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Viagem de Flávio Bolsonaro aos EUA revela contradição ao tratar de tarifaço contra o Brasil

A ida de Flávio Bolsonaro a Washington para audiência sobre tarifa de 25% contra o Brasil expõe choque com o interesse nacional e ameaça empregos.

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Brasília, 6 de julho de 2026 — o senador Flávio Bolsonaro em registro na capital federal. Foto: EBC/Agência Brasil Oficial.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) embarcou para Washington para participar de uma audiência do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sobre um possível tarifaço contra produtos brasileiros. O movimento, que desloca a pré-campanha do terreno doméstico para o front comercial externo, expõe uma contradição incômoda: em vez de defender os interesses do país, o senador parece disposto a prestigiar uma pauta cara a aliados em Washington. Não há nada de patriótico em colocar holofotes estrangeiros acima da indústria e do emprego brasileiros.

De acordo com o roteiro divulgado, o parlamentar chegou à capital americana no sábado e será um dos expositores no segundo e último dia de debates sobre a possível imposição de uma tarifa adicional de 25% a bens do Brasil. Trata-se de uma audiência pública organizada pelo USTR, órgão responsável pela investigação comercial aberta contra o país. A mera presença de um senador brasileiro nesse palco, sem mandato institucional claro, já é um recado: a plateia principal não está em Brasília, mas em Washington.

O impacto potencial de uma sobretaxa dessa magnitude não é detalhe técnico. Levantamentos oficiais de comércio exterior mostram que os Estados Unidos foram, em 2023, o segundo maior destino das exportações brasileiras, compondo parcela relevante da pauta nacional. Um tarifaço de 25% contra produtos do Brasil atingiria setores-chave e cadeias produtivas integradas, com efeito dominó sobre faturamento, renda e postos de trabalho no país. A aritmética é simples: barreira lá fora, prejuízo aqui dentro.

O dano não pararia no fluxo comercial. Estatísticas do Banco Central do Brasil apontam os Estados Unidos como uma das principais origens do investimento direto no país, capital decisivo para expansão de capacidade, inovação e contratações. Ao alimentar um ambiente de hostilidade tarifária, a mensagem enviada a investidores é a pior possível: instabilidade política convertida em risco econômico. Se a conta vier, não serão os aliados de Washington a pagá-la, mas o trabalhador brasileiro.

Há ainda o ponto institucional, que não é menor. A Constituição Federal, no artigo 84, estabelece que a condução da política externa é prerrogativa do Presidente da República, com a execução diplomática a cargo do Ministério das Relações Exteriores. Não há registro público de que o Itamaraty tenha delegado a Flávio um mandato oficial para negociar ou falar em nome do Brasil numa audiência desse porte. Quando um senador atua fora desse marco, o que se vê é improviso de paradiplomacia pessoal, não defesa da soberania.

O USTR vende suas iniciativas como defesa de equilíbrio concorrencial, mas a prática é bem menos romântica: sanções comerciais seletivas têm sido usadas para pressionar países do Sul Global a alinhar agendas à conveniência de Washington. Ao se apresentar como expositor numa audiência que discute sobretaxar o Brasil, Flávio escolhe a cena em que o país é colocado no banco dos réus. Em vez de construir pontes comerciais, legitima o tribunal que mira nossa pauta exportadora.

Do ponto de vista econômico, o momento exige o oposto: previsibilidade regulatória, abertura de mercados e defesa ativa do parque produtivo nacional. Dados recentes do comércio exterior e do fluxo de investimentos mostram que relações equilibradas com os EUA interessam ao Brasil quando pautadas por respeito e simetria. Sobretaxas punitivas só ampliam a desigualdade entre países e elevam o custo de quem produz aqui, corroendo margens e desestimulando novos projetos.

Do ponto de vista político, a escolha é didática. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem reiterado a importância de uma inserção internacional soberana, com diversificação de parceiros e reforço de cadeias regionais. O Itamaraty trabalha nesse eixo, com diálogo técnico e defesa firme do interesse nacional. Ao preferir a vitrine de uma audiência organizada pelo governo dos EUA, Flávio caminha na direção contrária, alimentando a narrativa de que o Brasil deve aceitar pressões unilaterais em vez de negociar de igual para igual.

No fim, a questão é menos de agenda eleitoral e mais de prioridade de país. Um senador pode usar um voo internacional para duas coisas: defender quem produz no Brasil ou posar para aliados que veem vantagem em encarecer o que exportamos. A audiência do USTR servirá como prova dos nove. O Brasil precisa de soberania comercial, não de aval político a tarifaços ditados em Washington.

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