezas que parecem quase impossíveis quando analisadas de uma mesa moderna.

Uma correção dos autores, publicada em janeiro de 2026, ajustou detalhes na modelagem de datações regionais por radiocarbono, mas não alterou a interpretação central de uma presença humana anterior à agricultura em Latnija. Isso é importante porque a arqueologia frequentemente ajusta cronologias e testa premissas sem derrubar o quadro geral.

A ilha de Malta, portanto, não foi primeiramente alcançada por agricultores trazendo um novo modo de vida, e sim por caçadores que moldaram a paisagem e pressionaram a fauna local muito antes. Os ‘gigantes’ que desapareceram — cervos anões, tartarugas colossais e aves que perderam o voo — podem ter sido os protagonistas de um primeiro capítulo de extinções insulares.

O Mediterrâneo, com essa descoberta, deixa de ser visto como uma barreira intransponível e passa a ser encarado como uma estrada perigosa, mas possível. Aqueles viajantes não tinham velas, cartas escritas ou ferramentas de metal e, ainda assim, desbravaram o azul profundo até uma ilha remota, deixando evidências suficientes para que cientistas reconstruíssem seu mundo oito milênios depois.

Resta a pergunta que o título entrega como fantasma: o que mais eles transportaram entre as ilhas, além de corpos e fome? Talvez ritos, canções, mapas mentais do céu estrelado ou mesmo sementes involuntárias agarradas às canoas, mas tudo isso pertence ao silêncio que a arqueologia luta para decifrar.


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