Um fórum de cooperação entre a província chinesa de Jiangsu e países da América Latina e Caribe, realizado na cidade de Yangzhou, serviu de vitrine para Pequim anunciar um dado expressivo: o comércio da província com a região somou 57,2 bilhões de dólares em 2025 — mais de 10% de todo o intercâmbio entre a China e a América Latina. O evento reuniu diplomatas, funcionários do governo chinês, acadêmicos e jornalistas em intercâmbio no país, incluindo correspondentes de veículos brasileiros.
O prefeito de Yangzhou, Zheng Haitao, destacou que o comércio exterior do município com a região já ultrapassa 11 bilhões de yuans, e reafirmou a disposição da cidade em aprofundar a cooperação em áreas como coordenação industrial e desenvolvimento verde. Já o diretor-geral do escritório de relações exteriores de Jiangsu, Lu Hualiang, atribuiu o resultado ao desempenho da própria província, que registrou PIB regional de 14,2 trilhões de yuans em 2025, com crescimento de 5,3%.
O tom predominante do evento — repetido por autoridades chinesas como Xu Wei, do Ministério das Relações Exteriores — foi o de uma parceria “de benefícios mútuos”, ancorada nos cinco programas centrais definidos na 4ª Reunião Ministerial do Fórum China-CELAC, realizada em maio de 2025. Segundo Xu, diversos países latino-americanos já aderiram ao Instituto Internacional de Mediação proposto por Pequim, num sinal do avanço da coordenação multilateral entre os dois blocos nas Nações Unidas.
Os números amplos da relação bilateral, de fato, impressionam: o comércio entre China e América Latina somou US$ 247,3 bilhões só nos cinco primeiros meses de 2026, um crescimento de 17,6% em relação ao ano anterior. A China também amplia a isenção unilateral de vistos para vários países da região e já opera 24 rotas aéreas diretas com a América Latina — entre elas o voo comercial mais longo do mundo sem escalas, ligando o país a Buenos Aires.
O que o discurso oficial não menciona: reprimarização e dependência crescente
O que falta nesse tipo de evento — como é praticamente regra em fóruns diplomáticos organizados por qualquer potência anfitriã — é o contraponto crítico. E ele existe, e é robusto. Um relatório divulgado pela agência de classificação de risco Moody’s no início de julho colocou a crescente dependência da região em relação à China entre os dois principais riscos para a América Latina em 2026, ao lado da dificuldade dos países de estabilizar suas dívidas em ambiente de juros altos. Segundo a agência, as exportações chinesas para a região praticamente dobraram desde 2020, somando cerca de US$ 300 bilhões em 2025 — enquanto as vendas latino-americanas para a China ficam cada vez mais concentradas em commodities como minérios, soja e petróleo.
A preocupação da Moody’s é conhecida na literatura econômica como reprimarização: a relação comercial empurra a região para baixo na cadeia de valor, aprofundando a dependência de produtos básicos e reduzindo o espaço para indústrias de maior valor agregado — o que aumenta a vulnerabilidade da América Latina a choques de preço de commodities e à desindustrialização de longo prazo.
Analistas ouvidos pelo veículo ambiental Dialogue Earth também apontam mudança de padrão: o financiamento direto do Estado chinês para a região vem caindo, dando lugar a uma presença mais seletiva e liderada por empresas — em especial nas áreas de minerais críticos como lítio e cobre, essenciais para a transição energética chinesa, mas que já geram tensões socioambientais em comunidades locais no Cone Sul e nos Andes.
A disputa geopolítica de fundo
O evento em Jiangsu também não existe no vácuo: ocorre em meio a uma pressão explícita do governo Trump para conter a influência chinesa no que Washington chama de sua “esfera de preeminência” hemisférica. A Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, publicada em dezembro de 2025, e a Estratégia de Defesa Nacional, de janeiro de 2026, tratam a presença chinesa na região — incluindo investimentos portuários, como o megaporto de Chancay, no Peru — como um problema estratégico direto. Análises recentes, porém, indicam que essa pressão americana tem produzido mais ganhos simbólicos pontuais do que uma reversão estrutural da presença chinesa, na ausência de alternativas concretas de investimento e financiamento por parte de Washington.
O resultado é um quadro mais complexo do que a narrativa de “parceria vencedora para as duas partes” apresentada em fóruns como o de Yangzhou sugere: a região segue lucrando com a demanda chinesa por suas commodities, mas paga um preço, em autonomia estratégica e diversificação produtiva, que dificilmente aparece nos discursos oficiais de ocasião.


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