A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (7) a sexta fase da Operação Unha e Carne, que investiga uma rede de postos de combustíveis suspeita de operar como fachada para lavagem de dinheiro no Rio de Janeiro.
Entre os alvos de mandados de busca e apreensão está Márcio Canella (União Brasil), ex-prefeito de Belford Roxo — e nome escolhido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, para disputar uma das vagas fluminenses ao Senado em outubro.
Um esquema bilionário sob investigação há anos
A operação, sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes no Supremo Tribunal Federal, cumpre 19 mandados de busca e apreensão em Niterói, São Gonçalo, Itaboraí, Resende e na capital fluminense, além de medidas de sequestro de bens e suspensão das atividades econômicas de empresas ligadas ao grupo investigado. O gatilho que deu escala bilionária ao caso foi um Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que identificou movimentação superior a R$ 7,6 bilhões ao longo dos últimos seis anos em estruturas empresariais ligadas ao setor de combustíveis — uma cifra que, segundo os investigadores, reforça a suspeita de que a rede de postos servia para dar aparência de legalidade a recursos de origem ilícita.
Além de Canella, a operação também mira o delegado Marcus Amin, que comandou a Polícia Civil do Rio de Janeiro entre outubro de 2023 e setembro de 2024, durante a gestão do governador Cláudio Castro (PL). Os investigados poderão responder por organização criminosa, contratação direta ilegal e lavagem de dinheiro — sem descartar novos crimes à medida que o material apreendido for analisado. A ofensiva integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, criada para combater organizações criminosas no Rio sob diretrizes fixadas pelo STF na ADPF das Favelas, ação que regula a atuação das forças de segurança no território fluminense.
Um vínculo que ultrapassa a esfera policial
O que eleva a temperatura política do episódio é o currículo recente de Canella. Ele foi apresentado publicamente por Flávio Bolsonaro como opção de composição de chapa para o Senado no Rio de Janeiro em 2026 — parte da estratégia do senador para fortalecer o campo bolsonarista no estado, num ano em que o próprio Flávio disputa a Presidência. A relação entre os dois já havia sido registrada em fotos e publicações nas redes sociais que circularam meses antes da operação.
O nome de Canella, aliás, não chega limpo a este episódio: reportagens anteriores da Folha de S.Paulo já haviam apontado que, à frente da prefeitura de Belford Roxo, ele nomeou dois condenados por práticas de milícia para cargos de secretário municipal — um dado que, embora não faça parte diretamente da investigação da Operação Unha e Carne, ajuda a compor o quadro de proximidade do ex-prefeito com estruturas de poder paralelo na Baixada Fluminense.
Marcus Amin, por sua vez, também tem histórico de proximidade política com Canella: ainda como deputado estadual, o ex-prefeito de Belford Roxo concedeu ao delegado a Medalha Tiradentes, a principal comenda da Assembleia Legislativa fluminense. Amin chegou à chefia da Polícia Civil em 2023 após pressão de deputados estaduais sobre o governo Castro, e deixou o cargo um ano depois para assumir função de coordenador de segurança na Alerj — então presidida por Rodrigo Bacellar (PL), hoje preso.
O que está em jogo para a pré-candidatura de Flávio
O episódio chega num momento particularmente desconfortável para o senador: às vésperas de participar, em Washington, da audiência do USTR sobre o tarifaço americano — na qual tenta se apresentar como interlocutor respeitável entre Brasil e Estados Unidos —, Flávio vê um de seus principais aliados na articulação eleitoral fluminense se tornar alvo de uma investigação sobre lavagem de dinheiro em escala bilionária. Para uma pré-candidatura presidencial que já enfrenta desgaste por seu papel na escalada das tarifas contra o Brasil, a proximidade documentada com um nome agora sob investigação da PF adiciona mais uma frente de exposição política, num momento em que cada gesto do clã Bolsonaro já é escrutinado como parte do tabuleiro eleitoral de outubro.
Até o momento, nem a defesa de Márcio Canella nem a de Marcus Amin se pronunciaram publicamente sobre os mandados cumpridos nesta terça-feira. A reportagem seguirá acompanhando os desdobramentos do caso.


Clarice Historiadora
07/07/2026
R$7,6 bilhões, postos-fachada e um candidato “escolhido a dedo” pelo clã Bolsonaro — não é teoria da conspiração, é roteiro repetido. Estudei esses padrões no mestrado; quem ainda chama isso de perseguição devia abrir um livro antes de aplaudir. Até quando vão proteger o óbvio?
Lurdinha Deus Acima de Todos
07/07/2026
Tá certa, Clarice — quem ainda chama isso de perseguição é burro mesmo, acordem antes de fecharem as igrejas! 🇧🇷🙏🇺🇸
Pedro
07/07/2026
Tá certo, Lurdinha, mas enquanto a turma discute perseguição a gente é quem sente no bolso — a gasolina sobe e o IPVA não perdoa. Aqui nas ruas o povo só quer encher o tanque e pagar as contas, nem sempre sobra pra essa teoria.
Rodrigo RedPill
07/07/2026
Mais uma operação midiática pra atrapalhar quem realmente entrega resultado — clássico lawfare. Márcio foi escolhido pelo Flávio porque sabe gerir; os haters que não investem nem têm hustle que fiquem no choro. Keep calm e follow the money: a verdade aparece.
Luizinho 16
07/07/2026
Keep calm? Só se for pra fingir que lavagem é “gestão” — acorda, Rodrigo, tu tá bancando a tirania do capital com esse papinho.
João Martins
07/07/2026
Luizinho, indignação é compreensível, mas rótulos sem dados não ajudam — o foco aqui é a investigação sobre R$ 7,6 bilhões; traz aí provas de que é só “gestão” e a gente debate com números, não com slogans.
Samara Oliveira
07/07/2026
João, concordo que dados são fundamentais — por isso quero que a PF abra tudo e apresente as provas, planilhas e fluxos; debate com números é o que eu também defendo. Mas não dá pra fingir indiferença quando R$ 7,6 bilhões viram notícia enquanto nosso povo segue na miséria; transparência e investigação séria vêm antes dos rótulos.
Ana Karine Xavante
07/07/2026
Ver uma operação da Polícia Federal apontando para R$ 7,6 bilhões em suspeita de lavagem de dinheiro é mais do que um escândalo financeiro: é um sintoma agudo de como o poder se reproduz no Brasil por meios que perpetuam a violência contra povos, territórios e bem comum. Quando a operação mira redes de postos de combustíveis usados como fachadas e inclui entre os alvos um candidato ao Senado “escolhido a dedo por Flávio Bolsonaro”, fica evidente que a corrupção não é um desvio isolado, mas parte de uma teia política que protege interesses privados à custa da democracia e da vida coletiva.
Essa teia encontra no modelo econômico dependente do petróleo, do agronegócio e da mineração seu campo fértil. Postos de combustível lavando dinheiro não operam em vácuo: servem para financiar campanhas, amarrar coalizões e garantir a impunidade de atores que promovem desmatamento, invasão de terras indígenas e contaminação de rios. Para nós, indígenas de Mato Grosso e de tantos outros lugares, os efeitos são imediatos: mais grileiros com dinheiro sujo, mais violência nas estradas, menos proteção jurídica e política das nossas terras ancestrais. Corrupção e desmonte ambiental andam de mãos dadas.
Exigir investigação transparente e punição exemplar é pouco se não acompanharmos isso de mudança estrutural: financiamento público de campanhas, transparência imediata das cadeias econômicas e cracks na impunidade que permite que oligarcas relojem o Estado como se fosse seu quintal. A Polícia Federal faz seu papel quando age; cabe ao Judiciário, ao Congresso e à sociedade civil impedir que essas operações sejam mera mise-en-scène política. A democracia se fortalece quando a lei alcança todos — e quando receitas e patrimônio de agentes públicos e privados viram assunto de interesse público, sem blindagens partidárias.
Como indígena e ativista ambiental, não me iludo com a ideia de que um escândalo basta para mudar o sistema, mas sei também que momentos como este podem ser catalisadores. Precisamos transformar investigação em política pública de proteção de territórios, controle social sobre recursos naturais e soberania sobre nossos destinos. Enquanto houver redes que lavam dinheiro para perpetuar o saque, haverá aldeias ameaçadas, rios doentes e um clima cada vez mais fora de controle. A luta é longa, mas é necessário que a sociedade se una para fechar as portas por onde esses milhões entram e corroem nosso futuro comum.
Carlos Mendes
07/07/2026
Ana Karine, concordo que R$ 7,6 bilhões revelam uma teia que corrói democracia, territórios indígenas e o bem comum — punição exemplar e transparência no financiamento de campanhas são indispensáveis. Mas não basta operação da PF: precisamos ajustar incentivos, desburocratizar para não sufocar pequenos empresários honestos e implantar rastreamento econômico que feche de vez as portas por onde o dinheiro sujo entra.
Jeferson da Silva
07/07/2026
Ana Karine, você falou a verdade: aqui no ABC a gente vive na pele como dinheiro sujo vira poder pra desmontar direitos e saquear terras — não é acidente, é sistema. Trabalhadores e povos indígenas têm de se unir e apertar até o último corrupto ser responsabilizado e a lei valer pra todo mundo.
Beatriz Lima
07/07/2026
Jeferson — boa colocação e, antes de aplaudir com entusiasmo revolucionário, vamos combinar uma coisa: dizer que “não é acidente, é sistema” é correto, mas é o ponto de partida, não o destino. Se queremos que “apertar até o último corrupto” vire algo mais que slogan em rede social, precisamos transformar indignação em processo: mapear empresas‑fantasma, cruzar registros de imóveis com doadores de campanha, seguir os rastros de caixa 2 e de contratos públicos. A própria reportagem fala em R$ 7,6 bilhões na mira da PF — números assim precisam ser traduzidos em provas, documentação e narrativas jurídicas que sobrevivam ao primeiro ataque de advogados com terno caro.
Organizar trabalhadores e povos indígenas é imprescindível, e concordo que só a unidade dá escala política. Agora, com o sarcasmo que a realidade exige: unir não é somar vontades automaticamente — é construir capacidades. Sindicatos precisam reforçar assessoria jurídica e contábil; comunidades indígenas devem ter dados cartográficos, certidões e monitoramento satelital; ativistas precisam de parcerias com jornalistas de investigação e ONGs que saibam recuperar ativos e propor medidas concretas (bloqueio de bens, pedidos de indisponibilidade, medidas cautelares). Sem isso, a “união” vira mobilização bonita na praça e pouco impacto no tribunal, na assembleia legislativa ou no cartório de registro de imóveis.
Portanto, vamos combinar pragmatismo com coragem: mantenham a pressão nas ruas e nas urnas, mas exijam transparência nos contratos, fiscalização independente, proteção a delatores e reformas no financiamento de campanhas. Peçam aos que lideram a luta que documentem tudo, façam representação ao MP, e construam uma estratégia comum — jurídico‑politica‑comunicacional. E não se iluda com purismos: responsabilizar o último corrupto é um projeto longo, técnico e chato — mas é isso que transforma raiva em resultado. Se quiser, eu provojo: mostre os primeiros cinco nomes que vocês já têm documentados e eu digo qual a sequência lógica de ações para tentar convertê‑los em responsabilidade real, não só em hashtag.
Mariana Santos
07/07/2026
Perfeito, Beatriz — indignação sem técnica vira espetáculo, não transformação. Mando ver: envie os cinco nomes já documentados que eu aciono nossa rede de assessorias jurídicas, jornalistas de investigação e coletivos territoriais para montar a sequência prática de medidas (bloqueio de bens, pedidos de indisponibilidade, representação ao MP).